EDITORIAL

Cenários futuros

Como está cenário político brasileiro às vésperas de uma eleição presidencial decisiva entre o atual presidente Lula e Flávio Bolsonaro? O futuro das instituições democráticas e da proteção ambiental está sob grave ameaça

Você vai votar para presidente do Brasil dentro de um mês, numa eleição que acabou por se constituir num enorme desafio para os democratas, sejam eles de esquerda ou de direita. O mundo todo acompanha esse pleito, considerando o Brasil e o governo Lula um dos últimos bastiões da democracia diante de uma guinada global à direita. O México é outro país ameaçado e pressionado, com sua brilhante presidenta, Claudia Sheinbaum, sabendo se defender de acusações infundadas; mas lá as eleições ainda estão distantes.

O Brasil tem cada vez mais importância no cenário mundial. Na América Latina, nos governos Lula, o país liderou a articulação de um bloco regional, a Unasul, criando novas capacidades de negociação com os demais países do mundo. Um dos fundadores do Brics, o governo brasileiro integra um bloco com grande poder político, que busca atuar junto aos países mais pobres, financiando a construção de infraestruturas para o desenvolvimento. Sua importância não é só como produtor de commodities e detentor de recursos naturais. Na geopolítica, o atual governo Lula recuperou o protagonismo e o prestígio do Brasil no cenário internacional, e é uma liderança em defesa do multilateralismo, da paz, da integração entre países e culturas, da luta contra a pobreza.

Não se pode esquecer que, na eleição passada, em 2022, com a vitória de Lula, tentou-se um golpe de Estado fracassado, que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro e oficiais das Forças Armadas à prisão.

A disputa atual entre Lula e Flávio Bolsonaro tem um componente a ser considerado. O governo Trump e as plataformas digitais como o X, o YouTube e o WhatsApp estão alinhados na defesa de Flávio para derrotar Lula. Isso não é novo – essas pressões já estiveram presentes na última eleição –, mas agora se prevê uma ação bem mais intensa.

O plano de governo de Trump nesse segundo mandato vê a América Latina como seu território, numa perspectiva neocolonial e, aliado a Flávio Bolsonaro, não deixará de lançar mão da manipulação de informações, fake news, acusações sem fundamento, tentativa de destruir a imagem de candidatos opositores e questionamento do resultado das eleições, se for o caso.

As plataformas digitais não querem a regulação ou limitação de seus negócios; outras empresas, como as de cartões de crédito, querem destruir a concorrência do Pix. A China precisa ser contida em sua expansão de negócios na América Latina. Há interesses poderosos do governo e da sociedade norte-americana que querem Lula fora do próximo governo. Esses interesses tramam nos bastidores, buscam manipular por meio das plataformas digitais, financiam a oposição.

© Cláudius

Estamos às portas das eleições, e a discussão sobre o futuro dos brasileiros e brasileiras, na campanha de Flávio Bolsonaro, não existe. A campanha da ultradireita fascista está centrada em denúncias de corrupção e políticas de segurança pública. Mais violência, mais presídios, mais mortes. Mas o que vai melhorar na vida dos brasileiros e brasileiras? Se Flávio ganhar, o que vai acontecer?

Seu programa de governo propõe reduzir o papel do Estado e das políticas sociais, e cortar dez ministérios. Não é difícil identificar ministérios e órgãos públicos que estarão na mira: Direitos Humanos e Cidadania, Mulheres, Meio Ambiente e Mudança do Clima, além de mudanças profundas nos ministérios da Educação, da Cultura e da Saúde. Sem falar nos órgãos de fiscalização, como ICMBio e Ibama. Universidades, órgãos de financiamento de pesquisas, como a Finep, e institutos de pesquisa, como a Fiocruz e o Butantan, também estão na mira. Ele segue o modelo Trump.

Há também a proposta de revisão dos marcos regulatórios, o que abre espaço para desmatamento, mineração, exploração de terras-raras, destruição ambiental e das reservas indígenas. A lógica é facilitar a transferência do patrimônio público para empresas privadas e cortar aquilo que atende às demandas sociais e de qualidade de vida da população brasileira em setores de interesse público até agora protegidos, como o SUS.

Serviços essenciais passam a ser considerados oportunidades de bons negócios, sacrificando a qualidade dos serviços públicos em favor do lucro. Podemos ver o resultado disso na precariedade dos serviços da Enel, da Sabesp e de empresas concessionarias de linhas do metrô de São Paulo. Na educação, Flávio propõe a expansão das escolas cívico-militares, a educação dos quartéis: disciplina e obediência.

Por fim, cabe destacar uma visão repressiva que pede o aumento da capacidade das prisões, a castração química para estupradores e a letalidade policial – todas promessas contidas no plano de governo –, além de uma subordinação total aos Estados Unidos e do fim da perspectiva de um Brasil soberano, independente.

Mas o plano de governo não diz tudo. Temos de recorrer à história desse personagem para compreender a amplitude da mudança que está na mesa. Flávio Bolsonaro tem ligações com o Escritório do Crime de Rio das Pedras, assassinos que aceitam encomendas por dinheiro. Tem relações com as milícias do Rio de Janeiro, empregando integrantes e familiares como assessores parlamentares e homenageando milicianos em atos na Alerj. Existem ainda suspeitas de seu envolvimento na construção de imóveis clandestinos em áreas sob controle das milícias; a extorsão de seus funcionários na Assembleia Legislativa por meio da “rachadinha”, um percentual dos salários desses funcionários que é depositado em sua conta; a loja de chocolates que, supostamente, lava dinheiro ilegal; a compra de 37 imóveis, de 2010 a 2017, com dinheiro vivo; a compra da mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB; e, mais recentemente, sua relação com Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse. Vorcaro teria financiado também as candidaturas de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e outros que hoje são deputados do PL.[1]

Digamos que nem seu programa fala dos problemas do Brasil nem sua história pessoal apresenta as melhores credenciais para um candidato à Presidência da República. Apesar de tudo isso, nas últimas pesquisas eleitorais Flávio Bolsonaro estava com 31% dos votos, em segundo lugar, com uma diferença de oito pontos para o primeiro colocado, Lula.[2] Flávio é competitivo.

Ainda que o núcleo do bolsonarismo esteja desgastado e dividido e a direita busque outras formas de expressão além da candidatura de Flávio, há uma preocupação entre os democratas em relação a eventos ou acontecimentos que possam favorecer sua candidatura. A facada elegeu o pai. O filho adotará recursos semelhantes? Os Estados Unidos vão interferir? São tempos difíceis, que precisam de toda a atenção da cidadania. O jogo não está ganho.

 

[1]Larissa Bohrer e Maria Teresa Cruz, “‘Candidatura de Flávio Bolsonaro é mais ameaçada do que a de Lula’, avalia cientista político”, Brasil de Fato, 9 abr. 2026.

[2]“Pesquisa Quaest para presidente: veja números da última e quando sai nova”, UOL, https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/20/pesquisa-quaest-para-presidente-veja-numeros-da-ultima-e-quando-sai-nova.ghtm.

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