Resenha de ‘Foi um jeito de derreter’, de Jessica Stori
Com publicação pela Telaranha Edições, Foi um jeito de derreter é o segundo livro da escritora, ilustradora e doutora em História Jéssica Stori. A obra é uma novela transdisciplinar, unindo as linguagens da fotografia e da escrita, tendo sido lançada com o apoio do Edital Rumos, do Itaú Cultural
A premissa do livro é a de que, a narradora, após receber a notícia de que Marta (a quem não vê há anos) precisa de ajuda, decide visitá-la. Ela a encontra em vulnerabilidade – física, social e psíquica – e, sua casa, em situação de abandono. A partir daí, ela se vê na posição de cuidar da personagem, buscando reconstruir sua história a partir da revisita ao passado que viveram juntas.

Trata-se, assim, de um livro que busca escrever sobre alguém a quem “não se pode mais fazer perguntas”, mesclando Marta e a narradora – a enferma e a que cuida, respectivamente. Marta aparece a partir de fragmentos, de silêncios, e também das imagens que permeiam os capítulos da obra, que não trazem paisagens e nem pessoas, mas elementos cotidianos, como roupas jogadas e manuscritos em papel de caderno, o que nos aproxima do cotidiano das personagens.
A novela se destaca pelo mistério que vai construindo e, principalmente, pelas perguntas que suscita no leitor, como quem é Marta?, o livro é sobre Marta ou sobre a narradora?, qual é o grau de intimidade que ela de fato tem com Marta?, dentre outras.
Foi um jeito de derreter é, desta forma, um lançamento potente, que se lança a um dos principais questionamentos do nosso tempo: qual é o limite entre o eu e o outro?. O livro deve ser lido com atenção aos detalhes e às relações entre imagem e palavra. Trata-se de uma obra construída a partir da memória e do cuidado, evocando as fronteiras da subjetividade.
Laura Redfern Navarro (2000) é poeta, jornalista e pesquisadora.

