Rubio, Vieira e a relação Brasil-EUA
Declarações do secretário de Estado norte-americano e do ministro das Relações Exteriores brasileiro revelam concepções mais amplas de política externa e influenciam quais problemas chegam aos presidentes, quais respostas parecem aceitáveis e até onde uma negociação pode avançar
Em 16 de julho, ao justificar a imposição de novas tarifas contra produtos brasileiros, Marco Rubio afirmou que o governo Lula não havia negociado “de boa-fé” e que o presidente colocara “o próprio ego” acima dos interesses da população. Horas depois, Mauro Vieira classificou as declarações como “inaceitáveis e ofensivas” e acusou Rubio de atacar, “de forma grosseira e arrogante”, o chefe de Estado de um país amigo. Washington, acrescentou o chanceler brasileiro, não buscara propriamente um acordo, mas a “capitulação” do Brasil.

A troca pública de acusações revelou mais do que uma divergência sobre tarifas. Colocou frente a frente duas maneiras de interpretar a relação entre Brasil e Estados Unidos. Os dois países mantêm vínculos políticos, econômicos, sociais e culturais construídos ao longo de mais de dois séculos. Essa proximidade nunca eliminou as divergências. A tensão atual não constitui uma fricção inédita, muito embora o comportamento imprevisível em determinados assuntos assuste. O que também chama a atenção é a linguagem usada pelos representantes para expressá-la e a maneira como diferenças de posturas dos chanceleres começam a atingir os termos da própria relação bilateral.
Atual secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional interino dos Estados Unidos, Rubio é um político com trajetória partidária, projeção eleitoral e investimento pessoal nas questões latino-americanas. Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, é um diplomata de carreira formado no Itamaraty, instituição que historicamente reivindica continuidade, profissionalismo e autonomia na condução da política externa brasileira. São trajetórias distintas, mas que se cruzam no momento em que os dois precisam sustentar posições sobre a histórica relação entre Brasil e Estados Unidos. Suas palavras revelam concepções mais amplas de política externa e influenciam quais problemas chegam aos presidentes, quais respostas parecem aceitáveis e até onde uma negociação pode avançar.
Essa diferença de trajetória também parecer refletir no modo como exercem o cargo. Vieira é visto por outros colegas de profissão como um “diplomata de qualidade”, ocupou postos relevantes durante governos de orientações distintas e costuma apresentar suas posições por meio da linguagem institucional do Itamaraty. Rubio combina diplomacia, política partidária e comunicação direta com o público doméstico. Ataques nominais a governantes, anúncios pelas redes sociais e referências às eleições de outros países extrapolam os padrões mais reservados da diplomacia tradicional, mas encontram espaço em um governo que transforma negociações internacionais em confrontos públicos.
A América Latina oferece um espaço para observar essas diferentes visões e estilos de atuação. De um lado, Rubio se apresenta e é percebido como um dos principais condutores da política norte-americana para a América Latina. Sua chegada ao Departamento de Estado colocou no centro do governo um político que acompanha há décadas Cuba, Venezuela, Nicarágua, a expansão chinesa e os governos latino-americanos de esquerda. Em sua leitura, a região foi negligenciada por Washington durante vinte anos e acabou exposta à presença da China e de outras potências. O resultado esperado é um hemisfério mais alinhado às prioridades dos Estados Unidos em áreas como migração, narcotráfico, segurança e infraestrutura estratégica. O grau de cooperação com Washington parece assumir, em alguns casos, maior importância do que a natureza democrática dos governos da região. Governos dispostos a colaborar podem ser tratados como parceiros. Os resistentes ficam mais sujeitos a pressões políticas, econômicas e diplomáticas.
Do outro, Vieira recorre ao vocabulário tradicional da diplomacia brasileira: autonomia, soberania, não ingerência e negociação entre Estados que se reconhecem como iguais. Para o chanceler brasileiro, a América Latina constitui parte de uma inserção internacional baseada na integração regional e na diversificação de parcerias. O chanceler já afirmou que a integração com os vizinhos sul-americanos e latino-americanos constitui uma orientação inscrita na Constituição brasileira. Associou essa prioridade à independência nacional, à diversificação das relações externas e à construção de uma ordem multipolar estável. A região não aparece como tabuleiro sobre o qual o Brasil deva exercer autoridade, mas como espaço compartilhado a partir do qual o país procura ampliar sua autonomia e sua capacidade de atuação internacional.
Cuba torna esses contrastes particularmente visíveis. Para Rubio, o país não representa apenas um regime autoritário. Em seus pronunciamentos, Cuba aparece como centro de espionagem e de operações de influência, além de ponto de apoio para adversários dos Estados Unidos. Sanções, isolamento diplomático e pressão sobre países que cooperam com Havana tornam-se, nessa leitura, instrumentos legítimos de contenção.
Vieira parte de outro enquadramento. Em pronunciamento na Assembleia Geral da ONU, em outubro de 2024, reiterou a “firme, categórica e constante oposição” do Brasil ao embargo econômico, comercial e financeiro contra Cuba, ao qual atribuiu “sofrimento incalculável” e obstáculos ao desenvolvimento do país. Ao visitar Havana, em janeiro de 2025, Vieira reforçou a posição contrária do Brasil às sanções e a inclusão cubana na lista norte-americana de Estados patrocinadores do terrorismo. Enquanto Rubio observa Cuba pelas lentes da ameaça e da contenção, Vieira privilegia soberania e não ingerência.
Essas diferentes leituras adquirem contornos mais complexos quando aplicadas ao próprio Brasil. Em audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado, em junho de 2026, Rubio celebrou a formação de uma coalizão hemisférica de países alinhados aos Estados Unidos em segurança e prosperidade econômica. Ao enumerar as exceções, mencionou Cuba, Nicarágua e Venezuela, acrescentou o governo colombiano e incluiu o Brasil, embora tenha observado que o país se encontrava no meio de um ciclo eleitoral. A formulação colocou um ponto de interrogação sobre o lugar do Brasil na estratégia regional norte-americana, vinculando a posição brasileira no hemisfério ao governo de turno e às próximas eleições.
O combate ao crime organizado oferece outro exemplo. Ao classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas, Rubio afirmou que o alcance das facções ultrapassava as fronteiras brasileiras e chegava aos Estados Unidos. Também prometeu empregar todas as ferramentas disponíveis para proteger a segurança norte-americana e interromper o financiamento dos chamados “narcoterroristas”.
A divergência não está no reconhecimento da gravidade do narcotráfico ou da expansão transnacional dessas organizações. O desacordo diz respeito à maneira de enquadrar o problema e aos instrumentos considerados legítimos para enfrentá-lo. Rubio incorporou as facções brasileiras à agenda norte-americana de combate ao terrorismo. O governo brasileiro rejeitou a classificação por entender que ela poderia abrir espaço para medidas unilaterais e interferências em assuntos sob responsabilidade do Estado brasileiro.
A atuação de Rubio também está cercada por incentivos políticos particulares. A política regional parece oferecer ao secretário de Estado uma vitrine doméstica. Embora não tenha lançado candidatura à Casa Branca, seu nome continua presente nas discussões sobre a sucessão republicana de 2028. Resultados obtidos na América Latina podem reforçar suas credenciais, ampliar sua visibilidade e ser convertidos em capital político.
No caso de Vieira, embora o chanceler não seja amplamente identificado com posições partidárias, ele atua em permanente interação com Celso Amorim e com o próprio presidente Lula. Vieira e Amorim mantêm uma relação pessoal e profissional de longa data. Os estilos são diferentes. Enquanto Vieira é discreto e institucional; Amorim tende a ser mais expansivo e diretamente envolvido em temas estratégicos. Ambos participam da definição e da implementação das orientações da política externa brasileira. Essa configuração suscita questionamentos sobre a hierarquia das prioridades e os limites da atuação de cada um, mas não parece refletir uma disputa entre projetos opostos.
Essas diferenças tornam ainda mais complexa a compreensão dos contornos atuais da relação bilateral. Rubio combina a autoridade do cargo com objetivos políticos próprios e projeta a imagem de Estados Unidos dispostos a recuperar influência e negociar a partir de uma posição de força na América Latina. Vieira fala em nome do Itamaraty, mas integra uma estrutura na qual as decisões também dependem das orientações de Lula e da influência de Amorim. Comparar os dois, portanto, exige observar não apenas o conteúdo de seus pronunciamentos, mas também os incentivos políticos e arranjos institucionais que sustentam suas posições.
A posição de Rubio, por exemplo, não esgota a política norte-americana para o Brasil. O contato direto entre os presidentes Trump e Lula abre a possibilidade de uma interlocução que não passe exclusivamente pelo secretário de Estado. Em agosto de 2026, o Financial Times sinalizou que diante do acirramento de sua disputa com Rubio, Lula recorria a Trump como um “aliado improvável”, procurando estabelecer um canal direto com o presidente norte-americano. O episódio mostra que a relação bilateral não depende de uma única voz dentro do governo norte-americano e que Lula procura explorar as diferenças de estilo e abordagem entre seus interlocutores.
Mesmo diante dos estranhamentos atuais, é improvável que os vínculos entre Brasil e Estados Unidos sejam desfeitos. Os dois países continuam ligados por interesses econômicos, sociais e estratégicos que ultrapassam governos específicos. O futuro desse relacionamento perpassa não apenas o lugar atribuído ao Brasil na estratégia regional norte-americana, mas também os canais de interlocução que os dois governos conseguirem preservar. Em um ambiente político já tensionado, ruídos menores podem adquirir proporções maiores. As lentes por meio das quais seus representantes interpretam a região, assim como a maneira pela qual essas interpretações circulam dentro de cada governo, podem ampliar ou reduzir as desconfianças e determinar se as divergências permanecerão administráveis ou se transformarão em crises políticas.
Tamya Rocha Rebelo é professora do curso de Relações Internacionais da ESPM.

