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Šahrāzād, minha mais nova amiga

A literatura permite caminhar por lugares onde jamais estivemos, sonhar acordado, conhecer novas culturas, entrar na história do autor e fazer amizades imaginárias, como a que fiz com Šahrāzād  

Depois de algum tempo, não sei dizer ao certo quanto, até porque, como disse Einstein, “o tempo é relativo”, estou lendo o livro das Mil e uma noites, que tem suas raízes em contos populares da Índia, Pérsia e do Oriente Médio. Jorge Luis Borges considera o livro com o título mais belo de toda a literatura. Não discordo de Borges. Mas, para mim, A montanha mágica, de Thomas Mann, é o título mais belo da literatura clássica universal. Qual o seu? 

Com quase trezentas histórias, entre elas; O mercador e o gênio, O conto do boi e do burro, O jovem encantado e os peixes, Aladim e a lâmpada maravilhosa, Ali Babá e os quarenta ladrões, As aventuras de Simbad, o marinheiro, as mais conhecidas, fui, pouco a pouco, criando uma relação de amizade com Šahrāzād, como se, ao ouvir suas histórias noite após noite, eu também me tornasse um de seus ouvintes. Literatura é isso, permite caminhar por lugares onde jamais estivemos, sonhar acordado, conhecer novas culturas, entrar na história do autor e fazer amizades imaginárias, como a que fiz com Šahrāzād. 

Crédito: Divulgação

Antes de fazer amizade com Šahrāzād, tive inúmeros outros amigos. Alguns já partiram; outros ainda vivem; e de alguns nem sequer sei o destino, como Hans Castorp. Ao seu lado, subi A Montanha Mágica e permaneci algum tempo no sanatório, acompanhei-o em seus dias de enfermidade, ouvi suas conversas, acompanhei sua paixonite pela senhorita Clawdia Chauchat, compartilhei suas inquietações e permaneci ao seu lado até o momento da despedida, quando deixou o sanatório e partiu para o campo de batalha como soldado na grande guerra. Depois disso, nunca mais soube dele. Talvez tenha morrido. Talvez sobrevivido. Como acontece com certos amigos, a literatura também nos deixa sem notícias. O mesmo aconteceu com O pequeno príncipe, não sei seu destino. Talvez tenha partido de volta para o seu pequeno asteroide, para junto de sua rosa; talvez tenha morrido. Prefiro acreditar na primeira hipótese. 

Entre as amizades que já partiram, está Anna Kariênina. Conheci-a nas páginas de Tolstói durante a leitura. Acompanhei de perto sua paixão por Aleksêi Vronski, uma paixão platônica que começou como encantamento e terminou por consumir sua vida. Vi de perto a coragem com que desafiou a alta sociedade russa, a dor de afastar-se do filho e, depois, a solidão que pouco a pouco foi apoderando sua vida. Incapaz de encontrar uma saída para seu sofrimento, ela se entregou aos trilhos do trem, assim como seu pai, Tolstói. Fui ao seu velório; permaneci ali, entre as páginas 864 páginas (Ed. 34), olhando para aquela mulher, uma mulher que ousou enfrentar as tradições e as convenções de seu tempo para seguir o próprio desejo. 

Entre as amizades que já partiram, está Santiago Nasar, assassinado diante de uma cidade inteira que sabia que ele seria morto e, ainda assim, não conseguiu salvá-lo. Emma Bovary, sufocada pelos sonhos que a vida não conseguiu realizar, entregou-se ao veneno. Vi Catherine Earnshaw definhar entre o amor, a febre e a ausência, como se parte dela tivesse morrido muito antes de seu corpo. Estive ao lado de Hamlet em seu último instante, quando a tragédia finalmente fechou o círculo de vinganças, e acompanhei Otelo até o momento em que o ciúme o conduziu à própria destruição. Também me despedi de Ivan Ilitch, enquanto ele, diante da morte, descobria aquilo que não havia conseguido enxergar durante a vida. Fui ao enterro de Oblómov que morreu lentamente, vencido pela própria inércia, e tive a impressão de que não havia perdido apenas um personagem, mas um amigo que conhecera justamente na arte de nada fazer. E também assisti à queda de Dorian Gray, quando o homem que tentara conservar para sempre a juventude encontrou, no próprio retrato, a imagem de tudo aquilo que havia feito de si. 

Também me despedi de Ofélia, levada pelas águas depois que a loucura e a dor lhe roubaram o pouco que ainda lhe restava. Vi Romeu e Julieta descobrirem, tarde demais, que o amor não foi suficiente para vencer o ódio entre suas famílias, e permaneci junto deles até a cripta, onde ambos encontraram a morte. Acompanhei Dom Quixote até o fim de suas aventuras e depois até seu leito de morte, quando Alonso Quijano, já distante do cavaleiro que havia inventado para si, recuperou a razão e se despediu do mundo. Também estive com Fantine, cuja vida foi sendo consumida pela pobreza, pela injustiça e pelo sacrifício silencioso pela filha. 

Despedi-me também de Quincas Borba, cuja vida se consumiu entre a loucura, a filosofia e o abandono; de Iracema, que definhou de saudade depois de dar à luz Moacir; e de Policarpo Quaresma, um homem que amava profundamente o Brasil e que acabou executado pelo próprio país em que depositara tantas esperanças. Despedi-me ainda de Pedro Bala, menino que conheci entre os trapiches de Salvador, de Ana Terra, que acompanhei pelas guerras, pelas perdas e pela longa travessia da vida, de Pedro Arcanjo, velho sábio pelas ruas da Bahia, entre livros, terreiros, festas populares e conversas que pareciam conter a memória de um povo inteiro. Também tive de me despedir de Ana Clara, que morte trágica. 

Em cada uma dessas mortes, seja amigos do estrangeiro ou daqui, há uma história. Em cada história, uma vida, embora inventada a partir da criatividade do autor. Foram eles que me permitiram fazer amizades que jamais imaginei possíveis. Amizades que atravessaram séculos, países e línguas. Talvez tenham sido meus melhores amigos. 

Mas nem todos os meus amigos partiram. Alguns continuam vivos, pelo menos nas páginas onde os deixei. Oliver Twist continua seu caminho depois de tantas privações; Alice despertou de seu sonho e voltou para casa, embora eu suspeite que uma parte dela tenha permanecido no País das Maravilhas. Convivi longo tempo com Ulrich, que ao contrário do conde Oblómov, não é um homem sem qualidades porque lhe faltem qualidades, é um homem sem qualidades porque nenhuma delas consegue defini-lo inteiramente. Bentinho continua contando sua história, preso às próprias lembranças e às dúvidas que o acompanharam pela vida; Capitu, depois de tantas suspeitas e silêncios, seguiu seu destino longe dele. Quanto a Tieta, acompanhei seu retorno a Santana do Agreste, depois de tantos anos de ausência. Também fiz amizade com Tereza Batista, acompanhando suas dores, suas perdas e seu amor por Januário Gereba. E Riobaldo continua às margens do sertão contando suas histórias, suas guerras, seus amores e, sobretudo, lembrando-se de Diadorim. São amigos que não precisei enterrar. 

Só a literatura permite isso: fazer amizade com quem jamais conhecemos, como essa que, recentemente, fiz com Šahrāzād. Uma amizade improvável, atravessada por séculos, línguas e mundos tão distantes do meu, mas que se tornou, página após página. Assim como Alice, em Alice no país das ideias, de Roger-Pol Droit, viaja pelo tempo e por um mundo imaginário, encontrando grandes pensadores na tentativa de responder a uma pergunta; “como viver no mundo de hoje?”, e como Sofia, em O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, percorre a história da filosofia ao descobrir, por meio de suas cartas e encontros, as grandes perguntas que acompanham a humanidade, a literatura é isso, nos permite fazer essa viagem, atravessar épocas, conhecer cultura, conversar com aqueles que já partiram e encontrar ideias, histórias e fazer amizades. 

E foi assim que, entre tantas viagens e amizades, encontrei Šahrāzād. Uma mulher que está contando história após história, para não somente adiar sua própria morte, como de todas as mulheres do reio de Šahrāyār. 

 

Juliano Giassi Goularti é doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp. 

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