Futuro imaginado: O projeto de Heleny Guariba para o teatro e a sociedade
O trabalho teatral da jovem diretora e militante procurava produzir um novo lugar social, no mesmo ano em que a ditadura acirrava o controle sobre os ambientes artísticos e culturais
A história da arte não é um movimento contínuo, se constrói no atrito entre o velho e o novo. Mas o que acontece quando o trabalho de uma geração é interrompido, sem que se transmita seu legado? Esse é o caso de muitas experiências artísticas em que a função política se combina à função estética. Foi assim, no Brasil, com experiências como os centros populares de cultura (CPCs), que realizaram um teatro de agitprop no início da década de 1960. Perseguidos desde o primeiro dia do golpe de 1964, muito do que produziram ficou esquecido, ou desvalorizado pelos próprios integrantes nos anos seguintes.
Exemplo dessa supressão de uma experiência geracional é a peça Mutirão em Novo Sol. Ela foi escrita por Nelson Xavier com colaboradores do Teatro de Arena em 1962, a partir de uma longa entrevista com Jôfre Corrêa Netto, líder camponês que participou da revolta do Arranca Capim, no interior de São Paulo. Teve forte impacto na produção artística engajada do período, foi encenada pelo Movimento de Cultura Popular (MCP), em Pernambuco, por CPCs pelo Brasil e inspirou filmes como Cabra marcado para morrer e Os Fuzis. Apesar dessa força fora do comum, o texto ficou desaparecido por quase 50 anos após a interdição dos CPCs e do MCP com o golpe. Ele só voltou a ser conhecido em 2012 quando seu autor deu uma cópia mimeografada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que resultou numa encenação da Brigada Semeadores. Outra cópia foi dada à Companhia do Latão, e publicada em uma edição crítica do Laboratório de Investigação em Teatro e Sociedade (LITS) e da Editora Expressão Popular.
Outras realizações importantes da arte política do passado, porém, não tiveram a mesma sorte de renascerem como modelos para as práticas atuais. O caso mais emblemático talvez seja o do projeto teatral da diretora Heleny Guariba com o Grupo Teatro da Cidade. Além de artista notável, Heleny foi militante de uma organização de luta revolucionária e de resistência à ditadura, a Vanguarda Popular Revolucionária. Em 1971, foi assassinada e desaparecida pelo Estado brasileiro, quando tinha apenas 30 anos de idade. O impedimento – por parte dos militares – da combinação de sua atuação artística com a atuação política, não deve impedir, contudo, de enxergarmos a força dessa obra apenas esboçada, mas que contém um projeto artístico radical.
Heleny Guariba se formou em Filosofia em 1964, e já em 1965 dava aulas na Escola de Arte Dramática (EAD). Nos dois anos seguintes, esteve na França, quando estagiou no Théâtre de la Cité com Roger Planchon. Um dos grandes encenadores do período, Planchon ficou conhecido por oferecer um novo caminho para o teatro popular na França. Dirigindo um teatro público em Villeurbanne, uma cidade industrial distante da capital, Paris, seu projeto combinava formação de público com uma nova compreensão da cena, marcada pelo uso dos clássicos a partir de uma leitura brechtiana.

De volta ao Brasil, Heleny se instala em São Paulo, onde retoma a docência na EAD, e trabalha no Teatro de Arena, com Augusto Boal. O Arena já era conhecido pela combinação de interesse crítico na realidade e desenvolvimento de formas novas na cena. Os artistas do grupo colaboraram com diversos centros populares de cultura, ligados a entidades estudantis e sindicatos, antes do golpe. Quando Heleny chega ao Arena, entretanto, havia um refluxo da cena anticapitalista mais inventiva dos anos anteriores, e o teatro político mais radical se restringia aos ambientes de classe média, com alguma tolerância temática.
Ainda assim, a partir do contato com Boal e de suas aulas na EAD, ela se aproxima do legado do CPC do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, no ABC paulista. Na escola, conhece um grupo de jovens vindos do teatro amador, filhos de operários, que iniciaram sua formação artística no CPC de Santo André e ainda queriam praticar formas de fazer teatro politizado. Assim, a ideia de aplicar o aprendizado e construir algo inspirado no modelo do Théâtre de la Cité surge como um caminho possível.
O que Heleny Guariba e seus parceiros queriam era fazer uso desse modelo nas condições de um teatro comunitário, amador e militante para trabalhadores da periferia industrial de São Paulo. Sabiam, contudo, das dificuldades políticas e econômicas do projeto. Conseguem, ao menos temporariamente, driblá-las com uma parceria com a municipalidade. A cidade de Santo André tinha um orçamento superavitário, em crescimento exponencial devido às indústrias da região, e o governo municipal estava interessado em se desvincular da imagem de “subúrbio paulistano”. Vislumbra na subvenção a um teatro uma oportunidade de ação cultural, cuja inspiração francesa operava também como elemento de validação simbólica. É nessa brecha que é fundado, em 1968, o coletivo que seria o mais importante da breve trajetória de Heleny Guariba, o Grupo Teatro da Cidade de Santo André.
Seu espetáculo de estreia foi uma encenação de Jorge Dandin, de Molière. A escolha reforça os trânsitos com a prática artística de Planchon, que o encenara dez anos antes em seu Théâtre de la Cité. O texto, escrito por Molière em 1668, narra a história de um camponês, Dandin, que enriqueceu e busca, no casamento com Angélica, a filha de um fidalgo arruinado, ascensão social. A família dela, por sua vez, quer recuperar a estabilidade financeira perdida.
Como um acréscimo à dramaturgia de Molière, Heleny coloca em cena trabalhadores, que cumprem sua jornada em paralelo às intrigas da peça. Sua presença, embora silenciosa, evidencia as contradições de Dandin, que fora um deles até enriquecer. O recurso já estava presente em Planchon, mas Heleny intensifica a vivência do trabalho. Por vezes, os camponeses se interpõem fisicamente entre os espectadores – eles próprios em parte trabalhadores – e o núcleo da ação. Além disso, o cenário, criado em parceria com Flávio Império, extrapola a caixa cênica e envolve toda a plateia no campo de trigo onde os camponeses trabalham para Dandin. O trânsito entre sala e cena é reforçado pelo elenco da região, que combinava egressos da EAD e artistas amadores, com destaque para o Palhaço Estrimilique, artista de rua conhecido na cidade de Santo André.
Comicidade, referências compartilhadas e uma encenação inventiva certamente contribuíram para o sucesso de público de Jorge Dandin em Santo André. A montagem rendeu a Heleny o prêmio de Diretora Revelação e a Império, o de Cenógrafo e Figurinista, ambos da Associação dos Críticos de Teatro de São Paulo. O espetáculo também foi aclamado pela crítica, que chamou a atenção para o conjunto do projeto do GTC, que realizava ações formativas em escolas e comitês de empresas, e debates após as apresentações.
O elemento radical do projeto de Heleny Guariba, estava, assim, na procura de uma atuação no espaço público em que o espetáculo é um desencadeador de processos politizantes. A cena se completa no debate, nas ações formativas. Ela busca romper a separação entre o palco-ativo e a sala-contemplativa já indicada na cenografia de Dandin. O trabalho teatral da jovem diretora e militante procurava produzir um novo lugar social, no mesmo ano em que a ditadura acirrava o controle sobre os ambientes artísticos e culturais, com uma ação mais violenta da censura. Em 1968, o Grupo Teatro da Cidade é fundado como um projeto público. No fim do mesmo ano, com a edição do Ato Institucional n. 5, o Congresso brasileiro é fechado e as organizações políticas passam a ser perseguidas numa escala muito maior. Heleny Guariba logo se vê obrigada a entrar na clandestinidade.
No ano seguinte, 1969, ela ainda acompanha a temporada de Jorge Dandin no Teatro Anchieta, que se consolidava como um dos principais palcos de São Paulo. E começa a idealizar a próxima montagem do GTC, a Ópera dos três vinténs, de Brecht, para a estreia do Teatro Municipal de Santo André. Heleny colocaria artistas para representar os pedintes da peça antes do início da sessão, importunando os convidados do evento de inauguração e tensionando as contradições do patrocínio público naqueles anos. A montagem, entretanto, não passou dos primeiros ensaios. Em 1970, Heleny Guariba é presa pela primeira vez e passa cerca de um ano no presídio Tiradentes. No ano seguinte, três meses após sua soltura, é novamente presa, assassinada e desaparecida pelos militares.
O Grupo Teatro da Cidade seguiu em atividade até 1978, mas junto com o desaparecimento de Heleny interrompeu-se um projeto inovador, que conciliava política cultural e encenação experimental. O uso do modelo Planchon de formação de público e de produção de uma nova encenação foi importante para seu surgimento, assim como a conexão formativa com grupos amadores e politizados da região. Foi um teatro que, por um breve momento, foi possível como lugar de luta e prática de uma sociedade mais livre e igualitária.
Conhecer sua história a despeito da interrupção do trabalho e da vida de Heleny Guariba, imaginar os planos contidos na sua proposta original para o Grupo Teatro da Cidade só é possível hoje pela articulação de estudos anteriores e materiais de arquivo, no Brasil e na França, correspondências, entrevistas, notas de encenação, testemunhos, traços que se juntam pelo esforço de conexão daqueles que participaram deste projeto e de muitas pesquisadoras e pesquisadores. O caso de Heleny Guariba é o tema da minha tese de doutorado em andamento, que integra um conjunto mais amplo de pesquisas como as do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro de Arena e da Cena Ativista do Brasil, projeto associado à Funarte. Num momento de disputa em torno de processos culturais, torna-se mais e mais importante a reflexão histórica que permite vislumbrar futuros mais justos. Com Heleny, a radicalidade está na dimensão utópica de uma cena pública, voltada à formação artística de todos, em que a política surge das práticas mais comuns realizadas em coletividade, propostas por alguém que pagou o preço de não esquecer que a revolução na arte não se completa sem a revolução social.
Maria Lívia Nobre Goes é pesquisadora teatral, mestra e doutoranda pela ECA-USP. Coordena a equipe de pesquisa do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro de Arena e da Cena Ativista do Brasil/Funarte e integra a Companhia do Latão. Publicou com Sérgio de Carvalho Teatro anticapitalista: o caso TUSP (1966-1969) e Quase nuvem: memórias de um espetáculo na Torre das Donzelas, ambos pela Hedra.

