LITERATURA

Resenha de Nesse corpo de água doce, de Priscila Faria

Os textos presentes no livro misturam elementos concretos ao sensível, perpassando pela infância, adolescência, adultez e maternidade do eu-lírico

Com publicação pela Editora Patuá, Nesse corpo de água doce é o livro de estreia da professora, mãe e pesquisadora mineira Priscila Faria. A obra aborda temas relacionados ao ser mulher, passando principalmente pela questão do sofrimento subjetivo.

Crédito: Divulgação

Dividido em sete partes – “Profundo”, “Revolto”, “Caudal”, “Arroio”, “Ravina”, “Reponta” e

 

“Serpejante”, respectivamente, o livro se inicia com uma epígrafe de Caetano Veloso: ““A água me contou muitos segredos / Guardou os meus segredos / Refez os meus desenhos / Trouxe e levou meus medos” (p. 7), que traz uma boa ideia de como ela irá se desenvolver.

 

Os textos misturam elementos concretos ao sensível, perpassando pela infância, adolescência, adultez e maternidade do eu-lírico. Desde o primeiro poema, fica claro que o sujeito tratado no livro é “uma pessoa com vagina” (p. 13), focando-se nas perdas e nos silenciamentos – sociais e subjetivos – como no poema da página 40, que diz: “queria cantar essa tarde / a voz saiu trêmula / achei o chiado da mosca / que habita a transparência da cortina / mais afinado e pertinente / me calei”.

 

A água, elemento fundamental (que inclusive consta no título) da obra, é explorada a partir de um viés imaginativo, em que, segundo Gaston Bachelard, ela seria um elemento que poeticamente vem muito associado ao inconsciente, ao sonho, à imaginação e à memória – ao que é, essencialmente, subjetivo. Logo, há um movimento em Nesse corpo de água doce que fala do coletivo (no caso, as mulheres), mas também se individua, numa poética que se arrasta para a própria experiência.

 

Portanto, não se trata de uma poética autocentrada, mas, sim, de um eu-lírico que encontra eco de suas vivências na experiência do ser mulher.

 

 

 

Laura Redfern Navarro (2000) é poeta, jornalista e pesquisadora.

 

 

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