Basta eleger mais mulheres?
A presença feminina nos parlamentos brasileiros cresceu, mas ocupar uma cadeira não significa necessariamente exercer o poder em condições de igualdade. A experiência da Assembleia Legislativa de São Paulo revela o paradoxo de uma democracia que aumenta os índices de representação sem necessariamente transformar a cultura política
Durante muito tempo, a ausência de mulheres dos espaços de poder foi explicada como se fosse um problema das próprias mulheres. Faltaria interesse, preparo, vocação ou disposição para a política. A história brasileira mostra, porém, que o problema nunca esteve simplesmente nelas. Estava – e ainda está – nas estruturas que definem quem pode chegar ao poder, permanecer nele e ser reconhecido como autoridade.
A Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) oferece um exemplo importante dessa mudança. Na 20ª Legislatura, iniciada em 2023, a Casa chegou a 25 deputadas entre 94 parlamentares, o maior número de mulheres de sua história recente e um crescimento em relação às 19 parlamentares da legislatura anterior. É uma conquista que merece ser celebrada.

Mas celebrar esse avanço não deveria nos impedir de fazer uma pergunta mais incômoda: o que acontece depois que as mulheres chegam ao poder?
Essa pergunta muda completamente a maneira de olhar para a representação feminina. Não basta saber quantas mulheres foram eleitas. É preciso observar em que condições elas exercem seus mandatos, quais obstáculos enfrentam e quanto custa, para elas, permanecer na política.
Uma mulher pode conquistar uma cadeira no Legislativo e continuar sendo interrompida, deslegitimada, constrangida ou tratada como menos preparada do que seus colegas homens, conforme o estudo realizado1, em 2024, por Debora Thomé e Maurício Izumi. Pode ter sua competência questionada, sua aparência transformada em assunto público, sua vida pessoal utilizada para desqualificá-la ou sua autoridade colocada permanentemente à prova.
É nesse ponto que a discussão sobre violência política contra as mulheres deixa de ser uma questão periférica e passa a tocar o próprio funcionamento da democracia.
A violência política não se resume à ameaça explícita ou à agressão física. Ela também pode aparecer em práticas aparentemente banais: interrupções recorrentes, ataques à reputação, exposição da vida privada, comentários sobre aparência, questionamentos sobre capacidade intelectual ou profissional e tentativas de afastamento da atividade política. Pode, ainda, assumir uma dimensão institucional quando regras, procedimentos ou relações de poder tornam mais difícil que uma parlamentar exerça plenamente seu mandato.
O problema é que muitas dessas situações não aparecem nas estatísticas.
Uma ameaça pode ser registrada. Uma agressão pode gerar uma denúncia. Já a sucessão de pequenas deslegitimações cotidianas costuma ser mais difícil de identificar. Ser constantemente interrompida, ter uma decisão questionada, perceber que determinado comportamento é tolerado em homens, mas considerado inadequado em mulheres: isoladamente, cada episódio pode parecer pequeno. Quando essas experiências se repetem, entretanto, elas podem revelar um padrão.
É por isso que ouvir as próprias parlamentares é tão importante.
Minha pesquisa, que ainda está em andamento, sobre as deputadas da ALESP procura justamente compreender como essas mulheres percebem a violência política e quais situações identificam como obstáculos ao exercício de seus mandatos. A investigação reúne entrevistas semiestruturadas, questionários e análise documental para olhar para além da contagem de episódios e compreender como a violência é vivenciada e interpretada dentro da instituição.
Essa perspectiva também exige abandonar a ideia de que “as mulheres” constituem um grupo homogêneo.
Não existe uma experiência feminina única na política. Uma deputada branca de classe média não necessariamente enfrenta as mesmas barreiras que uma deputada negra, periférica, indígena ou LGBT+. Raça/etnia, classe, sexualidade, território e posicionamento político podem se combinar e produzir experiências distintas de desigualdade e violência.
É justamente aí que a perspectiva interseccional se torna fundamental. A pergunta não deve ser apenas “o que aconteceu?”, mas também com quem aconteceu, em que contexto e por quê?
Há, ainda, outra questão que costuma provocar desconforto: aumentar o número de mulheres eleitas não significa, automaticamente, aumentar a representação de pautas feministas.
Mulheres podem ter posições políticas profundamente diferentes. Podem estar em partidos de esquerda, centro ou direita e defender projetos distintos para a sociedade. Algumas podem se identificar com o feminismo; outras podem adotar posições conservadoras sobre gênero, família e direitos das mulheres.
Isso não invalida a importância da representação feminina. Ao contrário. Uma democracia representativa precisa comportar a diversidade de posições existentes entre as próprias mulheres.
Representar, afinal, não é simplesmente ocupar fisicamente o lugar de alguém. A representação envolve ação política, disputa de interesses e construção de agendas e posições. Ter mais mulheres no Parlamento amplia as possibilidades de representação, mas não determina previamente como cada uma delas irá votar, quais pautas defenderá ou como interpretará as desigualdades de gênero.
Essa diversidade também é importante para compreender a violência política.
Não podemos transformar toda crítica dirigida a uma parlamentar em violência. A crítica às ideias, aos votos e às decisões de uma pessoa eleita faz parte da democracia. Uma parlamentar, assim como qualquer agente público, deve ser submetida ao debate e à contestação; esse é o cerne do pluralismo democrático.
O limite aparece quando a crítica deixa de atingir sua atuação política e passa a utilizar o fato de ela ser mulher como instrumento de humilhação, intimidação ou silenciamento.
É uma diferença fundamental.
O problema não é discordar de uma mulher que ocupa o poder. O problema é considerar que, por ser mulher, ela deve ocupar o poder de uma maneira diferente.
Historicamente, a política foi construída como um espaço masculino. A presença dos homens foi naturalizada; a das mulheres, tratada como exceção. Quando uma mulher entra no Parlamento, portanto, ela não entra em uma instituição neutra. Ela entra em um espaço moldado por relações de poder nas quais os homens ocuparam, durante muito tempo, os principais lugares de autoridade.
Por isso, muitas vezes a violência começa antes de uma ameaça.
Pode começar na surpresa diante de uma mulher que exerce autoridade. Na expectativa de que ela seja permanentemente cordial. Na cobrança para que desempenhe um papel de cuidadora. Na desconfiança em relação à sua competência. Na tentativa de reduzir uma parlamentar à sua aparência, à sua vida afetiva ou à sua família.
São mecanismos que comunicam, ainda que silenciosamente: você está aqui, mas precisa provar o tempo todo que merece estar.
É esse o paradoxo da representação feminina.
A eleição de 25 deputadas na Assembleia representa uma transformação importante na composição da instituição. Mas mudar a composição de um Parlamento não significa necessariamente mudar sua cultura política.
E talvez esse seja o próximo desafio.
Precisamos discutir quais mecanismos existem para receber denúncias, como as instituições respondem aos casos, se há protocolos claros, se as parlamentares sabem a quem recorrer e de que maneira partidos e órgãos legislativos protegem quem sofre violência política.
Essas não são questões secundárias. São perguntas sobre a qualidade da democracia.
Mais mulheres na política é necessário. Mas não é suficiente.
Precisamos saber quais mulheres estão chegando, quais grupos estão sendo representados, quais recursos possuem, quais obstáculos enfrentam e se conseguem exercer seus mandatos sem pagar um preço adicional por sua presença.
A diversidade política entre mulheres não é uma ameaça à democracia. É parte dela. O que precisa ser enfrentado é outra coisa: a ideia de que determinadas mulheres têm menos legitimidade para ocupar o poder ou que, por serem mulheres, devem aceitar formas específicas de controle, humilhação e silenciamento.
A verdadeira mudança democrática não acontece apenas quando as mulheres conseguem entrar pela porta do Parlamento.
Ela acontece quando podem permanecer.
Quando podem falar.
Quando podem discordar.
Quando podem disputar poder.
E, principalmente, quando exercer um mandato deixa de significar aceitar a violência como preço pela presença feminina na política.
Deborah Ramos da Silva é jornalista, mestra em Comunicação (UNESP) e doutoranda em Ciências Sociais (UNIFESP).
Notas de rodapé
1THOME, Debora; IZUMI, Mauricio. Gênero, Dinâmicas de Poder Intrapartidárias e Manterrupting no
Legislativo. Dados, v. 68, n. 2, p. e20230121, 2024.

