INTEGRAR TAMBÉM PRECISA SIGNIFICAR ESCUTAR, NEGOCIAR E COMPARTILHAR PODER

Quem define o que conta como saúde?

Quando falamos em Uma Só Saúde, parece haver um consenso: a saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas está conectada. O consenso diminui, porém, quando fazemos uma pergunta simples: o que estamos chamando de “saúde”? Uma análise de 34 artigos mostra que respostas diferentes levam a prioridades, recursos e decisões também diferentes 

Doenças infecciosas emergentes e zoonoses tornaram cada vez mais difícil separar a saúde humana da saúde animal e das condições ambientais. Urbanização acelerada, mudanças no uso da terra, desmatamento, produção agropecuária intensiva, comércio de animais e mudanças climáticas alteram as relações entre pessoas, animais, vetores e ecossistemas. Problemas assim dificilmente cabem dentro de uma única especialidade. 

Por que Uma Só Saúde ganhou força? 

Essa interdependência também passou a orientar a governança internacional. Em 2021, organizações que hoje compõem a chamada Quadripartite apoiaram uma definição operacional elaborada pelo One Health High-Level Expert Panel (OHHLEP), segundo a qual a Saúde Única – ou Uma Só Saúde busca integrar de maneira sustentável a saúde de pessoas, animais, plantas e ecossistemas. Em 2022, a entrada do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no arranjo que já reunia OMS, FAO e Organização Mundial de Saúde Animal reforçou a dimensão ambiental dessa agenda. 

Mas reconhecer essa interdependência não encerra a discussão. A ciência continua organizada por disciplinas, departamentos, fontes de financiamento e critérios próprios de evidência. Por isso, diferentes áreas tendem a formular perguntas distintas sobre a relação entre seres humanos, animais e ambiente, e essas diferenças influenciam aquilo que cada uma entende como prioridade em saúde. 

Uma mesma expressão, quatro maneiras de entender saúde 

Uma revisão sistemática de 34 artigos publicados, entre 2010 e 2026, localizados nas bases PubMed, SciELO e Google Scholar, buscou identificar quais ideias de saúde orientavam seus argumentos e propostas. A análise qualitativa revelou quatro perspectivas recorrentes. 

Essas perspectivas não formam caixas rígidas, mas ajudam a mostrar como diferentes definições de saúde conduzem a diferentes perguntas e respostas: 

  1. Saúde como segurança sanitária e controle de riscos. Em 14 dos 34 artigos analisados (41%), saúde aparece principalmente como capacidade de antecipar ameaças, monitorar patógenos e conter surtos antes que se transformem em crises. Vigilância epidemiológica, biologia molecular, sequenciamento genômico e sistemas integrados de informação ocupam lugar central nessa perspectiva. Essas ferramentas são essenciais para respostas rápidas. O risco, quando essa lógica predomina, é tratar a fauna sobretudo como reservatório de patógenos e os ecossistemas como cenários de ameaça, deixando em segundo plano fatores como desmatamento, expansão agrícola e outras pressões ambientais. 
  2. Saúde como integridade ecológica. Em 11 dos 34 artigos (32%), o foco se desloca do patógeno para o funcionamento dos ecossistemas. Saúde passa a significar também integridade ambiental, resiliência e capacidade dos sistemas ecológicos de sustentar a vida. A pergunta muda: em vez de apenas “como impedir a transmissão?”, torna-se necessário perguntar “quais transformações do território estão criando as condições para que a transmissão ocorra?”. Mudanças climáticas, perda de biodiversidade, poluição e alteração no uso do solo deixam de ser pano de fundo e passam a integrar o próprio problema de saúde. 
  3. Saúde como direito e fenômeno socioambiental. Em 5 dos 34 artigos (15%), o adoecimento é compreendido não apenas como resultado de um agente biológico, mas também de desigualdades, falta de saneamento, precariedade habitacional, acesso desigual aos serviços públicos e formas distintas de ocupação do território. O risco, nessa perspectiva, não é distribuído de maneira igual. Uma inundação, por exemplo, não produz os mesmos efeitos em todas as comunidades: seus impactos dependem da infraestrutura disponível, da proteção social e da capacidade local de resposta. Uma política de Uma Só Saúde que ignore essas diferenças pode ser tecnicamente sofisticada e, ainda assim, socialmente insuficiente. 
  4. Saúde como questão crítica e de conhecimento. Em 4 dos 34 artigos (12%), Uma Só Saúde aparece também como ferramenta para questionar quem define os problemas e quais conhecimentos são considerados legítimos. Essa perspectiva amplia a saúde para além da resposta à doença e incorpora dimensões éticas, ecológicas e sociais, além de conhecimentos tradicionais e indígenas. A filósofa Miranda Fricker chama de injustiça epistêmica situações em que determinados sujeitos ou grupos têm seus saberes desvalorizados em razão de relações de poder.1 No campo da Saúde Única/ Uma Só Saúde, essa discussão ajuda a perguntar por que conhecimentos comunitários e indígenas raramente ocupam o mesmo lugar de autoridade que o conhecimento acadêmico. 

Não há uma única resposta. E isso muda as políticas 

Essas quatro perspectivas não devem ser lidas como estruturas isoladas. Um mesmo campo científico pode abrigar visões diferentes, e um único artigo pode combinar mais de uma delas. O ponto central é outro: diferentes definições de saúde produzem diferentes prioridades, formas de investimento e maneiras de organizar a ação pública. 

Se a saúde for compreendida sobretudo como capacidade de detectar patógenos, a prioridade tende a ser o fortalecimento de laboratórios, redes de vigilância e sistemas de alerta. Se for entendida como integridade ecológica, entram também na agenda a conservação, a restauração e a redução de pressões ambientais. Se for tratada como direito, ganham centralidade o saneamento, o enfrentamento das desigualdades e a participação social. E quando a abordagem assume uma perspectiva crítica, surge uma pergunta adicional: quem define as prioridades e quem participa das soluções? 

Essas dimensões não precisam competir entre si. Uma das maiores contribuições de Uma Só Saúde é justamente a possibilidade de combinar escalas e conhecimentos para enfrentar problemas complexos. Detectar um vírus é crucial, mas isso, por si só, não explica por que ele emerge em determinado território. Preservar um ecossistema é fundamental, mas não elimina automaticamente as desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Da mesma forma, fortalecer a participação comunitária exige diálogo contínuo com evidências epidemiológicas e ecológicas. 

O desafio é político, científico e territorial 

Interdisciplinaridade não significa apenas colocar profissionais de áreas diferentes em torno da mesma mesa. Significa criar condições para que perguntas, métodos e formas de conhecimento distintas tenham peso real nas decisões. Estudos sobre Uma Só Saúde mostram que esse diálogo ainda encontra barreiras institucionais, orçamentárias e na própria organização da produção científica. 

Há ainda uma desigualdade importante na produção e na circulação do conhecimento. A literatura analisada indica que grande parte da pesquisa sobre o tema está concentrada em países com maior disponibilidade de recursos, enquanto territórios mais vulneráveis a zoonoses e emergências socioambientais convivem com limitações de infraestrutura, saneamento e vigilância. Uma estratégia que se pretende global não pode partir da suposição de que todos dispõem das mesmas condições para agir. 

No plano internacional, a consolidação da Quadripartite foi um avanço importante para aproximar as agendas de saúde humana, animal, vegetal e ambiental. Mas a integração só ganha força concreta quando se traduz em orçamento, capacidade institucional e definição compartilhada de prioridades nos territórios. 

Esse é, talvez, o principal aprendizado da revisão: o desafio de Uma Só Saúde não é apenas conectar três pilares (pessoas, animais e ambiente), mas também colocar em diálogo diferentes maneiras de definir o próprio problema. E isso exige negociação, reconhecimento de conflitos e atenção às desigualdades de poder e de recursos. 

Uma Só Saúde antes da próxima crise 

A força da abordagem está em evitar que a saúde seja acionada apenas de forma reativa, depois que a crise já está instalada. Prevenir futuras pandemias depende de vigilância contínua, mas também de políticas ambientais consistentes, saneamento básico, sistemas alimentares sustentáveis, proteção da biodiversidade e participação social efetiva. 

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “qual é a definição correta de saúde?”, mas outras três: quais dimensões estamos priorizando, quem estabelece essas escolhas e o que permanece invisível quando uma perspectiva se torna dominante? 

Uma Só Saúde não precisa se tornar uma nova disciplina nem servir apenas como um novo rótulo para especialidades que continuam trabalhando separadamente. Pode funcionar como uma orientação para decisões diante de problemas que atravessam fronteiras biológicas, sociais e institucionais. Para isso, integrar também precisa significar escutar, negociar e compartilhar poder. 

Quando uma enfermidade surge, o patógeno importa. Mas também importam o território, o clima, a fauna, as condições de vida, as políticas públicas e os conhecimentos das populações locais. Se a Saúde Única/Uma Só Saúde pretende ser mais do que um rótulo, precisa tratar essas dimensões como partes do mesmo problema e reconhecer que integrá-las também significa decidir quem tem voz, quais conhecimentos contam e como os recursos são distribuídos. 

 

 

Gabriel Gonçalves Sebastião é enfermeiro e especialista em Uma Só Saúde pela Escola Superior do Instituto Butantan. Seu trabalho investiga diferentes concepções de saúde na interface humano-animal-ambiental, com foco em interdisciplinaridade, saúde coletiva e governança da Saúde Única.  

Henrique Sugahara Francisco é bacharel e mestre em História pela PUC-SP, e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é Executivo Público do Centro de Memória do Instituto Butantan. 

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