“Mulher virtuosa quem a achará?”
Cintia Bittar esmiúça a ascensão do conservadorismo por meio de um thriller psicológico
O controle via estigma religioso pode não parecer coisa de outro mundo, um exclusivo retiro feminino também não, e é por meio dessa pequena interseção que a diretora Cintia Bittar trabalha o seu primeiro longa-metragem: Virtuosas. O filme estreou no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo em 2025, chega aos cinemas em 24 de setembro deste ano, e não é por acaso.

Bittar conta que a campanha do filme foi intencionalmente direcionada para o período de eleições. Em 2022, o coach e político Pablo Marçal insistiu em fazer um grupo de expedição em ambiente inóspito; já em 2026, é Virginia Heinzel (Bruna Linzmeyer) que dirige um retiro VIP isolado, inspirado no provérbio 31 da Bíblia. A orientação especial de Virgínia incita o papel recatado e doméstico das mulheres escolhidas.
A diretora conta que o processo de pesquisa do filme foi desenvolvido ao longo de anos, e sua inspiração foi a popularização do movimento “Trad Wives”, que, desde 2024, tem ganhado força nas redes sociais. O movimento reforça os papéis de gênero antiquados, baseados na subordinação da mulher ao seu cônjuge, narrativa muito próxima a certa interpretação do provérbio 31 da Bíblia, o da “Mulher Virtuosa”. A promoção desses ideais tem causado grandes discussões públicas, o que, para a diretora, sinaliza a ascensão do conservadorismo no Brasil. Foi a partir desse cenário que Bittar construiu com muita naturalidade a panela de pressão perfeita para a sua história.
O longa acompanha Germina (Maria Galant), personagem que consegue ingressos para participar de um treinamento feminino com outras duas mulheres, Lorena Canollo (Juliana Lourenção) e Bárbara Rossi (Sara Motta), as quais ficarão isoladas na propriedade de Virgínia, que lidera o projeto. Entre a chegada das mulheres à casa e o clímax do filme, os conflitos são sutis. Eles são apresentados no primeiro ato e são ligeiramente trabalhados durante o segundo.
Virtuosas tem dificuldade de manter a tensão no espectador ao longo da história. A catarse dos conflitos parece rápida, porque foi trabalhada em segundo plano, quase como pistas, ao longo do filme. Talvez, em um cenário mais intimista dos personagens, o método funcionasse; entretanto, faltam conflitos mais claros e desenvolvimento de personagens até o ato final. Meios diálogos, olhares e certas inquietações fazem sentido apenas com o confronto em tela, com as máscaras já caídas, o que contribui para a sensação de atos anteriores “parados”.
O grande motor da tensão são as próprias personagens e o jogo de cena que elas terão que interpretar para sair de certas situações. Bruna Linzmeyer nos conduz com maestria ao seu retiro, com sua presença se destacando entre as outras personagens. Galant se contrapõe constantemente a Linzmeyer, não só pelo antagonismo de suas personagens, mas também pelas diferentes experiências das duas atrizes atrás das câmeras. Linzmeyer domina falas e trejeitos com grande naturalidade, que agregam à construção de sua personagem, enquanto Galant se aproveita de seu ineditismo na tela grande para surpreender o espectador com as viradas de sua personagem.
A um ouvido desatento, os diálogos podem soar pouco naturais; entretanto, Bittar retrata o discurso polido e impessoal promovido pelo retiro para perpetuar o isolamento entre suas personagens. O filme escolhe cinco mulheres com fundos sociais extremamente discrepantes, desde funcionária doméstica até a esposa de político, e trabalha a união vazia dos movimentos de massa que favorecem a desunião de classe. Assim, o diálogo é usado como ferramenta de alienação no longa.
Virtuosas usa de um recurso curioso de dicotomia entre som e imagem. É um filme de tensão que apresenta majoritariamente planos claros, com cores neutras. O desconforto no telespectador é levantado pela trilha sonora que nos conta, antes da imagem, que existe algo errado nesse cenário. Pequenas ações cotidianas, como uma porta batendo ou um pote sendo aberto são acentuados e proporcionam ênfases dramáticas que nos instigam, fazendo pensar que algo naquele ambiente não está certo, antes que a câmera possa nos mostrar. O recurso contribui para a construção do sentimento de desconforto dentro do cenário aparentemente pacífico.
O primeiro longa-metragem que Cintia Bittar assina como direção é composto de pequenas ações que parecem inocentes isoladamente, mas que constroem uma trama complexa quando somadas. As relações de poder das personagens, seu discurso e a construção estética nos conduzem para um retrato mitificado das características da ascensão do conservadorismo brasileiro nos últimos anos. O maior sucesso do filme é a ficcionalização da realidade de um país polarizado, em que a violência é catalisada nos detalhes do cotidiano.
Isabelle Olvera é estudante de audiovisual.

