A ameaça do fascismo
O fascismo bate à porta do Brasil, prometendo repressão, corte no orçamento das políticas sociais, isenção de impostos para empresas, congelamento do salário mínimo, maior desigualdade e exclusão
Estamos a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais. E há muita coisa em jogo. Não se trata de uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Não vamos confundir as coisas. Trata-se de uma disputa entre a democracia e o fascismo.
O cenário global não é alentador. A extrema direita avança por toda parte, com exceção da Suécia, onde venceu a social-democracia. Na América Latina, México, Brasil e Uruguai são países em que vigoram regimes democráticos, mesmo com todos os seus problemas. Eles desafiam o projeto neocolonial norte-americano.
Para enfrentar essa resistência, os Estados Unidos criaram o Escudo das Américas: 14 países se alinham e se submetem à estratégia norte-americana, participando de uma aliança político-militar para proteger os interesses dos Estados Unidos e garantir sua hegemonia no continente. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago fazem parte do Escudo.
As ameaças de intervenção militar no Brasil ganham concretude. A guerra híbrida que os Estados Unidos já praticam contra o Brasil pode mobilizar militarmente o Escudo das Américas para operações conjuntas que realizem ações em território brasileiro.
“O senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas dos Estados Unidos enviaram carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando explicações sobre ações da administração Trump que, segundo os parlamentares, configuram uma tentativa coordenada de interferir nas eleições presidenciais brasileiras de outubro.”[1]

A interferência norte-americana nas eleições brasileiras está sendo denunciada também pelo próprio governo federal brasileiro. As plataformas digitais se aliaram a Trump em favor de Flávio, buscando desestabilizar o governo Lula e impedir sua reeleição.
A perseguição aos imigrantes nos Estados Unidos dá a percepção da truculência do fascismo. Agentes do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) invadem casas, quebram vidros de automóveis para retirar de dentro as pessoas que se recusam a sair, separam crianças de seus pais, remetem os imigrantes detidos para prisões em outros países… instauram o terror. Os supremacistas brancos atacam, prendem e expulsam latino-americanos.
“O fascismo sempre aparece em épocas de crises agudas. Não parece que os políticos e as elites empresariais que sustentam o fascismo do fim dos tempos tenham qualquer plano para um futuro ao alcance daqueles que não são ricos. Em vez disso, eles preveem ‘tempos difíceis’ permanentes, como disse certa vez o diretor executivo da Palantir, Alex Karp, e imaginam um mundo em que grupos relativamente pequenos sobreviverão, protegendo a si mesmos e sua riqueza em meio ao caos, aos conflitos e aos desastres sucessivos.”[2]
Submeter o Brasil a seus interesses é muito importante para o controle norte-americano sobre a América do Sul. Devemos esperar ações desestabilizadoras até as eleições, a manipulação das redes sociais, denúncias de escândalos e corrupção, tudo a ser comprovado a posteriori. E, se o resultado das eleições não for favorável a Flávio, haverá questionamento das eleições, nova tentativa de golpe.
O Observatório Lupa encontrou 68 páginas e 38 sites recém-criados, com publicações simultâneas e textos semelhantes. Dos mais de mil anúncios encontrados, que somam no mínimo 92 milhões de exibições, cerca de 70% têm os Estados Unidos como localização, com uma LLC de Delaware como anunciante e pagador do valor de US$ 106 mil estimado pela Meta, podendo chegar a US$ 221 mil. Esse caso, que aparentemente favorece Cury e ataca Flávio e Lula, comprova a possibilidade de ações de interferência nas eleições a partir do exterior.[3]
As big techs norte-americanas são denunciadas pelo pastor Henrique, do Psol, no Facebook: elas estão reduzindo o alcance dos algoritmos das candidaturas de esquerda e progressistas nas redes sociais. No dia 25 de setembro, Marcelo Freixo, candidato do PT a deputado federal, denunciou que a Meta bloqueou o Facebook da campanha de Lula.
No plano interno, nossas instituições democráticas estão em sua maior crise republicana. O Congresso, o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República, ministros do governo Lula, a Polícia Federal, empresários e banqueiros estão denunciados por corrupção no caso Master. Se tomarmos esse caso do Master como exemplo da ação de empresas junto às instâncias de poder, o que pensar do poder de empresas que valem trilhões de dólares?
Os limites da democracia liberal estão sendo expressos nessa conjuntura. As mudanças na economia mudaram as regras do jogo. Desde a crise financeira de 2008 assistimos ao crescimento vertiginoso das big techs, à manipulação crescente da opinião pública e ao enfraquecimento das democracias, dominadas pelo poder econômico.
Neste momento, qualquer tentativa de reforma institucional que busque restabelecer a democracia só trará mais problemas, com a extrema direita imprimindo sua marca nas reformas. Não há como voltar atrás e tentar repetir o que já foi, recompor o jogo democrático. E esse é o grande desafio.
O modelo atual de exploração do capitalismo tem no fascismo a expressão política dessa opressão. Já houve um momento, no começo do século XX, em que a ameaça do comunismo fez com que o capitalismo cedesse e criasse o welfare state, políticas públicas para atender às necessidades das maiorias. Hoje, sem ameaças, capitalismo e fascismo caminham juntos e buscam destruir todas as conquistas de direitos humanos que as mobilizações sociais obtiveram com suas lutas.
A realidade internacional rebate na política brasileira. O fascismo bate à porta do Brasil, prometendo repressão, corte no orçamento das políticas sociais, isenção de impostos para empresas, congelamento do salário mínimo, maior desigualdade e exclusão.
O bolsonarismo se alinha aos interesses neocoloniais dos Estados Unidos de transformar o Brasil num grande fazendão, que lhes ofereça petróleo, minerais raros, riquezas naturais e alimentos, e compre produtos manufaturados. A desindustrialização faz parte dessa estratégia.
Junto com esse alinhamento econômico, temos uma internacional de extrema direita que prega o racismo, a misoginia, a discriminação, o combate ao diferente, o combate ao comunismo, o combate ao terrorismo, seja lá o que se entenda por isso, o combate a qualquer manifestação coletiva de crítica ao governo.
Mesmo aqueles que não gostam de Lula precisam pensar nas consequências de optar por Flávio Bolsonaro. Não podemos colocar na presidência um miliciano e converter o Brasil num narcoestado.
[1]Plínio Teodoro, “Senador Bernie Sanders e 30 deputados cobram Trump por interferência nas eleições brasileiras”, Revista Fórum, 24 set. 2026.
[2]Naomi Klein e Astra Taylor, “Fascismo do fim dos tempos”, Other News, 23 set. 2026.
[3]Maiquel Rosauro, “Rede gasta US$ 106 mil na Meta para promover Cury e criticar opositores; parte dos posts tem anunciante identificado nos EUA”, Lupa, 21 set. 20126, bit.ly/redcuryop.

