ELEIÇÕES 2026

Quem disputa a política no Cerrado é mais rico, mais branco e mais masculino que seus povos

No artigo de estreia da série Olho de Aceiro, dados do TSE mostram que as 9.529 candidaturas do Cerrado declaram R$ 16,4 bilhões em bens, metade nas mãos de 63 nomes, enquanto apenas 57 assinaram a carta-compromisso #VotePeloCerrado 

Sobre o Cerrado, milhares de candidaturas disputarão os governos estaduais, Senado, Câmara e assembleias legislativas em 4 de outubro. Não muito distante das figuras que comandam a destruição nessa terra-território, o retrato de quem pretende potencializar o seu poder na máquina pública é mais masculino, mais branco e mais rico do que a população que vive nele. E assim como a dinâmica do latifúndio, a terra, que é declarada nas candidaturas do Cerrado, é concentrada em poucas mãos.  

Em Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia são 8.861 candidaturas a governador e vice, senador, deputado federal e deputado estadual, das quais 34,7% são de mulheres e 49,3% de pessoas autodeclaradas pretas ou pardas. No centro do Cerrado, o Distrito Federal acumula 668 candidaturas. Somadas, estas 9.529 pessoas que concorrem a uma vaga nas eleições de 2026 têm declarado R$ 16,4 bilhões em patrimônio ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).  

Lucimone Maria de Oliveira, articuladora das CPTs do Cerrado, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), conta que já existem avanços nas políticas públicas voltadas para essa terra-território, como Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Cerrado (PPCerrado), criado pelo governo federal em 2010, mas ainda há desafios.  

“Esses avanços convivem com grandes contradições e a destruição do Cerrado continua em ritmo acelerado”, explica a articuladora. “Entre as principais ameaças estão a expansão do agronegócio, especialmente no Matopiba, em Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além da mineração, das grandes obras de infraestrutura, grilagem e especulação de terras, uso de agrotóxicos e a crescente disputa pela água no bioma”. 

Provocadas pela urgência desta terra-território, a Campanha #VotePeloCerrado, articulada pela Rede Cerrado e pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, reuniu oito compromissos a serem assumidos para a próxima legislatura. Dentre eles, estão a proteção do Cerrado como patrimônio nacional e as águas como direito fundamental, garantia de terra, território e autodeterminação dos povos e o combate à grilagem e à violência no campo. A poucos dias das eleições, 57 candidaturas haviam aderido à carta, 53 delas disputando eleições no Cerrado. 

A consulta livre, prévia e informada, garantida pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), também faz parte dos compromissos da carta. A urgência segue diante do cenário das comunidades, que estão bem distantes de ter o seu direito assegurado em plenitude. “Quase sempre ficamos sabendo depois”, conta Samuel Caetano, presidente do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT). A ideia é que o processo, presente nos territórios, seja feito de fato: “consulta não é convocar uma reunião quando a decisão já está encaminhada; quem será diretamente atingido deve participar antes da decisão, não apenas ser comunicado depois”, alertou o também geraizeiro sobre o compromisso levantado.  

Crédito: Arquivo Pessoal

Isso se parece com o nosso Cerrado? 

Em nenhum dos nove estados, nem no DF, a proporção de candidaturas pretas e pardas alcança o peso desses grupos na população, segundo o Censo 2022. A maior distância está em Mato Grosso, onde pessoas pretas e pardas são 66% dos moradores e 46% das candidaturas, seguido de Mato Grosso do Sul (53% e 37%), Piauí (77% e 62%) e Goiás (63% e 49%). Na Bahia, o estado mais negro do Cerrado, a diferença cai para três pontos. As mulheres, maioria da população em sete dos nove estados e no DF, ficam entre 33,4% e 38,3% das candidaturas, patamar próximo aos 34,8% registrados no país e sustentado sobretudo pela cota mínima de 30% exigida nas chapas proporcionais. 

Mulheres negras-cerradeiras são apenas 18% das candidaturas. E, onde a cota não alcança, as mulheres quase somem: no Maranhão e em Mato Grosso do Sul, nenhuma terá o rosto na urna para governador. Das 84 candidaturas a governador, 15 são de mulheres; para o Senado, são 25 entre 132.

Para a doutora em Ciência Política e professora visitante na Universidade Federal de Lavras, Thaís Vieira, a realidade das candidaturas que não refletem a população é resultado da herança colonial escravocrata brasileira e da não reparação histórica tanto em relação aos negros quanto em relação aos povos indígenas. Dessa maneira, o campo político reproduz o cotidiano do país em que pessoas brancas ocupam os cargos mais altos na sociedade e as pessoas negras estão na base da pirâmide social.

Do mesmo modo, ainda que seja possível perceber a forte presença das mulheres nos territórios, muitas vezes no papel de liderança, isso não se traduz nas candidaturas. “Muitas dessas líderes de associação são mulheres que também trabalham em regime CLT e são mães e esposas. Imagina o quão difícil é organizar a vida em torno das demandas da maternidade, da vida conjugal, da casa e ainda fazer sobrar tempo para campanha política?”, questiona Thaís. 

Ela explica que, no Brasil, a legislação que estabelece cotas para mulheres na política vigora há três décadas e, desde sua adoção, foi objeto de diversas revisões e alterações. Ainda assim, as candidaturas femininas enfrentam desafios dentro e fora dos partidos, atravessadas pela misoginia e pelo racismo. “Os partidos políticos, comandados sempre por homens brancos ricos, encontram formas de burlar a lei para que prevaleçam os interesses das elites políticas que concentram maior poder dentro dos partidos”, completa. 

Dos cerca de 9,5 mil corpos que, sobre o Cerrado, disputam as eleições, 190 se declaram lésbicas, gays, bissexuais, pansexuais ou assexuais, sendo 2% do total. Dissidentes, 44 desses corpos se declaram transgênero, menos de 0,5%, proporções muito próximas às do país. Entre elas estão as deputadas federais Duda Salabert (PSOL-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP), que disputam a reeleição pela região de Minas Gerais e São Paulo. No DF, no Cerrado do Planalto Central, está a maior proporção de candidaturas LGBTQIA+ (4,5%), no Tocantins a menor, com 0,8%.

Por outro lado, ainda, e também, existe um silêncio: 46,5% das candidaturas optaram por não informar a orientação sexual, e 42,7% não informaram a identidade de gênero. No Piauí, parte da zona de sacrifício estabelecida no Matopiba, sete em cada dez candidaturas não declararam a orientação sexual, e nenhuma se declarou transgênero. 

Ainda na mesma lógica

Dentre as candidaturas desta terra-território, dois terços informaram ter algum bem. Dos valores que são informados pelas próprias pessoas à Justiça Eleitoral, 28% do total respondem pelos dez maiores patrimônios; na mesma casta, duzentas candidaturas informaram mais de R$ 10 milhões em bens. Os registros das 6.376 candidaturas têm como mediana de R$ 438 mil e média de R$ 2,57 milhões, distância que só a concentração no topo explica. A metade de baixo dessas candidaturas soma 3% de todo o valor declarado, e o 1% do topo, 63 nomes, reúne metade dele.

Os dois maiores patrimônios do Cerrado são de primeiros suplentes ao Senado no Tocantins: Luiz Pastore (PL), com R$ 678 milhões, e Jorge Madeira (Podemos), com R$ 650 milhões. Entre os dez primeiros, quatro disputam a suplência; completam o grupo Odilio Balbinotti (PL-MT), com R$ 360 milhões, e Misael Varella (PSD-MG), com R$ 315 milhões. Pastore é suplente de Eduardo Gomes (PL), Madeira de Vanderlei Luxemburgo (Podemos), Balbinotti de José Medeiros (PL) e Varella de Carlos Viana (PSD).

Dos 63 nomes do 1% mais rico, 56 são homens; 46 são brancos, 16 pardos e apenas 1 é preto. Assim, mesmo sendo metade das candidaturas, pessoas pretas e pardas declaram 29% do patrimônio, e as mulheres, 35% das candidaturas, ficam com 17%. Contando também quem não declarou bens, um terço do total, a mediana do patrimônio de candidaturas brancas é de R$ 280 mil, a das pardas, de R$ 76 mil, e a das pretas, de R$ 10 mil. Dentre as candidaturas apresentadas, uma mulher negra tem patrimônio mediano de R$ 8 mil, cinquenta vezes menos que os R$ 400 mil de um candidato branco. 

Para quem acompanha a política a partir das comunidades, os números confirmam a ofensiva nos territórios. “Existem candidaturas comprometidas, mas ainda são poucas as pessoas que conhecem o Cerrado desde o chão do território”, diz Samuel Caetano, presidente do CNPCT. “O problema não é a falta de capacidade das comunidades. Faltam recursos, espaço nos partidos, proteção, tempo e condições reais de disputa. A política ainda é organizada para quem dispõe de dinheiro, estrutura e relações de poder”, complementa.  

 

Terra, terra, terra, terra nua 

Nas declarações ao TSE, a terra rural tem categoria própria, a chamada terra nua, que é o valor do terreno sem construções nem plantações, registrada à parte das benfeitorias feitas nele. No Cerrado, 150 candidaturas declararam bens desses dois tipos, que somam R$ 378,4 milhões, e os dez maiores detentores concentram 66% desse valor. O Maranhão lidera, com R$ 145,8 milhões, puxado por Simplício Araújo (DC), candidato ao Senado, que declarou uma área em Grajaú, a cerca de 550 quilômetros da capital maranhense, avaliada em R$ 100 milhões. Logo atrás aparecem Misael Varella (PSD-MG), primeiro suplente ao Senado, com R$ 35,5 milhões, e o deputado federal José Nelto (União-GO), com R$ 32,7 milhões. 

A terra declarada não cabe inteira nessa categoria, pois muitas fazendas entram na declaração como “outros bens imóveis”, um tipo genérico que reúne R$ 1,2 bilhão declarado por 796 candidaturas no Cerrado. Destes, Goiás responde pela maior fatia, R$ 308,2 milhões. O maior valor da categoria é do pecuarista Carlos Cardoso de Oliveira Filho, primeiro suplente de Gustavo Mendanha (PRD) na disputa pelo Senado em Goiás, com R$ 143,2 milhões em participações de fazendas como Tapuio, Monte Aprazível, Jalapão e Morrinhos. Estreante em eleições, ele chega à disputa pela porta da suplência, cargo que não recebe votos próprios. 

A terra aparece com cor e gênero. Candidaturas brancas somam 78% do valor em terra nua e benfeitorias, e as mulheres, 3%. A distância aparece ainda na ocupação que cada candidatura informou ao TSE: os 94 que se apresentam como produtores agropecuários ou pecuaristas têm patrimônio mediano de R$ 1,9 milhão, enquanto, entre os 38 que se declaram trabalhadores rurais, 22 não informaram bem algum. Os povos indígenas, que têm no Cerrado parte de seus territórios, aparecem em oitenta candidaturas autodeclaradas nos nove estados e no DF, 0,8% do total, com Mato Grosso do Sul (22) e Bahia (15) à frente. 

A representatividade quando se trata dos povos indígenas está atravessada por diversas violências históricas e é fundamental para tentar angariar espaços no poder público e defender seus interesses, lembra Thaís. Em 2025, segundo registros do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT), indígenas foram as principais vítimas de conflitos no campo, com trezentas ocorrências de violência. Além disso, dos 27 assassinatos registrados no país, 7 foram indígenas. 

“Muitos indígenas, vivendo em terras em litígio, sequer são donos de seus territórios que foram invadidos por colonos no período da Marcha para Oeste e em outros períodos anteriores. A possibilidade de uma candidatura, em primeiro lugar, é uma conquista democrática, saber que todos têm o direito de votar e ser votados”. 

No território, a disputa pela terra traduz os números em formas, ações. No Norte de Minas, Samuel conta que nos últimos anos “chegaram novas cercas, mineração, monoculturas, especulação sobre a terra e um fogo cada vez mais destrutivo”. Nos vales dos rios Peixe Bravo e Vacaria, a mineração avança sobre áreas de canga importantes para a recarga das nascentes. “Quando se destrói uma chapada, não se perde apenas vegetação: compromete-se a água, a produção, a cultura e o futuro das comunidades”, explicou, do lado de cá. 

O cenário de ofensivas sobre os territórios é, ainda, agravado cada vez mais pelas mudanças climáticas, sentidas primeiro pelos povos e comunidades tradicionais. “Indígenas, quilombolas, agricultores e agricultoras familiares, geraizeiros, quebradeiras de coco, vazanteiros e tantos outros modos de vida. São esses povos que protegem sementes, nascentes, rios, matas, alimentos e conhecimentos tradicionais”, destaca a articuladora Lucimone. 

Ela chama a atenção para a PEC 504/2010, que propõe incluir o Cerrado e a Caatinga entre as terras-territórios reconhecidas pela Constituição como Patrimônio Nacional, mas que aguarda há mais de dez anos a votação final no plenário da Câmara. “Reconhecer o Cerrado como Patrimônio Nacional não resolve sozinho os problemas do bioma, mas representa um importante reconhecimento político e constitucional de sua importância e da necessidade de sua proteção”. 

A articuladora entende também que as políticas públicas voltadas para o Cerrado não devem ser pensadas apenas para a proteção do bioma, mas conjuntamente e também fortalecendo as comunidades que vivem e protegem territórios cerradeiros, olhando ainda para o marcante protagonismo das mulheres. Por isso, ressalta que não existe política de proteção do Cerrado sem proteção dos seus povos e da própria terra-território. 

 

Conseguiremos adiar o fim do, nosso, Cerrado? 

Nas comunidades, os candidatos costumam aparecer perto da eleição. “Prometem estrada, poço, regularização da terra, máquinas e emendas. Depois, muitos desaparecem”, diz Samuel. “Não queremos favor nem promessa de ocasião. Queremos compromissos públicos, orçamento, fiscalização e participação permanente. A comunidade não pode ser tratada como curral eleitoral. Ela é um sujeito político, produz conhecimento, protege água e biodiversidade e precisa ser ouvida durante todo o mandato”, complementa.  

Na contramão dessa estratégia, a carta-compromisso #VotePeloCerrado reunia, até 1 de outubro, 53 assinaturas no Cerrado. Nos nove estados, foram 37, cerca de uma em cada 240 das 8.861 candidaturas: oito em Minas Gerais, oito no Maranhão, sete em Goiás, seis em São Paulo, quatro no Tocantins, três em Mato Grosso do Sul e uma na Bahia. O Distrito Federal soma outras 16. Em Mato Grosso e no Piauí, nenhuma candidatura havia aderido, e nenhum candidato a governador assinou. 

No Senado, as adesões do Cerrado se resumem a três nomes: Erika Kokay (PT) e Leila do Vôlei (PDT), no DF, e Eliziane Gama (PT), no Maranhão. As demais se concentram em candidaturas à Câmara, às assembleias e à Câmara Legislativa, e as 57 vêm do campo da esquerda e da centro-esquerda: 25 do PT, 15 do PSOL, 6 do PSB, 4 da Rede, 4 do PV, 2 do PDT e 1 do PCdoB. Entre quem assinou estão lideranças indígenas como Sônia Guajajara (PSOL-SP), Célia Xakriabá (PSOL-MG), Avanilson Karajá (PV-TO) e Narubia Werreria (PT-TO), além de Antônia Cariongo (PSOL-MA). 

Em Goiás e no Maranhão, onde a base do Observatório Jornalístico Universitário da Universidade Federal de Goiás (OJU/UFG) já identificou quem exerce mandato, 129 candidaturas aptas buscam renová-lo, e o patrimônio mediano desse grupo é de R$ 1,12 milhão, seis vezes o dos demais. São parlamentares que já exercem mandato, cuja atuação em temas como licenciamento ambiental, agrotóxicos e manejo do fogo pode ser verificada em votos e proposições. E a cada eleição, esse cenário parece se repetir, com um Congresso Nacional dominado por elites empresariais e setores do agro-hidro-mineronegócio. 

“Toda a formação do Congresso Nacional está envolta em defesas de interesses de determinados setores, aliás, setores estes que majoritariamente votam contra os interesses do povo brasileiro”, ressalta Thaís. “Faz parte da democracia que diferentes interesses sejam representados na política, esse é o jogo democrático. O que não faz parte é a concentração de poder em torno de uma elite política, como estamos vendo há anos no Brasil, que defende única e exclusivamente seus próprios interesses “, explica.  

Assim, a partir do primeiro turno, o Olho de Aceiro vai acompanhar os eleitos do Cerrado, cruzando o que declararam possuir com o que votaram, com quem financiou suas campanhas e com os compromissos que assumiram, ou não, diante da carta do Cerrado. Queremos saber: quem o Cerrado elegerá, qual seu histórico e, principalmente, qual será seu impacto sobre nossas vidas, povos e terra-território. “Quando houver conflito entre os interesses econômicos de uma mineradora ou de uma grande empresa e o direito de uma comunidade à água, ao território e à vida, de que lado você ficará? E o que já fez, antes de pedir nosso voto, para demonstrar essa escolha?”, também questiona Samuel.  

 

Heloisa Sousa é jornalista e atua na equipe de comunicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT). 

João Palhares é jornalista no Cerrado goiano e atua na coordenação de comunicação da Articulação Agro é Fogo. 

 

Realizada pela Articulação Agro é Fogo com apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), a série Olho de Aceiro examina quem ocupa e quem disputa o poder no Cerrado e como essas escolhas pesam sobre a terra-território e os povos que o defendem. Os textos são possíveis graças a parceria com o Observatório Jornalístico Universitário, da Universidade Federal de Goiás (OJU/UFG), pelo levantamento de dados públicos sobre as candidaturas e a atuação parlamentar entre 2023 e 2026, lado a lado com organizações parceiras que levam para a série a experiência e as lutas de quem vive no Cerrado. 

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