Depois das urnas, cadê o voto das católicas?
Se acreditar em Deus importa, por que a religião do candidato não pesa na mesma medida?
As urnas fecharam no domingo e, quase imediatamente, abriu-se uma nova disputa: a das interpretações sobre o que elas disseram. Quem levou o voto evangélico? Onde Lula perdeu terreno? E onde Flávio Bolsonaro conseguiu avançar? Entre os primeiros recortes do resultado eleitoral, um deles chama atenção para o peso da religião na reorganização do voto. Flávio Bolsonaro (PL) avançou nos municípios com maior concentração de evangélicos, enquanto Lula (PT) perdeu terreno, em comparação com a eleição anterior, nas cidades de maior presença católica. O movimento ajuda a compreender uma divisão que as pesquisas já registravam poucos dias antes da votação: Lula mantinha vantagem entre os católicos, enquanto Flávio liderava entre os evangélicos.
Mas quem são, afinal, “os católicos” quando dizemos que esse grupo votou de determinada maneira? Pouco mais de uma semana antes do primeiro turno, entre 25 e 27 de setembro, acompanhamos a Festa de São Miguel, em Fortaleza (CE), para olhar mais de perto essa categoria ampla. Durante três dias, conversamos com mulheres fortemente inseridas na vida católica, aplicamos questionários e realizamos entrevistas em profundidade. O objetivo era compreender como elas constroem suas escolhas eleitorais e, sobretudo, de que maneira a religião participa – ou não – desse processo.
Depois das urnas, essa pergunta ganhou ainda mais força. O “voto evangélico” já faz parte do vocabulário das eleições brasileiras: é medido pelas pesquisas, disputado pelas campanhas e examinado pela imprensa. Com os católicos, porém, o olhar costuma ser menos atento. A presença histórica do catolicismo na formação social, cultural e política do país talvez ajude a explicar essa diferença. De tão entranhado na vida pública brasileira, o catolicismo muitas vezes deixa de ser percebido como uma presença religiosa na política – justamente porque sua presença parece familiar, difusa e, em certos contextos, quase naturalizada.
As pesquisadoras Camila Galetti, Jamille Bezerra e Tabata Tesser chamaram atenção para esse problema em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, em setembro de 2026. Ao analisarem o voto de mulheres cristãs, elas questionam também uma imagem recorrente sobre o chamado “voto religioso”: a de uma liderança que aponta o candidato e de fiéis que simplesmente seguem sua orientação. Pesquisas com mulheres evangélicas mostram um processo bem menos linear. A palavra do pastor pode ter peso, mas ela se combina com outras referências: a família, as experiências do cotidiano, as redes de convivência, as informações que circulam dentro e fora das igrejas e as maneiras pelas quais cada mulher articula suas crenças com suas escolhas políticas. O voto, portanto, não é apenas recebido como orientação; ele é construído a partir de diferentes vínculos, experiências e fontes de autoridade.
Sobre as católicas, sabemos ainda menos. Antes da eleição, Galetti, Bezerra e Tesser formularam a questão de maneira direta: “em quem votam as católicas e por quê?”. As urnas fecharam, os votos foram contados, mas a pergunta continua em aberto. Podemos identificar onde Lula e Flávio Bolsonaro tiveram melhor ou pior desempenho e cruzar esses resultados com a presença de católicos e evangélicos nos municípios. Isso, porém, não nos diz como uma mulher católica chega ao nome que escolhe na urna.

Em Fortaleza, encontramos uma primeira pista. Muitas das mulheres que ouvimos colocam a fé no centro da própria vida, frequentam regularmente espaços religiosos e consideram importante que um candidato acredite em Deus. Isso não significa, porém, que procurem necessariamente um candidato católico. Algumas afirmam que a religião específica do candidato interfere pouco ou nada em sua decisão e dizem que poderiam votar em pessoas de outras tradições religiosas. À primeira vista, há aí uma contradição: se acreditar em Deus importa, por que a religião do candidato não pesa na mesma medida? Talvez porque estejamos reunindo, sob a mesma ideia de “religião”, coisas que essas mulheres distinguem. Uma coisa é reconhecer a fé como sinal de valores, caráter ou visão de mundo; outra é exigir pertencimento a uma tradição religiosa específica.
No questionário, fizemos três perguntas distintas: é importante que o candidato acredite em Deus? A religião dele influencia seu voto? Você votaria em alguém de outra religião? Com frequência, encontramos mulheres que respondiam “sim” à primeira pergunta, atribuíam pouca ou nenhuma importância à segunda e também respondiam “sim” à terceira. A princípio, as respostas podem parecer contraditórias. Mas elas apontam para uma distinção importante: acreditar em Deus pode funcionar menos como uma exigência de pertencimento religioso e mais como um sinal de valores, princípios ou visão de mundo. O candidato não precisa ser católico para ser percebido como alguém que compartilha referências consideradas importantes por uma eleitora católica. Há, portanto, uma diferença entre procurar alguém “da minha religião” e reconhecer em alguém “os meus valores”.
Esse achado também nos faz voltar ao resultado de domingo. Lula continuou majoritário nas cidades mais católicas, mas perdeu terreno nelas em relação à eleição anterior. O que observamos em Fortaleza não permite explicar, por si só, um movimento nacional, mas ajuda a formular uma hipótese: as fronteiras religiosas podem ser mais porosas na urna do que costumamos supor. Se compartilhar a mesma religião não é uma condição para o voto, uma candidatura pode encontrar ressonância entre eleitoras católicas por meio de valores, discursos e referências que circulam para além das fronteiras confessionais.
Um dado divulgado na reta final da campanha ajuda a dimensionar essa diferença. Pesquisa Datafolha, publicada em 2 de outubro, mostrou que 31% dos católicos diziam que a opinião de líderes religiosos exercia muita ou alguma influência sobre seu voto para presidente. Entre os evangélicos, eram 39%. Nos dois grupos, porém, a maioria afirmava sofrer pouca ou nenhuma influência desse tipo. O dado é importante, mas também revela um limite: medir a influência de uma liderança religiosa não dá conta de todas as formas pelas quais a religião pode chegar à urna.
Isso apareceu com clareza quando perguntamos às mulheres o que levavam em consideração para escolher um candidato. “Propostas” foi uma resposta recorrente, muitas vezes combinada com valores, trajetória, religião ou indicação. Também não encontramos uma separação tão nítida entre as chamadas “pautas morais” e aquilo que costuma ser tratado como problema concreto. Aborto e família apareceram ao lado de saúde, educação, segurança e economia. Uma mesma mulher podia considerar muito importante que o candidato acreditasse em Deus e, ao explicar seu voto, falar de saúde e educação. Outra podia mencionar aborto, segurança e saúde na mesma resposta. Talvez o problema esteja justamente em esperar que essas dimensões apareçam separadas para quem vota. Nas respostas que ouvimos, religião, valores e preocupações do cotidiano não ocupavam gavetas diferentes. Elas apareciam combinadas na maneira como essas mulheres avaliavam candidatos e organizavam suas próprias prioridades.
Algo parecido acontece com a informação. A Igreja está presente, mas divide espaço com Instagram, YouTube e WhatsApp. Uma mulher pode ouvir uma questão na igreja, conversar sobre ela em casa, encontrar um vídeo no Instagram, receber outro pelo WhatsApp e ainda buscar novas informações antes de decidir seu voto. É difícil reduzir esse percurso à imagem de uma liderança que orienta e de um fiel que simplesmente segue.
Isso não significa que a Igreja tenha deixado de importar. Talvez seja preciso apenas procurar sua influência em outros lugares. A Igreja também é um espaço onde se constroem vínculos de confiança, referências sobre certo e errado e maneiras de interpretar o mundo. Essas referências, porém, não ficam restritas ao espaço religioso. Elas circulam pela família, pelos amigos, pelas redes sociais e por outras experiências do cotidiano, encontrando no caminho novas informações, opiniões e formas de interpretar a política.
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais o voto católico seja mais difícil de enxergar. Costumamos procurar a religião onde ela aparece de maneira mais evidente: na liderança que pede voto, no candidato que pertence à mesma religião da eleitora ou na pessoa que declara ter escolhido alguém por causa da fé. Em Fortaleza, ela apareceu de maneira mais difusa. Estava nos valores reconhecidos nos candidatos, nas questões consideradas importantes, nas redes de confiança e nos espaços aos quais essas mulheres recorriam para formar suas opiniões. A religião não precisava aparecer como justificativa explícita do voto para participar da maneira como ele era construído.
Fortaleza não nos revelou um “voto católico” pronto e reconhecível, mas mulheres católicas chegando às suas escolhas por caminhos distintos. A religião fazia parte desses percursos, ao lado de propostas, valores, preocupações materiais, relações de confiança e informações que circulavam por diferentes espaços. As urnas permitem ver onde Lula e Flávio Bolsonaro avançaram ou perderam votos. O que elas não mostram é como cada eleitora construiu a decisão que levou até a urna. Talvez esteja aí uma das razões pelas quais o voto católico seja tão difícil de identificar: ele nem sempre aparece como voto religioso, mesmo quando a religião participa da sua construção.
Juciane de Jesus é doutoranda em Sociologia pela USP e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).
Ana Carolina Marsicano é pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp) e pós-doutoranda da Unicamp.
Maria Eduarda Antonino é doutora em Sociologia pela UFPE e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp).

