INFLAÇÃO

A trajetória da inflação e o futuro econômico: de Bolsonaro a Lula 3

Em artigo do especial Lula × Bolsonaro 2026, o professor de economia da UnB, José Luis Oreiro, traça uma radiografia da inflação nas gestões Bolsonaro e Lula 

O debate macroeconômico brasileiro contemporâneo é frequentemente capturado por narrativas ortodoxas que ocultam a verdadeira natureza da nossa dinâmica de preços. Ao analisarmos a trajetória do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre o governo de Jair Bolsonaro (janeiro de 2019 a dezembro de 2022) e o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (janeiro de 2023 a agosto de 2026), emerge uma lição cristalina: a inflação no Brasil tem origem essencialmente nos custos, atrelada a choques de oferta e falhas na gestão de preços administrados, e não em um suposto excesso de demanda. Este artigo propõe uma radiografia comparativa dessas duas gestões, dissecando as variações do IPCA geral, da inflação de alimentos e dos preços monitorados. Além disso, projeta os horizontes econômicos diante da ameaça de um eventual retorno do projeto bolsonarista, figurado no senador Flávio Bolsonaro, contrastando-o com as diretrizes e desafios macroeconômicos necessários para o sucesso e a reeleição do governo Lula. 

“Tariflavio”. Crédito: Ilustra/@raphabaggas

No terceiro mandato do presidente Lula, a inflação medida pelo IPCA demonstra uma estabilização estrutural e não recessiva. Após encerrar 2023 em 4,62% e 2024 em 4,83%, o IPCA acumulado em 12 meses caiu para 4,26% em 2025, situando-se em 4,22% em agosto de 2026, impulsionado por uma expressiva deflação mensal de -0,32% neste último mês. 

Esta dinâmica benigna é explicada pela reversão dos choques de oferta. O grupo de Alimentação e Bebidas – historicamente oneroso para as classes populares – registrou deflação de 0,34% em agosto de 2026, refletindo o acerto da retomada de políticas de incentivo agrícola e agricultura familiar. Simultaneamente, os preços administrados, que compõem cerca de 25% do índice, mantiveram-se ancorados por meio de uma gestão racional do setor elétrico e da política de preços da Petrobras, sem artificialismos tributários. 

O governo de Jair Bolsonaro legou uma economia refém da extrema vulnerabilidade externa e da volatilidade cambial. O IPCA geral escalou de 4,31% em 2019 para assustadores 10,06% em 2021. Naquele biênio, a inflação de alimentos e os preços administrados explodiram em decorrência da dolarização dos combustíveis e da deliberada destruição dos estoques reguladores de alimentos.    

Em 2022, o IPCA recuou para 5,78%, mas a anatomia dessa queda revela um oportunismo estritamente eleitoreiro: o governo impôs uma redução forçada e insustentável do ICMS sobre combustíveis e energia. O resultado foram deflações artificiais nos preços administrados entre julho e setembro de 2022 (-0,68%, -0,36% e -0,29% ao mês) que mascararam a inflação subjacente.    

A tabela abaixo explicita a trajetória do IPCA acumulado em 12 meses, mês a mês, comparando o ano eleitoral do bolsonarismo (2022) com o atual cenário do governo Lula 3 (2026). 

Mês IPCA Acumulado 12m (2022) IPCA Acumulado 12m (2026)
Janeiro 10,38% 4,44%
Fevereiro 10,54% 3,81%
Março 11,30% 4,14%
Abril 12,13% 4,39%
Maio 11,73% 4,72%
Junho 11,89% 4,64%
Julho 10,07% 4,44%
Agosto 8,73% 4,22%

Fonte: Banco Central do Brasil. Elaboração do autor.  

 

Fica evidente que, sob Bolsonaro, o descontrole gerou um pico inflacionário de 12,13% em abril de 2022, revertido apenas via “canetada” fiscal insustentável. Sob Lula, a curva oscila de maneira civilizada, refletindo o realinhamento da oferta produtiva nacional.    

A eventual vitória de um projeto bolsonarista, figurado na eleição do senador Flávio Bolsonaro, representa a promessa de um choque de estagflação. O flerte com um draconiano ajuste fiscal ortodoxo, com cortes já anunciados de R$ 300 bilhões em saúde, educação e previdência social, deprimiria severamente a demanda efetiva e o mercado de trabalho. 

Sob a ótica inflacionária, a retomada da agenda de desregulamentação total sobre os preços administrados, aliada a uma esperada volatilidade cambial oriunda da fuga de capitais frente à ameaça de instabilidade institucional, resultaria em um novo ciclo de repasses (pass-through) para os preços internos. Sem políticas de soberania alimentar, submetido aos humores das cotações em Chicago, o Brasil veria a inflação de alimentos voltar a castigar a classe trabalhadora, repetindo a trágica regressividade distributiva verificada em 2021. 

Em caso de reeleição do governo Lula, as projeções do mercado capturadas pelo Boletim Focus apontam para um IPCA de 5,01% em 2026 e 4,30% em 2027. O sistema financeiro classifica este cenário como de “desancoragem das expectativas”, utilizando tal narrativa para chantagear o Estado e exigir juros exorbitantes. Contudo, a análise macroeconômica séria demonstra que a anomalia não reside nos fundamentos da economia real, mas na persistência de uma meta de inflação irrealista de 3%, fixada pela ortodoxia e perseguida dogmaticamente por uma autoridade monetária autônoma. 

Para assegurar o êxito de um novo mandato, a gestão da inflação deverá continuar apostando na expansão da oferta: fomento agrícola para isolar choques de alimentos e controle cauteloso dos preços administrados. Todavia, será imperativo, do ponto de vista institucional, revisar o centro da meta de inflação para um patamar compatível com uma economia emergente, como 4,5%. Somente essa flexibilização permitirá uma queda estrutural da taxa Selic, desobstruindo o investimento produtivo, financiando a reindustrialização e enterrando, de vez, a ameaça da estagnação econômica patrocinada pelas altas taxas de juros. 

Em suma, a anatomia da inflação brasileira ao longo destas gestões revela o esgotamento prático do receituário neoliberal. A estabilização estrutural e contínua observada no governo Lula 3 evidencia que o combate efetivo à inflação passa pelo fortalecimento da oferta, fomento aos estoques agrícolas e pela soberania na política de preços administrados, e não pela asfixia da economia real imposta por uma taxa de juros escorchante. Por outro lado, o espectro de um novo ciclo bolsonarista com flertes de choque fiscal ortodoxo e liberalização ameaça o país com o risco de retorno rápido à estagflação e à regressão social e produtiva. Para que o atual projeto progressista pavimente o caminho para sua continuidade e fomente um desenvolvimento robusto, é inadiável que o Estado rompa de vez com as amarras da ortodoxia. A revisão da meta de inflação para um patamar realista de 4,5% é o passo institucional definitivo para forçar a queda estrutural da Selic, desobstruindo o investimento privado e reabilitando o Brasil para um novo ciclo de prosperidade sustentável. 

 

José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília. E-mail: [email protected]. 

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