Escolhas políticas fazem a diferença no prato dos brasileiros
Durante o governo Bolsonaro, o quilo da carne bovina de primeira cresceu 77,4%. Nos quatro anos seguintes, a alta foi de 21,9%. Em artigo do especial Lula × Bolsonaro 2026, Adriana Marcolino e Patrícia Lino Costa, do Dieese, analisam os fatores que explicam a inflação deste e de outros alimentos nos últimos oito anos
Muito se fala, atualmente, sobre os preços dos alimentos. De fato, o país enfrenta diversos desafios externos, muitas vezes alheios à ação do governo, como a crise climática, os conflitos geopolíticos, a elevada demanda internacional por determinados produtos, a força dos oligopólios supermercadistas e a transformação dos alimentos em commodities. Nesse processo, a busca pelo lucro se sobrepõe à soberania alimentar, fazendo com que os preços internos sejam influenciados pelos valores praticados no mercado internacional.
Esses desafios estão no horizonte do governo Lula, que vem adotando políticas específicas para conter a elevação dos preços, apesar dos interesses dos grandes grupos dos setores de abastecimento e varejo. Entre essas iniciativas estão a importação de alimentos para ampliar a concorrência com produtos nacionais encarecidos; a recomposição dos estoques reguladores, desmantelados durante os governos Temer e Bolsonaro; e o investimento contínuo na agricultura familiar e em programas de aquisição e distribuição de alimentos. Essas medidas contribuem para garantir uma alimentação diversificada e de qualidade à população, além de fortalecer os pequenos produtores.
O governo também atua na ampliação da renda, com reajustes do salário mínimo acima da inflação, ampliação do Bolsa Família e assegurando a paridade do piso previdenciário com o salário mínimo. Essas políticas garantem, por lei, um ganho real e ajudam a preservar o poder de compra das famílias mais afetadas pela alta dos preços dos alimentos, especialmente as de baixa renda.

Além disso, o governo Lula demonstra preocupação com os efeitos das mudanças climáticas, que elevam os custos de produção e, consequentemente, os preços dos alimentos. Nesse sentido, suas diretrizes incluem a implementação de um programa destinado a orientar a política climática nacional até 2035, a criação de políticas de proteção e fiscalização ambiental e a redução das emissões de gases de efeito estufa, entre outras ações.
A importância das políticas do atual governo pode ser observada no comportamento dos preços. Durante o governo Bolsonaro, o quilo da carne bovina de primeira passou de R$ 23,35, em dezembro de 2018, para R$ 41,23, em dezembro de 2022, o que representa uma alta de 77,4% nas dezessete capitais abrangidas pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos realizada pelo Departamento Intersindical Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e, desde 2024, em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No governo Lula, por sua vez, o aumento foi de 21,9%. Isso demonstra que a percepção de preços elevados já existia antes do início do atual governo.
O preço do arroz aumentou 62,5% durante o governo Bolsonaro, que chegou a atribuir a alta ao consumo excessivo e à formação de estoques pela população. No governo Lula, mesmo diante das enchentes na Região Sul, principal área produtora de arroz do país, a ação do governo fez com que a alta acumulada fosse de apenas 1,2%.
Para quem assistiu a vídeos do candidato da direita criticando a alta do café em pó no governo Lula, é importante lembrar que, durante o governo Bolsonaro, o preço do produto passou de R$ 18,75 para R$ 34,51, uma elevação de 84%, considerando-se a média das dezessete capitais. No governo Lula, mesmo diante das incertezas provocadas pelo aumento de tarifas, pela grande especulação nas bolsas internacionais e pelas ameaças de Donald Trump, a alta foi de 61,3%, e o produto custava R$ 55,67 em setembro.
Também chama a atenção o comportamento do preço do feijão carioca. Durante o governo Bolsonaro, o aumento foi de 134,2%. No governo Lula, com a adoção de políticas específicas, como a realização de leilões e a importação de feijão-preto, a alta foi de 3,8%.
Preço médio nominal dos produtos nas 17 cidades onde o Dieese realiza a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos
Brasil – dezembro de 2018, 2022 e setembro de 2026
| Produtos | Bolsonaro | Lula | ||||
| Preço médio (R$) | Preço médio (R$) | Variação | Preço médio (R$) | Preço médio (R$) | Variação | |
| dez/18 | dez/22 | % | dez/22 | set/26 | % | |
| Batata (1) | 2,87 | 6,28 | 118,7 | 6,28 | 7,13 | 13,6 |
| Café em pó | 18,75 | 34,51 | 84,0 | 34,51 | 55,67 | 61,3 |
| Carne 1a bovina | 23,25 | 41,23 | 77,4 | 41,23 | 50,24 | 21,9 |
| Tomate | 5,52 | 7,40 | 34,2 | 7,40 | 9,09 | 22,8 |
| Pão Francês | 10,92 | 15,33 | 40,4 | 15,33 | 17,87 | 16,5 |
| Banana | 4,37 | 8,54 | 95,5 | 8,54 | 9,08 | 6,3 |
| Manteiga | 39,68 | 60,29 | 52,0 | 60,29 | 61,53 | 2,1 |
| Óleo de soja | 3,55 | 8,98 | 153,2 | 8,98 | 8,10 | -9,8 |
| Arroz | 3,04 | 4,94 | 62,5 | 4,94 | 5,00 | 1,2 |
| Farinha de Trigo (1) | 3,19 | 5,77 | 80,9 | 5,77 | 4,51 | -21,8 |
| Farinha de Mandioca (2) | 4,51 | 7,16 | 58,8 | 7,16 | 6,79 | -5,1 |
| Açúcar Cristal (3) | 2,01 | 4,09 | 103,6 | 4,09 | 3,34 | -18,4 |
| Açúcar Refinado (4) | 2,41 | 4,40 | 82,2 | 4,40 | 3,84 | -12,7 |
| Feijão Preto (5) | 4,63 | 7,36 | 59,2 | 7,36 | 6,98 | -5,3 |
| Feijão Carioca (6) | 3,83 | 8,96 | 134,2 | 8,96 | 9,30 | 3,8 |
| Leite UHT | 3,76 | 6,26 | 66,5 | 6,26 | 7,01 | 12,0 |
Fonte: Dieese/Conab. Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos. Elaboração: autoras do texto.
Os preços aumentaram muito mais durante o governo Bolsonaro. Por quê? Porque as políticas adotadas não priorizavam o bem-estar social. O preço do petróleo foi atrelado às cotações internacionais, e os consumidores arcaram, nos governos Temer e Bolsonaro, com reajustes frequentes dos combustíveis. Consequentemente, a distribuição dos alimentos tornou-se mais cara por causa dos aumentos no preço do diesel. Além disso, houve o enfraquecimento da Companhia Nacional de Abastecimento e o desmonte dos silos que mantinham estoques de alimentos destinados à regulação dos preços de mercado. Privilegiou-se a exportação dos alimentos de melhor qualidade, enquanto parte da população brasileira enfrentava a fome e formava filas para ter acesso a ossos bovinos.
Também foram reduzidos drasticamente os investimentos na agricultura familiar e os incentivos à produção de alimentos de qualidade. Ao mesmo tempo, ampliou-se o uso de fertilizantes e agrotóxicos prejudiciais à saúde e incentivou-se a produção de soja e milho voltada à exportação. O resultado pode ser observado no patamar de preços apresentado na tabela acima e no retorno do Brasil ao Mapa da Fome.
Desde o início, o governo Lula demonstrou a intenção de governar em favor dos brasileiros e da soberania nacional, priorizando medidas destinadas a garantir à população uma alimentação de qualidade e nutricionalmente equilibrada. Instituiu um plano nacional de abastecimento que considera a preservação ambiental, prevê ações para enfrentar os efeitos dos eventos climáticos e amplia os investimentos na agricultura familiar.
O resultado, até o momento, é uma elevação de preços proporcionalmente menor do que a registrada no governo anterior, além de uma preocupação constante com o bem-estar da população brasileira.
Em pouco tempo de políticas e atividades para produção e abastecimento de alimentos, o Brasil saiu novamente do mapa da fome. A manutenção dessas políticas e seu reforço, em particular, o desenvolvimento de técnicas e tecnologias que mitiguem os efeitos da crise climática e medidas de soberania alimentar são fundamentais para que a fome não retorne nunca mais para o Brasil.
Adriana Marcolino é diretora técnica do Dieese e doutoranda em Sociologia.
Patrícia Lino Costa é supervisora de preços do Dieese e mestre em Economia.
Notas:
(1) Coleta realizada na Região Centro-Sul
(2) Coleta realizada no Norte e Nordeste
(3) Coleta realizada no Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Belo Horizonte e Vitória
(4) Coleta realiza nas capitais do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro
(5) Coleta realizada em Vitória, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre
(6) Coleta realizada no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e nas cidades de São Paulo e Belo Horizonte

