RESENHA

Os espelhos poéticos de Anderson Valfré em ‘A Veia Torta da Cruz’

A obra trata-se de uma belíssima composição subdividida em três seções (cantos), respectivamente intitulados: “A Cruz”, “O Caos” e “A Morte”

Anderson Valfré, natural de Linhares, Espírito Santo, é licenciado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e qualificado em Teatro pela FAFI: Escola Técnica de Teatro, Dança e Música, localizada em Vitória (ES). Ao longo de seus 13 anos de carreira, tem colecionado importantes conquistas: autor de seis livros, dez peças teatrais, dez produções audiovisuais e trinta produções culturais (dentre elas, mediações e apresentações em festivais nacionais e internacionais), ganhou 4 prêmios. Além de escritor, poeta e teatrólogo, é idealizador e coordenador nacional da Transvê Poesias, que conta com 12 anos de história e está presente em todo o Brasil.

A Veia Torta da Cruz: III Cantos (2026)[1] é o primeiro livro solo de poesia do escritor Anderson Valfré, que conta com a capa de Deivison Silvestre e o prefácio de Josué da Silva. A obra trata-se de uma belíssima composição subdividida em três seções (cantos), respectivamente intitulados: “A Cruz”, “O Caos” e “A Morte”. O livro aborda diferentes temáticas que convergem em um único ponto: o espelho que a vida é, em toda a sua complexidade.

Crédito: Divulgação

O primeiro canto, cujo título é “A Cruz”, apresenta o nascimento, o brotar e o gerar a vida. Nele, temos o despertar do eu lírico para o mundo que o cerca: “Um dia a vida te acorda / No outro você a reconhece” (VALFRÉ, 2026, p. 23). No entanto, com o (re)conhecimento, vem a dor: o mundo enfrenta graves crises, fome, egoísmo e desamor. Em luto e enxergando tudo isso, o eu lírico se sente pequeno perante a vida e seus impasses: “O espelho revelou-me o quanto eu era pequeno” (VALFRÉ, 2026, p. 25). É preciso entender esse espelho de Valfré como uma metáfora da vida, que é muito bem tecida ao longo de toda a obra. Ao conhecer a “cor da dor que nos compõe”, a voz poética compreende que somos apenas “um grão em desatino” que deve seguir em frente, pois o caminho está em nossos passos.

O segundo canto, intitulado “O Caos”, traz a ideia de passagem, de lidar com as escolhas e as desigualdades do mundo. Nele, temos uma interessante construção que simula o turbilhão que é a nossa existência. Vemos a vida em movimento e a sabedoria que o eu lírico adquire com o tempo. Há também um contraponto entre a beleza e a ordem da natureza e a artificialidade e o desequilíbrio do urbano, das cidades do século XXI. Em meio a todo esse caos, o eu lírico exclama: “Eu sou o espelho quebrado da história!” (VALFRÉ, 2026, p. 71). Perante o inexorável tempo e a amplidão da vida, a voz poética sente-se fragmentada.

Por fim, o terceiro canto, nomeado “A Morte”, trata da partida, do trauma e do luto por um ente querido, uma ideia ou sonho extraviado. Nele, o eu-lírico invoca todas as divindades que já habitaram a Terra, desafia a própria morte e clama pelo direito de renascer: “convoco todos os deuses e deusas que pisaram na terra e sentiram sua umidade. / Brado a morte, o teu sangue e o teu furor, / insisto no grito do nascer de novo” (VALFRÉ, 2026, p. 75). A voz poética, enfim, percebe que todos somos “Filhos da terra / somos Filhos do Vento / somos Filhos da água / herdeiros de tempos” (VALFRÉ, 2026, p. 79). Temos em nossas veias a ancestralidade e a força da natureza, por isso, precisamos respeitar e cuidar bem dela e de nossos semelhantes. “O eco da vida em tudo rebate”, por isso, o eu-lírico conclui que “somos espelhos da própria vida” (VALFRÉ, 2026, p. 82). É, portanto, impossível permanecer indiferente à realidade na qual estamos inseridos, após ler A Veia Torta da Cruz.

 

Gabriela Lages Veloso é professora, escritora, poeta, antologista e crítica literária. Graduada em Letras – Língua Portuguesa e suas respectivas literaturas, pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Mestra em Letras, na linha de Estudos Teóricos e Críticos em Literatura, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Autora dos livros Através dos Espelhos de Guimarães Rosa e Jostein Gaarder: reflexos e figurações (Editora Diálogos, ensaio, 2021) e O Mar de Vidro (Caravana, 2023), que ganhou o 2° lugar no Prêmio Melhor Livro de Poesia 2024, promovido pela Academia Maranhense de Letras (AML). Atualmente, é Colunista do Portal Imirante.com, Tutora Pedagógica da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Professora da Fundação Escola de Governo do Maranhão (EGMA).

 

[1]VALFRÉ, Anderson. A Veia Torta da Cruz: III Cantos. Linhares, ES: Transvê Antologias, 2026.

 

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