CARTOGRAFIA E A REPRESENTAÇÃO GLOBAL

Quem tem o direito de desenhar o mundo?

Ao propor outra maneira de representar o planeta, a África nos lembra que os mapas nunca mostram apenas onde estamos. Eles também revelam quem teve, em cada época, o poder de dizer como o mundo deveria ser visto

“Um mapa sempre administra a realidade que procura mostrar.”

Jerry Brotton, Uma história do mundo em doze mapas

O mundo que aprendemos a ver

Há uma imagem do mundo que quase todos conhecemos antes mesmo de saber exatamente o que era o mundo. Estava na parede da escola, nos atlas e nas enciclopédias. Mais tarde, reapareceu nos jornais, nos escritórios e nas telas dos computadores.

No alto, enormes extensões do Canadá, da Groenlândia e da Rússia. Mais abaixo, a Europa; do outro lado do Atlântico, a América do Sul afunilava em direção ao extremo sul; e, abaixo da Europa, a África parecia grande, mas não extraordinariamente maior do que a Groenlândia.

Era o mundo. Ou, pelo menos, aprendemos que era.

Em 4 de setembro de 2026, uma resolução aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas veio perturbar essa imagem familiar. Por 164 votos favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário, dos Estados Unidos, a ONU recomendou que, nas representações gerais do planeta, fossem utilizadas projeções que preservassem as proporções relativas das áreas, como a Equal Earth – Terra Igual[1].

A iniciativa partiu do Togo, pequeno país da África Ocidental, e recebeu o apoio da União Africana. O detalhe importa.

Em 1884, representantes das potências europeias reuniram-se em Berlim, a convite do chanceler alemão Otto von Bismarck, para estabelecer regras que ajudariam a organizar a disputa colonial pelo continente africano. Nenhum africano participou da conferência. Mais de 140 anos depois, era um pequeno país africano que levava às Nações Unidas uma questão aparentemente cartográfica, mas carregada de história: como o mundo deveria ser representado?

Parece, à primeira vista, uma discussão para geógrafos. Não é. Por trás da resolução existe uma pergunta muito maior: quem tem o direito de desenhar o mundo?

O problema impossível

Há uma dificuldade que nenhum cartógrafo conseguiu resolver porque, simplesmente, não tem solução: a Terra é aproximadamente esférica e o mapa é plano.

Não é possível transformar a superfície de uma esfera em um plano preservando simultaneamente áreas, formas, distâncias, direções e ângulos. Toda projeção cartográfica precisa escolher o que conservar – e, portanto, o que deformar.

Foi diante desse problema que, em 1569, o flamengo Gerardus Mercator produziu uma das grandes invenções da história da cartografia. Sua projeção não era um erro, mas sim uma solução brilhante para um problema concreto.

A expansão da navegação europeia exigia cartas que permitissem manter rumos constantes. A projeção de Mercator preservava os ângulos e fazia com que essas rotas aparecessem como linhas retas, uma vantagem extraordinária para quem atravessava oceanos orientando-se pela bússola e por cartas náuticas.

Havia, porém, um preço: à medida que nos afastamos do equador, as áreas são progressivamente ampliadas, fazendo com que regiões próximas aos polos pareçam desproporcionalmente grandes.

A Groenlândia, por exemplo, parece quase tão grande quanto a África, embora seus pouco mais de 2 milhões de quilômetros quadrados correspondam a apenas uma fração dos cerca de 30 milhões da África. O continente africano é, na realidade, aproximadamente catorze vezes maior.

Mercator não errou a conta; escolheu preservar outra propriedade[2].

A diferença torna-se imediatamente perceptível quando colocamos lado a lado a representação que se tornou familiar e uma projeção que faz uma escolha diferente (Fig. 1). O planeta é o mesmo; o que muda é aquilo que o mapa decidiu preservar.

Figura 1 – Dois modos de representar o mesmo planeta. À esquerda, a projeção de Mercator preserva ângulos e direções locais, ampliando progressivamente as áreas nas altas latitudes. À direita, a projeção Equal Earth – Terra Igual preserva as proporções relativas das áreas, tornando particularmente visível a diferença de escala da África, da América do Sul, da Groenlândia, do Canadá e da Rússia.

O problema, portanto, não estava na projeção de Mercator, mas no fato de uma ferramenta criada para determinada finalidade ter se tornado, ao longo dos séculos, uma das representações mais familiares do próprio planeta.

Quando esquecemos que o mapa é um mapa

Jerry Brotton percorre, em Uma história do mundo em doze mapas, mais de dois milênios de tentativas humanas de representar a Terra e mostra algo desconcertante: cada sociedade desenhou não apenas o mundo que conhecia, mas também aquele que imaginava[3].

A Babilônia podia ocupar o centro do universo; Jerusalém, o centro simbólico dos mapas cristãos medievais. A cartografia islâmica produziu outras orientações, a China concebeu sua própria centralidade e a Europa moderna colocou progressivamente o Atlântico – e a si própria – no centro de uma representação que acabaria se tornando mundial.

Nenhuma dessas escolhas estava inscrita na geografia. A superfície de uma esfera não possui um centro privilegiado, e nada na geografia determina que o Norte deva aparecer no alto e o Sul embaixo. Poderíamos inverter o mapa, colocar o Sul acima ou escolher outro meridiano e fazer do Pacífico o centro da representação. A Terra continuaria a mesma; nós é que passaríamos a enxergá-la de outra maneira.

Talvez esteja aí uma das lições mais importantes de Brotton: não existem mapas sem ponto de vista, mas apenas mapas cujos pontos de vista podem se tornar tão familiares que esquecemos que são pontos de vista.

Quando desenhar significava também possuir

Voltemos a Berlim.

A conferência iniciada em novembro de 1884 não dividiu a África, como às vezes se afirma, traçando fronteiras com uma régua sobre o mapa. A história foi mais complexa. Ao tratar do comércio e da navegação nos rios Congo e Níger e estabelecer condições para o reconhecimento de novas reivindicações territoriais, ela ajudou a definir as regras sob as quais a disputa colonial pelo continente se aceleraria. Conquistas militares, tratados e acordos entre as potências europeias fariam grande parte do restante[4].

A ausência africana adquiria assim seu significado mais profundo: não se discutia apenas o destino de territórios distantes, mas também as regras segundo as quais outros poderiam reivindicá-los, ocupá-los e governá-los. Os povos que viviam nesses territórios não participavam da definição dessas regras.

A rapidez da transformação aparece quando comparamos a África no início da conferência com o continente três décadas depois (Fig. 2). Em novembro de 1884, apesar da presença europeia em diferentes regiões do litoral e de algumas possessões já estabelecidas, vastas extensões permaneciam sob a autoridade de reinos, impérios, sultanatos e outras sociedades políticas africanas. Em julho de 1914, quase todo o continente estava submetido ao domínio colonial europeu ou incorporado às suas esferas imperiais; Etiópia e Libéria constituíam as principais exceções como Estados independentes.

Figura 2 – Da África de Berlim à África repartida. Entre novembro de 1884 e julho de 1914, quase todo o continente passou ao domínio colonial europeu ou às suas esferas imperiais. A Conferência de Berlim não desenhou diretamente a maioria das fronteiras, mas estabeleceu regras que contribuíram para acelerar a disputa colonial; conquistas, tratados e acordos posteriores completariam grande parte da partilha.

O mapa adquiria então outra função: além de representar rios, montanhas e cidades, passava a indicar quem dizia possuir o quê. Linhas desenhadas em gabinetes europeus transformavam territórios habitados por povos com suas próprias histórias, línguas e estruturas políticas em possessões, protetorados e zonas de influência.

A conquista, porém, precisava também de uma narrativa que a legitimasse. Durante séculos, sociedades africanas haviam sido descritas, a partir de centros europeus de poder, como exóticas, primitivas ou inferiores. No século XIX, em meio à expansão imperial e às teorias raciais apresentadas como ciência, essas representações passaram a servir à justificação do domínio colonial: a dominação podia apresentar-se como tutela; a conquista, como progresso; e o império, como missão civilizadora.

O europeu aparecia como portador da ciência, da religião, das instituições e do progresso; os povos submetidos, como aqueles que deveriam recebê-los. O objetivo não era apenas ocupar territórios, mas construir uma representação do mundo na qual a própria ocupação pudesse parecer legítima.

Em certos momentos, portanto, o mapa não apenas representa o território: o poder tenta fazer com que o território passe a obedecer ao mapa.

Um país que pertencia a um homem

Talvez nenhum episódio mostre essa combinação entre território, representação e poder de maneira tão brutal quanto o Congo.

Há alguns anos, li King Leopold’s Ghost, de Adam Hochschild. Ficou comigo sobretudo a história que ele conta: a transformação de uma imensa região da África Central em domínio pessoal de um rei europeu e o surgimento, em resposta, de uma das primeiras grandes campanhas internacionais de denúncia de atrocidades da era moderna[5].

No processo que acompanhou a Conferência de Berlim, Leopoldo II da Bélgica obteve o reconhecimento internacional da entidade que se tornaria o Estado Livre do Congo – nome de cruel ironia para um território que não pertencia inicialmente ao Estado belga, mas, na prática, a um homem.

Sob o domínio pessoal de Leopoldo II e em nome da civilização, do comércio e do combate à escravidão, estabeleceu-se um regime brutal de exploração, associado sobretudo à extração de borracha e marfim.

É aqui que a história do mapa encontra outra forma de representação: a fotografia.

Quando uma fotografia enfrentou um império

Entre as fotografias feitas pela missionária britânica Alice Seeley Harris no Estado Livre do Congo, no início do século XX, estavam alguns registros dos efeitos da coerção imposta às populações locais pela exploração da borracha. Incorporadas à campanha internacional contra as atrocidades do regime de Leopoldo II, algumas dessas imagens atravessariam o mundo.

Uma delas, registrada em 1904, tornou-se particularmente difícil de esquecer: Nsala, um homem congolês, aparece sentado diante dos restos mortais de sua filha, morta durante uma ação punitiva associada ao sistema de exploração da borracha.

Reproduzida e projetada diante de audiências, a fotografia permitiu que pessoas a milhares de quilômetros do Congo enxergassem aquilo que a linguagem oficial procurava manter distante[6].

Havia, assim, representações concorrentes do mesmo território. No mapa, aquele enorme espaço da África Central chamava-se Estado Livre do Congo; na propaganda, aparecia associado à civilização, ao comércio e ao progresso; nos relatos de denúncia surgiam coerção, exploração e morte – e, nas fotografias de Harris, essas palavras adquiriam rostos.

A disputa pelo Congo tornava-se também uma disputa sobre qual representação daquele território seria aceita como verdadeira. Missionários, jornalistas, diplomatas, escritores e ativistas ampliaram a denúncia até transformá-la em uma questão internacional. A distância já não bastava para proteger o regime daquilo que começava a ser visto.

O episódio revela algo que ultrapassa a história do Congo: impor uma representação da realidade é uma forma de poder, mas cada representação pode ser confrontada por outra.

Em 1908, sob crescente pressão internacional e doméstica, o Estado belga anexou o território. Terminava o domínio pessoal de Leopoldo II; o colonialismo, não.

O continente que encolheu no mapa

Seria tentador, a essa altura, traçar uma linha direta entre a projeção de Mercator e o colonialismo europeu. Seria também historicamente errado. Mercator publicou sua projeção em 1569, três séculos antes da grande corrida colonial pela África, e não há razão para lhe atribuir a intenção de engrandecer a Europa ou diminuir o continente africano. Seu problema era outro: representar rumos constantes como linhas retas para facilitar a navegação.

As tecnologias, porém, frequentemente sobrevivem às finalidades para as quais foram criadas e, ao fazê-lo, podem transformar-se em padrões que continuam organizando nossa percepção. Durante gerações, milhões de crianças aprenderam geografia diante de mapas nos quais as altas latitudes do hemisfério Norte apareciam enormemente ampliadas. A Europa, o Canadá e a Rússia adquiriam uma presença visual desproporcional, enquanto a África e a América do Sul pareciam relativamente menores.

Isso não exige supor que alguém tenha deliberadamente escolhido esses mapas para ensinar que alguns povos eram mais importantes do que outros. Uma representação pode produzir efeitos culturais sem que tenham sido planejados: repetida durante décadas, torna-se familiar; de tão familiar, parece natural; e aquilo que parece natural é raramente percebido como uma escolha.

Talvez esteja aí o poder mais duradouro de um mapa: não apenas naquilo que ele mostra, mas naquilo que, de tanto mostrar da mesma maneira, nos ensina a deixar de perceber.

Depois da independência

A história, porém, não terminou quando as bandeiras europeias começaram a descer dos mastros. A partir de meados do século XX, as independências transformaram o mapa político da África: colônias tornaram-se Estados soberanos e povos antes governados de Londres, Paris, Bruxelas ou Lisboa passaram formalmente a governar a si mesmos.

Mas independência política e ruptura histórica não são a mesma coisa. Décadas de domínio colonial haviam construído redes de comércio, sistemas monetários e jurídicos, empresas, infraestruturas, vínculos militares e relações entre elites que não desapareceriam com a independência. As antigas potências, por sua vez, procuraram preservar diferentes formas de influência.

Essas continuidades assumiram formas muito distintas, mas tornaram-se particularmente visíveis na antiga África francesa. Durante décadas, países da África Ocidental que utilizavam o franco CFA – moeda criada pela França em 1945, para suas colônias africanas e mantida, sob novas instituições, por vários Estados depois das independências – conservaram uma arquitetura monetária estreitamente ligada à antiga potência colonial. A reforma acordada em 2019, encerrou a centralização de parte das reservas no Tesouro francês e a participação francesa nos órgãos de governança do Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO), responsável pela emissão e pela política monetária comum dos países da União Econômica e Monetária do Oeste Africano, mas preservou a paridade fixa com o euro e a garantia francesa de convertibilidade[7].

A descolonização, portanto, pode ocorrer em camadas: desaparece a administração colonial, enquanto permanecem disputas mais longas sobre moeda, comércio, segurança, instituições, cultura e sobre a maneira pela qual uma sociedade imagina seu lugar no mundo.

É nesse contexto – embora não possa ser reduzido a ele – que deve ser observado o movimento recente no Sahel. Burkina Faso, Mali e Níger deixaram, em janeiro de 2025, a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), organização de integração regional criada em 1975[8], e passaram a aprofundar sua articulação na Aliança dos Estados do Sahel (AES), transformada em confederação no ano anterior. Seus governos apresentam essa reorientação como uma afirmação de soberania e de afastamento de antigas dependências. O processo, entretanto, está longe de constituir uma ruptura simples: os três países enfrentam graves desafios políticos e de segurança e, ao mesmo tempo que reduzem vínculos com antigos parceiros ocidentais, ampliam relações com outras potências. A busca por maior autonomia, portanto, não elimina a possibilidade de que antigas dependências sejam substituídas por novas.

Há também uma dimensão menos institucional nesse movimento: a maneira como uma sociedade passa a imaginar suas próprias possibilidades. Guardadas todas as diferenças, o Brasil conheceu algo semelhante nos anos JK, quando o “50 anos em 5”, Brasília, a industrialização e a Copa de 1958 alimentaram um raro sentimento de confiança nacional[9]. Foi justamente naquele período que Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-latas” para descrever a tendência brasileira de se considerar inferior diante do resto do mundo – um sentimento que, aos seus olhos, a vitória de 1958 parecia finalmente desafiar.

Talvez algo desse estado de espírito ajude a compreender, sem idealizações, parte do discurso de soberania que hoje emerge no Sahel. O paralelo não está nos governos ou nas circunstâncias históricas, mas na mudança da imagem que uma sociedade constrói de suas próprias possibilidades.

Descolonizar um território é uma coisa. Descolonizar a maneira de enxergá-lo – e de enxergar a si próprio – pode levar muito mais tempo.

A África volta à mesa

É essa longa história que dá outra dimensão ao que aconteceu em Nova York em 4 de setembro de 2026. A iniciativa partiu do Togo, com o apoio da União Africana, e, mais de 140 anos depois da Conferência de Berlim, colocava novamente a África no centro de uma discussão internacional sobre mapas. Desta vez, porém, os africanos estavam à mesa.

Já não se discutia como potências estrangeiras pretendiam dividir, ocupar ou administrar o continente, mas algo aparentemente mais modesto e carregado de significado: a maneira como a própria África aparece diante dos olhos do mundo.

A projeção Equal Earth, desenvolvida em 2018, pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny[10], preserva as proporções relativas das áreas terrestres. Nela, a África, a América do Sul, a Índia e outras regiões aparecem em dimensões proporcionais às suas áreas reais, corrigindo a ampliação relativa que a projeção de Mercator produz nas altas latitudes. Isso não faz da Equal Earth “o mapa verdadeiro”: nenhuma projeção pode preservar simultaneamente todas as propriedades da superfície terrestre. Cada uma precisa escolher o que conservar e, consequentemente, o que deformar.

Se Mercator escolheu preservar ângulos e direções, fundamentais para a navegação, a Equal Earth parte de outra prioridade: manter as proporções relativas entre as áreas. A questão, portanto, não é apenas qual projeção convém a determinada finalidade, mas também o que escolhemos preservar quando representamos o mundo.

É nesse sentido que a resolução de 2026 ultrapassa a cartografia. Sociedades que, durante muito tempo, foram desenhadas, classificadas e descritas por outros, reivindicam agora maior participação na maneira como o mundo – e elas próprias – é representado.

Mudar um mapa, evidentemente, não descoloniza uma economia, não redistribui riqueza nem cria instituições. Mas pode revelar que uma sociedade começou a reivindicar também o direito de escolher como deseja enxergar a si própria – e ser vista pelos outros.

E onde fica o Brasil?

É justamente aí que a discussão deixa de dizer respeito apenas à África. O Brasil tem cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, e a América do Sul, quase 18 milhões. Também pertencemos à parte do planeta cuja dimensão relativa aparece reduzida na projeção de Mercator.

Mas a questão não é apenas cartográfica. Países que hoje reunimos sob a expressão imperfeita de Sul Global aprenderam, durante muito tempo, a se enxergar por meio de representações, classificações e escalas produzidas nos grandes centros de poder econômico, científico e cultural. Os mapas eram apenas uma delas.

No Brasil, a metáfora do “complexo de vira-latas” pode ser ampliada: países também podem acostumar-se a olhar para sua história, seu território e suas capacidades através dos olhos daqueles que, por muito tempo, ocuparam o centro do mapa.

Superar essa herança não significa substituir uma superioridade por outra, nem transformar cartografia em ressentimento. Significa aprender a olhar para si mesmo sem precisar tomar emprestada a medida do outro.

A maneira como imaginamos o território participa da maneira como pensamos suas possibilidades. Amazônia, Atlântico Sul, águas jurisdicionais, recursos minerais, biodiversidade e energia adquirem outra dimensão estratégica quando compreendidos também na escala do país a que pertencem.

Nenhum mapa produz soberania, assim como nenhuma projeção cartográfica cria capacidade científica, tecnológica ou industrial. Mas dificilmente construiremos uma visão estratégica de um país sem imaginar corretamente o território, os recursos e as capacidades sobre os quais estamos pensando.

Agora cada um está no centro

Há ainda uma última transformação nessa longa história contada por Brotton. Durante milênios, diferentes sociedades escolheram o que deveria ocupar o centro de seus mapas. Babilônia, Jerusalém, a Europa ou o meridiano de Greenwich ocuparam, em momentos distintos, esse lugar privilegiado.

Hoje, basta abrir um mapa no telefone para que essa lógica se transforme. Na tela, um pequeno ponto indica: você está aqui. Ruas, cidades, estradas e continentes reorganizam-se continuamente a partir da posição de quem consulta o mapa. Pela primeira vez, bilhões de pessoas carregam no bolso uma representação do mundo cujo centro se desloca com elas.

Em certo sentido, cada um de nós tornou-se o centro do mapa.

Há nisso, porém, um paradoxo. Nunca dispusemos de mapas tão personalizados; ao mesmo tempo, poucas organizações concentram enorme capacidade de decidir como bilhões de pessoas enxergam o território.

A antiga questão cartográfica não desapareceu quando o mapa passou do papel para a tela: tornou-se digital e, cada vez mais, algorítmica. Quem decide o que aparece quando abrimos um mapa? O que recebe destaque ou permanece quase invisível, qual fronteira é mostrada, que nome é atribuído a um território?

Depois de séculos de transformações tecnológicas, a pergunta continua surpreendentemente familiar: quem desenha o mundo?

O décimo terceiro mapa

Talvez, daqui a algumas décadas, um historiador observe a resolução aprovada pela ONU em setembro de 2026 como observamos hoje os mapas de outras épocas e se pergunte o que aquela sociedade dizia sobre si mesma ao decidir mudar a maneira de representar o planeta.

Há uma longa distância entre Berlim e Nova York.

Em 1884, potências estrangeiras discutiam regras para a ocupação da África sem que um único africano estivesse à mesa. Vieram depois a conquista colonial, suas contestações, as independências e uma descolonização que se revelaria muito mais longa do que a simples substituição de bandeiras.

Em 2026, um país africano chegava às Nações Unidas, com o apoio da União Africana, não para discutir fronteiras desenhadas por outros, mas para propor ao mundo outra maneira de representar o planeta. Passaram-se 142 anos. A Terra continuou do mesmo tamanho, e a África não ganhou um único quilômetro quadrado. O que mudou foi quem podia sentar-se à mesa e participar da escolha do mapa.

Talvez devamos então voltar àquela imagem pendurada na parede da escola. Acreditávamos estar simplesmente vendo o mundo; agora sabemos que víamos também uma escolha.

Aprender a ler um mapa talvez signifique compreender não apenas aquilo que ele mostra, mas também o que escolheu preservar, o que precisou deformar e qual maneira de enxergar o mundo nos ensinou.

Todo mapa continuará sendo uma escolha. A diferença é que aqueles que durante tanto tempo foram desenhados, classificados e representados pelos outros também reivindicam o direito de participar dela.

O mundo não mudou de tamanho.

Mudou quem pode desenhá-lo.

 

Celso P. de Melo é professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

 

[1]Nações Unidas. Assembleia Geral, Correct the map: rebalancing global cartographic representation and promoting equitable representation of the world’s regions, particularly Africa. 2026, United Nations: New York.

[2]Snyder, J.P., Flattening the Earth: Two Thousand Years of Map Projections. 1993, Chicago: University of Chicago Press. 365.

[3]Brotton, J., Uma história do mundo em doze mapas. 2014, Rio de Janeiro: Zahar. 616.

[4]Pakenham, T., The Scramble for Africa: 1876-1912. 1991, London: Weidenfeld & Nicolson. 738.

[5] Hochschild, A., King Leopold’s Ghost: A Story of Greed, Terror, and Heroism in Colonial Africa. 1998, Boston: Houghton Mifflin. 366.

[6] de Melo, C.P., Quando uma imagem se torna testemunha. Substack, 2026.

[7]Banco Central dos Estados da África Ocidental, Communiqué de presse: réforme du franc CFA. 2019, BCEAO: Dakar.

[8]Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, Declaração à imprensa. 2025, CEDEAO: Abuja.

[9]de Melo, C.P., Os Grupos de Trabalho de JK e o método do desenvolvimento. Jornal GGN, 2026.

[10]Šavrič, B., T. Patterson, e B. Jenny, The Equal Earth map projection. International Journal of Geographical Information Science, 2019. 33(3): p. 454–465.

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