Entre a reconstrução e o retrocesso: a economia política dos programas de Lula e Flávio Bolsonaro
Em novo artigo do especial Lula × Bolsonaro 2026, a economista Juliane Furno compara as perspectivas em disputa nas eleições presidenciais e alerta que o cenário provável em caso de vitória de Flávio é o de um ajuste recessivo com alto custo social
Este texto procura fazer uma análise econômica a partir de uma perspectiva que entende a economia como um campo de disputa distributiva, e não como uma ciência neutra de especialistas. A ideia é fazer um breve balanço do terceiro governo Lula, discutir algumas das consequências da implementação do programa econômico de Flávio Bolsonaro e comparar os dois projetos com base em seus resultados para quem ganha e quem perde com cada um deles.

O governo Lula: reconstrução real, mas limites autoimpostos
O terceiro governo Lula recebeu um país desorganizado. A fome havia voltado a atingir dezenas de milhões de pessoas, o investimento público estava em níveis historicamente baixos, a política de valorização do salário mínimo tinha sido abandonada e o Estado havia sido desmontado em áreas inteiras, dos orçamentos para ciência e tecnologia à já precária estrutura de fiscalização ambiental. Diante desse ponto de partida, os resultados na esfera do trabalho e da renda são inequívocos.
O desemprego medido pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026. Esse é o menor patamar para esse período desde o início da série histórica. A população ocupada também cresceu, chegando a 103,5 milhões de pessoas. Mais importante, a massa de rendimentos reais somou R$ 385,6 bilhões, um recorde. O número de trabalhadores que contribuem para a Previdência também é o maior já registrado. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da FAO, a regra de valorização real do salário mínimo foi retomada e o Bolsa Família foi recomposto.
Diria que, se fosse para apontar um único grande feito, seria a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, financiada por uma tributação mínima sobre as altas rendas. Essa medida representou o primeiro movimento concreto em décadas para tornar menos regressiva a estrutura tributária brasileira.
O crescimento, que o mercado projetava como medíocre ano após ano em seus sucessivos boletins Focus, surpreendeu positivamente em 2023 e 2024. O mercado errou, mas também é verdade que, em 2026, o ritmo de crescimento desacelerou. Isso fica explícito quando vemos que o PIB avançou apenas 0,5% no segundo trimestre, depois de crescer 1,1% no primeiro, com a indústria e os serviços praticamente estagnados e o agronegócio puxando o resultado. A taxa de investimento, um importante indicador econômico, caiu para 16,1% do PIB, abaixo do nível registrado um ano antes.
Atribuo esse resultado ao que estou chamando de limites autoimpostos. O governo optou por substituir o teto de gastos por um novo arcabouço fiscal que, embora menos draconiano, manteve a lógica de subordinar o gasto social e o investimento público a metas de resultado primário. É claro que precisamos considerar que as condições políticas eram difíceis. Negar isso seria ignorar que a política não é determinada apenas pela vontade.
É bom lembrar também que, embora tenha continuado submetido a uma regra de limitação dos gastos, o governo ampliou a despesa pública nesse período, mantendo uma política fiscal expansionista. No entanto, o governo Lula conviveu com uma política monetária que levou a Selic a 15% em 2025, colocando o Brasil entre os países com os maiores juros reais do mundo. O Banco Central, que agora tem autonomia por lei, iniciou os cortes apenas em 2026, e a taxa ainda está em 13,75%. Ou seja, talvez os efeitos mais benéficos da política fiscal tenham sido parcialmente anulados pela política monetária.
O resultado é uma contradição evidente. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, e o próprio Banco Central aponta os juros nominais como o principal fator de pressão sobre o indicador. A narrativa da “gastança”, que domina o debate público, ignora que a explosão da dívida decorre, sobretudo, da conta de juros, já que o resultado primário do governo está praticamente equilibrado.
Na outra ponta, as famílias pagam a mesma conta. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho, o maior percentual da série histórica. O crédito à pessoa física custa, em média, mais de 60% ao ano. Some-se a isso a expansão descontrolada das apostas on-line, que drenam renda justamente dos mais pobres, e fica mais fácil entender por que o recorde de emprego não se converte em uma sensação de prosperidade. O trabalhador ganha mais, é verdade, mas parece não perceber esse avanço porque uma fatia crescente dos rendimentos vai para os bancos e as plataformas.
Lula e Bolsonaro: dois projetos, dois resultados
A comparação com o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) precisa ser feita com cuidado, dado o choque da pandemia. Mas, mesmo levando esse fator em conta, os contrastes são nítidos.
No mercado de trabalho, o governo anterior conviveu com taxas de desocupação de dois dígitos durante a maior parte do mandato, que chegaram a 14,9% no auge da pandemia. A recuperação posterior apoiou-se fortemente na informalidade e na precarização associada à reforma trabalhista de 2017. Sob o governo Lula, o desemprego caiu para a casa dos 5%, enquanto o número de trabalhadores que contribuem para a Previdência atingiu um recorde.
Na renda dos mais pobres, a diferença é ainda mais marcante. O Brasil terminou 2022 com mais de 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, segundo a Rede Penssan. O salário mínimo ficou praticamente sem ganho real ao longo dos quatro anos. Sob o governo atual, a política de valorização foi retomada e o país voltou a sair do Mapa da Fome.
Na inflação, o governo Bolsonaro registrou, em 2021, uma alta de dois dígitos no IPCA, fortemente concentrada em alimentos e energia, justamente os itens que mais pesam no orçamento dos mais pobres. O governo Lula enfrentou choques relevantes, como o tarifaço de Donald Trump e a alta do petróleo associada à guerra no Irã, mas manteve a inflação em patamar muito inferior ao registrado naquele período.
Por fim, há uma diferença de concepção sobre o papel do Estado. O governo anterior privatizou a Eletrobras, vendeu refinarias e subsidiárias da Petrobras, enfraqueceu o BNDES e tratou a política industrial como um resquício do passado. O governo atual, apesar de suas timidezes, voltou a reconhecer que nenhum país se desenvolveu sem planejamento e forte atuação estatal.
O que esperar de um governo Flávio Bolsonaro
O programa econômico de Flávio Bolsonaro foi coordenado por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e ex-sócia de Paulo Guedes, e por Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia. A escolha dos dois revela muito sobre o programa, para além das platitudes nele contidas. Trata-se da mesma equipe e do mesmo receituário de 2019, agora apresentados sob o símbolo da tesoura – o “tesouraço” –, em referência explícita à motosserra de Javier Milei, na Argentina, cujo governo tem produzido resultados sociais e econômicos calamitosos.
Os eixos são os velhos conhecidos da cartilha neoliberal: corte de ministérios e de gastos; desvinculação dos benefícios da Previdência Social e da Assistência Social, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), da regra de valorização do salário mínimo; e desvinculação dos gastos com saúde e educação de seus pisos constitucionais. Tudo isso acompanhado da promessa de uma economia equivalente a 2% do PIB, cuja composição, segundo a própria coordenação, só seria definida durante a transição. O programa prevê ainda a retomada do Programa Nacional de Desestatização, sem especificar quais empresas seriam vendidas; a revisão da reforma tributária em implantação; a redução de impostos já no primeiro ano; e uma “alternativa à CLT”, eufemismo para uma nova rodada de flexibilização dos direitos trabalhistas, sob o argumento de que jornada e salário poderão ser negociados diretamente entre patrão e empregado.
Três problemas saltam aos olhos. O primeiro é aritmético. Não é possível prometer, ao mesmo tempo, corte de impostos, controle da dívida e preservação dos serviços públicos sem dizer de onde virá o dinheiro. Em um orçamento no qual a maior parte da despesa primária é destinada à Previdência, à saúde, à educação e às transferências sociais, um ajuste de 2% do PIB só pode recair sobre esses itens ou sobre o investimento público, que já está deprimido.
O segundo problema é distributivo. A redução de impostos proposta tende a beneficiar empresas e pessoas de rendas mais altas, enquanto a revisão da reforma tributária ameaça justamente seus aspectos mais progressivos. Uma eventual reversão da tributação mínima sobre altas rendas, que financia a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, reabriria caminho para os privilégios fiscais do topo.
O terceiro problema diz respeito ao mercado de trabalho. Uma “alternativa à CLT” significa, na prática, ampliar o contingente de trabalhadores sem férias, 13º salário, FGTS e contribuição previdenciária. A experiência da reforma de 2017 mostrou que a flexibilização não gera empregos de qualidade, mas produz precarização e enfraquece o financiamento da seguridade social.
Há ainda a dimensão internacional. A aproximação política da família Bolsonaro com Donald Trump não se traduziu em defesa dos interesses nacionais durante o tarifaço. Pelo contrário, setores do bolsonarismo trataram as sanções comerciais como instrumento de pressão interna. Um governo automaticamente alinhado a Washington teria pouca margem para defender a indústria brasileira ou diversificar as parcerias com os países dos Brics.
O cenário provável, portanto, é o de um ajuste recessivo que transfere renda do trabalho para o capital, combinado com privatizações e desregulamentação. O mercado financeiro pode reagir bem no curto prazo, mas a história recente, do Brasil de Guedes à Argentina de Milei, mostra que o custo social desse caminho é alto e que os ganhos prometidos podem não passar de uma ilusão.
Por fim, o fato de Flávio Bolsonaro ter terminado o primeiro turno na liderança, em um momento de emprego recorde, é um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Isso mostra que os indicadores agregados não bastam quando a renda das famílias é capturada por juros, dívidas e apostas. Mostra também que, sem uma disputa política e ideológica sobre o futuro e sobre quem ocupa o lugar da “mudança”, a direita consegue apresentar o desmonte como um “choque de gestão”.
Juliane Furno é cientista social e economista, mestre e doutora em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp e ex-assessora especial da Presidência do BNDES. Atualmente, é professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

