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Dos fandoms às urnas: quem convoca agora são os fãs

Nas eleições de 2026, comunidades de fãs entraram na disputa política. Para além de uma curiosidade da reta final, elas revelam uma nova forma de organização coletiva 

A música sempre esteve presente nos momentos decisivos da política brasileira. Quando lembramos da resistência à ditadura e das Diretas Já, lembramos também das canções, dos shows e dos artistas que subiram aos palanques para convocar a população. A cultura não foi apenas a trilha sonora daquele período. Foi parte da mobilização. 

Crédito: Célio Azevedo/Agência Senado

Nas eleições de 2026, a música voltou à disputa, mas de outro jeito. Na reta final do segundo turno, comunidades de fãs, os chamados fandoms, de artistas como BTS, Lady Gaga e Taylor Swift tomaram as redes com hashtags, campanhas e publicações de apoio a candidaturas, levando ao noticiário político um universo que costuma aparecer nas editorias de cultura e entretenimento. A diferença em relação ao passado é que quem convoca agora são os fãs, não os artistas. 

Isso representa uma atualização da liderança política, que deixa de estar concentrada numa figura e passa a ser exercida por um coletivo, que se inspira na obra do artista, mas age por conta própria. No caso do BTS, isso fica ainda mais evidente: os integrantes do grupo não fazem campanha nas eleições brasileiras, e mesmo assim seus fãs se mobilizam. E isso acontece justamente quando tudo parece empurrar na direção contrária: a lógica do cada um por si e a imagem de uma juventude desinteressada da política, absorvida pela cultura individualista. 

Para quem acompanha os fandoms de perto, porém, a mobilização não é uma surpresa. Há anos, essas comunidades desenvolvem formas próprias de organização, capazes de reunir milhares de pessoas em torno de objetivos comuns. Metas de streaming, votações em premiações e mutirões para levar um assunto aos mais comentados fazem parte da rotina dessas comunidades. Quando a política entra na ordem do dia, a infraestrutura já está pronta. 

Em 2019, durante as queimadas na Amazônia, fãs brasileiros do grupo coreano BTS lançaram a hashtag #ArmyHelpThePlanet. A repercussão virou um grupo de WhatsApp, e o grupo virou o coletivo ARMY Help The Planet (AHTP), que hoje reúne 39 voluntárias de 20 a 58 anos. O coletivo arrecadou recursos durante os incêndios no Pantanal e a crise sanitária de Manaus. Desde 2021, conduz a campanha apartidária #TiraOTítuloArmy, que usa referências ao grupo para incentivar o alistamento e o voto. Neste ano, projetou no Tribunal Superior Eleitoral uma frase inspirada na música Whalien 52: “Sua voz não é solitária. SPEAK YOURSELF!”. 

Em setembro, o coletivo também se uniu ao Instituto Plena Cidadania, responsável pelo mascote Votinho, em uma campanha apartidária de incentivo à participação eleitoral. A iniciativa, chamada Comeback Nas Urnas, utilizou referências à cultura dos fãs para produzir conteúdos educativos e realizar uma ação na Avenida Paulista, em São Paulo. Ao som de músicas do BTS, foram distribuídas colinhas apartidárias para que eleitores anotassem os números de seus candidatos. 

Esse trabalho não se limita aos períodos eleitorais. A partir da #TiraOTítuloArmy, o AHTP desenvolveu a #PolitizArmy, iniciativa mais ampla de conscientização e letramento político que incentiva o acompanhamento contínuo de projetos de lei, propostas de emenda à Constituição (PECs), decretos e outras decisões do poder público. A proposta é estimular uma participação informada também entre as eleições, quando seguem em discussão medidas que afetam a vida da população.  

Todas essas experiências mostram que a participação política não começa necessariamente com a escolha de um candidato. Ela também acontece quando pessoas se organizam para defender direitos, compartilhar informações, incentivar o exercício da cidadania e participar das decisões que afetam suas vidas. O engajamento eleitoral é uma das possibilidades de atuação dos fandoms, mas não esgota sua dimensão política. 

Em 2022, campanhas que reuniram artistas brasileiros e internacionais ajudaram a levar mais de 2 milhões de jovens de 16 e 17 anos a tirar o título eleitoral, um recorde. Em 2026, segundo o TSE, são cerca de 1,6 milhão de aptos a votar nessa faixa etária. Quando a convocação nasce de uma comunidade organizada, ela continua. 

A velocidade com que essas campanhas se espalham é fruto da estrutura social que existe por trás delas. Fandoms criam redes de comunicação, coordenam voluntários, organizam campanhas e mobilizam recursos, muitas vezes sem depender de instituições. Não têm líderes formais, mantêm a coesão a partir do repertório comum de letras, símbolos, memórias e valores. É ele que permite agir em conjunto sem uma direção central. 

Não é coincidência que os ARMY sejam tão politizados. Desde a estreia, o BTS canta sobre desigualdade, saúde mental e o direito de cada pessoa encontrar a própria voz. O fã interpreta a obra e decide agir. A cultura é a porta de entrada para a participação. 

Há outra novidade aqui. Fandoms são comunidades nativas da internet e dominam a linguagem das plataformas. Entendem como funcionam os algoritmos, sabem furar as barreiras das plataformas e projetar uma mensagem como poucos atores políticos. Partidos, movimentos e organizações da sociedade civil têm muito a aprender com isso. 

Há também uma dimensão de gênero importante nessa discussão. As fãs, sobretudo mulheres jovens, são frequentemente retratadas como histéricas ou irracionais. Muitos fandoms têm maioria feminina, e o AHTP é formado por mulheres de diferentes gerações. A desqualificação das fãs mimetiza uma visão cafona sobre a participação de mulheres e jovens na política e talvez ajude a explicar por que essa forma de organização demorou tanto a ser levada a sério.  

Isso não significa que todos os fãs compartilhem as mesmas opiniões ou que a admiração por um artista produza automaticamente engajamento político. Mas ajuda a compreender como referências culturais podem estimular reflexões e ações que ultrapassam o consumo de música. A identificação com um artista pode ser o ponto de partida para o contato com causas sociais, campanhas de solidariedade e experiências de participação coletiva. 

Agir em uníssono, porém, não significa pensar igual. Esse é o erro mais comum na leitura do fenômeno: tratamos “as fãs” como um bloco, mas não existe um ARMY: existem vários. São pessoas de idades, territórios, profissões e opiniões diferentes, organizadas em coletivos e iniciativas independentes e articuladas. Uma campanha espontânea de apoio a um candidato, por exemplo, não fala por todo o fandom. 

Infelizmente, não está garantido que “as Armys vão salvar a democracia”. O que podemos afirmar é que a linguagem da organização política está se atualizando. Temos partidos, sindicatos, movimentos, coletivos e, agora, fandoms. Eles não substituem ninguém, mas nos lembram que a participação também nasce da cultura. 

O segundo turno vai terminar e as hashtags vão sair dos assuntos do momento. As comunidades que se organizaram em torno da música vão continuar, com suas redes, seus saberes e sua disposição para agir juntas. Uma mobilização que não começa nem termina nas urnas. Quem dizia que os jovens não querem saber de política talvez só não estivesse ouvindo na frequência certa. 

 

Gabi Juns é diretora executiva do Instituto Lamparina. 

Mariana Faciroli é advogada e codiretora do ARMY Help The Planet.   

 

Sobre o ARMY Help The Planet 

Criado por fãs brasileiros do grupo sul-coreano BTS, o coletivo ARMY Help The Planet articula o fandom em torno de pautas socioambientais e de direitos humanos. Desde 2019, realiza campanhas de arrecadação, mobilizações políticas e ações de impacto real, conectando cultura pop e cidadania. Saiba mais em: https://armyhelptheplanet.com/  

 

Sobre o Instituto Lamparina 

A Lamparina é uma organização da sociedade civil liderada por mulheres, que une escuta, comunicação e cultura política para fortalecer a democracia com justiça de gênero, racial e climática. Saiba mais em: lamparina.org  

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