RESENHA

A anatomia de uma queda anunciada

Resenha do livro Do transe à vertigem, de Rodrigo Nunes, relançado em agosto pela editora Ubu 

Na nova introdução a Do transe à vertigem, Rodrigo Nunes lembra que os artigos originais dessa sua coletânea começaram a ser escritos à “distância” da ebulição dos afetos tristes que eram derramados cotidianamente pelas ruas e avenidas brasileiras com a subida ao poder do bolsonarismo. Essa distância fez com que ele, ao rascunhá-los, não buscasse uma resposta imediata, reativa até, para os fenômenos que aconteciam, mas o impulsionava a enxergar o problema com uma lente mais aberta – uma característica comum à Filosofia, que se inclina aos traços gerais para entender os movimentos em sua totalidade (ou quase). 

Crédito: Divulgação

Diante desse desafio, nada estava pronto: era preciso recorrer outra vez aos mecanismos da Filosofia e conceitualizar essa nova face/fase do fascismo (que ele prefere chamar de “extrema direita”) com as ferramentas aptas a abrir esse corpo estranho que penetrou (ou eclodiu?) em nosso organismo social. 

Por isso, se na primeira versão da obra, lançada em 2022, os textos, mesmo com a ressalva apresentada, estavam mais “quentes”, pois comparativamente mais próximos dos primeiros sintomas da epidemia que nos acomete ainda hoje, agora, o livro se tornou um típico ensaio da Filosofia política. Um ensaio que renasce já clássico: trata de uma questão aflitiva no presente, mas pode servir de fonte de consulta de forma atemporal. 

Ao longo de sete capítulos, quatro interlúdios, novas e longas introdução e conclusão, Nunes faz uma espécie de do-in político, apertando os pontos nevrálgicos dessa caterva que tomou o poder político de parte relevante do mundo a partir de 2016. Fiel à sua tese de que o radicalismo à direita ressurgiu da falta de respostas da esquerda diante da crise econômica do neoliberalismo em 2008, que culminou nos movimentos das praças no início da década seguinte – Junho de 2013 no Brasil incluído aí –, o filósofo elabora a cada seção personagens conceituais que podem, em separado e num efeito metonímico, explicar mais sobre o conturbado momento atual que a soma de suas partes. 

Assim, entre outros temas, ele explica os diferentes mecanismos dos negacionismos que nos aflige a todos, de uma forma à direita e outra à esquerda, o efeito do empreendedorismo nessa faixa do pensamento político, com seu efeito pirâmide generalizado, o poder dos trolls sobre um dos ativos mais escassos no cotidiano, a atenção, e mostra como a questão da masculinidade tem impactos diretos na forma como se constitui o modus operandi desses personagens autoritários.  

Mencionar todos os pontos pressionados por Nunes poderia ser um exercício muito extenso: sua capacidade de conectar diversas e relevantes fontes e produzir ainda assim um texto coerente e de razoável facilidade de leitura é assombrosa. O problema às vezes é exatamente alcançar todas as muitas referências operadas pelo autor. O leitor, vez por outra, se sente dentro de uma onda sendo arrastado pela narração da história, esperando um momento para respirar. 

Se vale, contudo, citar ainda mais um tema, talvez caiba destacar como ele reforça na Conclusão a falta de pudores com que a extrema direita opera a pilhagem do mundo atual. Como não há nem mesmo uma tentativa de disfarçar que estamos chegando à beira do precipício e que eles querem mais que no fim desta festa vigore a lei do cada um por si e eles contra todos – desde que, evidentemente, as suas próprias benesses se mantenham por mais algum tempo. Para que esse biscoito duro seja mordido por uma grande parte da população, eles apostam numa extrema dessensibilização e prometem uma compensação ligeiramente maior a quem for pioneiro nessa exploração. Promessas difíceis de escutar, mas piores de combater já que nem isso a esquerda consegue propor. 

A obra se insere ainda no planisfério global das discussões sobre o atual momento com a enorme vantagem de se posicionar a partir do Brasil. Por alguns motivos (como já experimentar há tempos uma gritante desigualdade social ou ter um longo histórico de governos autoritários), o país se tornou um lugar privilegiado para destrinchar como funcionam os recentes movimentos das placas tectônicas mundiais. Nunes assume esse, digamos, lugar de fala para trazer um colorido mais tropical, indispensável às discussões sobre extrema direita que se infiltraram nos centros de poder globais. É uma contribuição que já é valorizada no mercado mundial das ideias, o que pode ser demonstrado pela carreira internacional já consolidada do autor. 

Seu esforço em Do transe à vertigem parece querer responder a uma questão que certamente perpassa os corações e as mentes de quem se espanta, continua se espantando, com os rumos que a política, tanto a institucionalizada como a comezinha, tem tomado há já mais de década: “O que explica o apelo da extrema direita?” Se ele não faz conclusões definitivas, porque não é possível ter uma vacina “de prata” contra essa contaminação, apresenta inúmeros e excelentes instrumentos para conseguirmos começar a desmontar essa ameaça que nos tem acompanhado, infelizmente, faz anos. 

 

Ronaldo Pelli é escritor, professor, mestre e doutor em Filosofia e jornalista. 

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