ELEIÇÕES 2026

Um povo conservador?

Entre as interpretações mais comuns que frequentam a conjuntura eleitoral, encontra-se a ideia de que o povo brasileiro seria fundamentalmente conservador. Essa indisfarçada essencialização não se sustenta, contudo, diante de breve sobrevoo sobre a história eleitoral do país 

Acompanhar as eleições brasileiras hoje é lidar com uma enorme quantidade de dados, coletados das mais variadas maneiras. Nas últimas semanas, o debate público tem sido inundado por pesquisas de opinião, resultados de grupos focais e análises de redes sociais, entre outras formas de tentar melhor compreender as diversas facetas da disputa eleitoral. Em meio aos dados, e frequentemente sem o mesmo alarde, circulam também as interpretações, que costumam se apoiar em pressupostos mais amplos sobre a sociedade e o país. Nesse esforço, não raro levado adiante sob o calor dos acontecimentos, corre-se o risco de tomar a competição eleitoral como índice de verdades subjacentes que emanariam das profundezas do tecido social brasileiro – e assim, no ritmo imediatista da vida digital contemporânea, a dinâmica eleitoral, com suas diferentes e contraditórias relações de causa e efeito, termina reduzida a uma expressão unidimensional da essência ou do caráter nacional dos brasileiros. Se eleições via de regra põem em movimento partes antagônicas da sociedade, um erro corriqueiro consiste em tomar uma parte pelo todo e generalizar seus atributos. Outro equívoco comum, por vezes sobreposto àquele, reside em reduzir as múltiplas dimensões do conflito político por meio de uma relativa diluição socioeconômica, em que o antagonismo passa a ser entendido como mera expressão linear de velhos (ou novos) interesses econômicos. 

Ato em apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República reune multidão na Esplanada dos Ministérios em Brasília
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Entre as interpretações mais comuns que frequentam a conjuntura eleitoral, encontra-se a ideia de que o povo brasileiro seria fundamentalmente conservador. Trata-se de um pressuposto que circula pelas pesquisas acadêmicas, de vários matizes, e pela imprensa, construindo um senso comum. Boa parte das interpretações sobre os resultados do primeiro turno das eleições de 2026 (replicando tendência bastante difundida em 2018) apontou, por exemplo, para certa feição conservadora do “brasileiro”, em formulação geral que serve para sublinhar os supostos erros da esquerda, dos excessos de “identitarismo” (um novo fantasma de contornos imprecisos) a uma política econômica distante dos anseios majoritários da população. Nessa narrativa, costuma-se atribuir uma eventual derrota do campo da esquerda a seus ditos excessos esquerdistas (quando não a sua mera existência enquanto esquerda), compreendidos como incompatíveis com um povo conservador. Essa indisfarçada essencialização não se sustenta, contudo, diante de breve sobrevoo sobre a história eleitoral do país.    

Sabemos que a história de eleições democráticas e competitivas no Brasil é curta. Votou-se diretamente para presidente por quatro vezes na República de 1946. E agora estamos no meio da décima eleição da República de 1988. É digno de nota que a candidatura competitiva situada ideologicamente mais à esquerda tenha sido vitoriosa na maior parte dos pleitos. E, no que concerne ao século XXI, vale lembrar que o Partido dos Trabalhadores venceu cinco das últimas seis eleições, em rara sequência no contexto de democracias de massas com a dimensão do Brasil. Um povo conservador que prefere eleger presidentes de esquerda? Parte das análises fundamenta a suposta essência conservadora do povo brasileiro em interpretações importadas do cenário europeu, onde a decadência política da esquerda pode ser aferida em bases muito diversas. Mas, para além desse essencialismo fora de lugar, há versões sociologicamente mais sofisticadas que buscam nas classes sociais e em suas novas configurações a explicação para o aparente desencontro entre a esquerda e os trabalhadores. 

Uma variante da ideia de um povo intrinsecamente conservador pode ser apreendida na leitura de que, pelas recentes mudanças no mundo do trabalho, haveria um aprofundamento da distância entre o discurso da esquerda e as aspirações populares. Depois de anos de afinidade, o campo progressista não encontraria mais apoio nas massas à medida que se desconectaria dos interesses de uma nova classe trabalhadora. A nosso ver, parece fora de dúvida que um grande número de trabalhadores brasileiros se identifica subjetivamente mais como empresários do que como trabalhadores, o que impacta seu olhar sobre o papel do Estado e as propostas tradicionais da esquerda. Sabe-se ainda que o papel das redes sociais é decisivo nesse processo complexo de autoidentificação. Importantes trabalhos apontam nessa direção, como os da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, cujo texto foi recentemente publicado na Folha, ou o mais recente livro de André Singer, Impasse. Mas, se um novo cenário social sugere plausivelmente a necessidade de uma renovação dos repertórios da esquerda, convém olhar com prudência analítica para o vínculo entre as mudanças nas configurações das identidades de classe e os resultados eleitorais.  

Os caminhos entre as experiências sociais, o “horizonte do desejo” (como dizia Wanderley Guilherme dos Santos), e o voto são mais tortuosos do que algumas interpretações sugerem. Não há evidência suficiente que corrobore, por exemplo, a ideia de que a preferência massiva por candidaturas da extrema direita decorra de um comportamento típico da assim chamada classe C. E isso não apenas pelo simples motivo de que o voto da classe C se divide, ao menos no pleito presidencial, entre esquerda e extrema direita – mas também pelo fato de que essa identidade de classe é determinada por várias outras condicionantes decisivas (religiosas, regionais, étnico-raciais, de gênero etc.). A sociologia do voto deve manter-se multidimensional, e assim evitar o afã dos reducionismos economicistas, a fim de contribuir para a compreensão da realidade brasileira em toda a sua complexidade. Nesse sentido, parece um truísmo, mas não custa reiterar que o comportamento eleitoral de um universo de mais de 150 milhões de pessoas espalhadas pelo vasto território nacional dificilmente se deixaria reduzir a apenas uma clivagem socioeconômica. A propalada polarização política é constituída por vários feixes de divisões – como o “país dividido” do cientista político Jairo Nicolau deixa entrever. E há tanto continuidades como rupturas concorrendo para a emergência desse novo cenário ideológico no país. 

Um movimento como o bolsonarismo decorre de diversas causas e exige uma articulação política intricada. Tanto o apoio eleitoral ao candidato de ultradireita quanto a rejeição cada vez mais acerba a Lula remetem a uma heterogênea cadeia de fenômenos, que vão além das mudanças no cenário econômico (ainda que estejam também determinados por elas). Há, para começar, um esgarçamento prévio da legitimidade da ordem de 1988, que passa pela dificuldade de cumprir promessas e oferecer futuros próximos melhores, mas também se alimenta de um forte discurso de crise e decadência, formulado tanto por novas lideranças da extrema direita quanto por atores da política tradicional. Por isso, o conceito de corrupção é central por ser capaz de articular de modo imediato a prática de crimes na gestão do dinheiro público, o sucesso econômico injusto de alguns e a decadência moral.   

Por outro lado, ganham força linguagens políticas antes relegadas às margens da esfera pública, tornando-se centrais para a emergência de novos protagonistas. O papel das redes sociais é incontornável, permitindo a esses protagonistas uma ascensão extremamente rápida. Se o empresário é um dos perfis mais comuns nas redes, é possível indicar uma heterogeneidade ainda maior de personagens, que vão desde os “coachs”, como bem descritos pelo já mencionado trabalho de Pinheiro-Machado, a missionários de discursos religiosos e defensores do uso da violência contra os criminosos e inimigos da nação. A linguagem do ultraliberalismo convive, ali, com formulações reacionárias ou até mesmo fascistas, muitas vezes sobrepostas e conjugadas num todo cuja incoerência, longe de prejudicá-lo, antes catalisa sua eficácia. Esse movimento multilinear não retira a centralidade do mundo do trabalho, mas o insere em uma totalidade atravessada por disputas de outra monta. Nesse sentido, ainda que uma parte da dificuldade da esquerda passe pela persistência de repertórios tradicionais mais ou menos defasados com relação à realidade das novas classes trabalhadoras, há outros imaginários que mal tangenciam o “chão da fábrica” e desempenham um papel central.  

As razões para o voto em Flávio Bolsonaro são diversas. Há uma aposta nos repertórios de ultradireita acima listados, mas também uma rejeição aberta ao PT, que passa por sua tradicional identidade de partido de esquerda e, ao mesmo tempo, pela vinculação paulatina desse partido com a sorte da própria República de 1988. A frustração em relação às promessas não cumpridas da ordem democrática de 1988 recai, assim, sobre os ombros do partido. E sem menosprezo dos notáveis avanços sociais e conquistas civilizatórias da Nova República, boa parte dos quais capitaneados pelo PT, o Brasil permanece uma sociedade profundamente desigual, onde as condições de trabalho continuam duríssimas para a grande maioria da população, a implementação das políticas sociais segue incompleta e persistem questões trágicas, como a escalada da violência urbana e da destruição do meio ambiente. Em meio a essa barafunda, em que se cruzam uma longeva ideologia anti-esquerda, um genuíno mal-estar com a crise do neoliberalismo, uma série de privações assaz concretas e a emergência de linguagens políticas de ultradireita catalisadas pelos algoritmos das redes sociais – tudo isso com um eleitorado praticamente dividido ao meio no pleito presidencial –, como identificar uma e apenas uma variável explicativa para o comportamento eleitoral? Em que medida a aposta no filho de Bolsonaro passa pela adesão a um projeto de futuro bem articulado por sua chapa, pela manifestação de um sentimento antipetista visceral, pela simples vontade de destruição da atual República ou por um desejo de indefinida mudança, que encontra como sucedâneo do velho PSDB apenas uma versão de outra qualidade, abertamente autoritária? A variedade de discursos da coalizão política do bolsonarismo sugere uma resposta positiva a todas essas alternativas.  

Quando olhamos para as disputas políticas pregressas, notamos que mesmo no auge da popularidade do lulismo, às vésperas da eleição de 2010, sempre houve amplos setores da população que rejeitaram abertamente o candidato e seu campo político. Há, portanto, uma linha de continuidade, evidenciada ademais nos mapas eleitorais, entre as eleições presidenciais dos últimos vinte anos no Brasil. Desconfiemos, pois, das análises demasiado hiperbólicas: as eleições de 2026 não representam uma revolução da extrema direita no país. O eleitorado segue dividido. Atestar isso não nos impede, porém, de reconhecer que, sob a relativa permanência de um padrão quantitativo de comportamento eleitoral, pode haver mudanças qualitativas de grande relevância. Mesmo sem uma revolução em curso, é possível (talvez seja mesmo provável) que a República de 1988 venha a sucumbir com a eventual chegada ao poder, novamente, de seus mais ferrenhos inimigos. É lícito pensar, portanto, que os novos futuros, sem dúvida encontradiços no mundo das redes e do empreendedorismo, convivem intimamente com futuros passados, que perduram, nem tão escondidos assim, em meio aos discursos e promessas de mudanças e de rupturas. 

 

Jorge Chaloub e Pedro Lima são professores de Ciência Política da UFRJ. 

Leia mais sobre o tema: