Ameaça antiambiental de Bolsonaro volta a pairar sobre Brasil com Flávio
Lula assumiu o Brasil após quatro anos de uma política antiambiental deliberada, com a maior alta no desmatamento em um mandato presidencial desde o início da série histórica e devolveu a devastação ao menor patamar que se tem registro. O que esperar do governo que será eleito no dia 25? Confira em artigo de Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, para o especial Lula × Bolsonaro 2026
Em poucos dias, o Brasil fará uma escolha que trará consequências profundas para a manutenção dos direitos humanos, a proteção ambiental e a continuidade do enfrentamento da crise climática. As direções são opostas: de um lado, um candidato que representa a ruptura democrática e coloca em risco a Amazônia e os demais biomas e o bem-estar dos brasileiros; de outro, um líder que, embora desgastado, traz na bagagem conquistas históricas na agenda de clima e meio ambiente no país.
Lula assumiu o Brasil após quatro anos de uma política antiambiental deliberada, com a maior alta no desmatamento em um mandato presidencial desde o início da série histórica – 60% de aumento, em relação ao período anterior – e devolveu a devastação ao menor patamar que se tem registro em quase quatro décadas. Em 2026, a Amazônia registrou 3.335 km² de desmatamento, o menor número desde que as medições por satélite tiveram início, em 1988, e 71,2% menor que os quatro anos da gestão anterior. No Cerrado, bioma mais rapidamente devastado no Brasil, a área desmatada também foi a menor da história: 5.516 km², queda de 48,4% nos últimos quatro anos.
Os números são fruto de uma determinação clara e sustentada de proteção ambiental colocada em prática pelo governo, que envolveu um conjunto de políticas públicas de combate aos crimes ambientais, incluindo embargos coletivos de áreas desmatadas e remotos por satélite, implementados pelo Ibama, e ampliação expressiva dos recursos e contratações do Fundo Clima e do Fundo Amazônia.
Os resultados no controle do desmatamento impactaram diretamente a trajetória nacional de emissões de gases de efeito estufa. Após três anos de quedas consecutivas, em 2025 as emissões no país atingiram seu menor valor bruto desde 2018, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima.
Ao contrário do que pregam os inimigos da proteção ambiental, os esforços também foram generosos com o próprio agronegócio, que tem o PIB para 2026 estimado em R$ 3,13 trilhões, segundo cálculos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Esalq/USP) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A cifra representa uma alta de 17,67% em relação a 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, é discípulo da cartilha ecocida de seu pai, que nos legou o maior conjunto de retrocessos socioambientais e humanitários da história. Além da explosão do desmatamento, Jair entregou o país com a maior alta nas emissões de gases de efeito estufa em dezenove anos – que incluiu até mesmo o período da pandemia, no qual as emissões globais caíram cerca de 7%, mas, por aqui, aumentaram 9,5% –, recorde em invasões de terras indígenas, perseguição a povos e comunidades tradicionais, congelamento de mecanismos de financiamento e boicote à ação climática brasileira.
Bolsonaro, o filho, também não fica atrás nas maldades contra o meio ambiente. Como senador, votou a favor da flexibilização do licenciamento ambiental, foi contra os direitos indígenas ao se posicionar pela instituição do marco temporal, tentou emplacar um projeto de lei que acabava com a reserva legal no país e outro para privatizar as praias. Foi o único dos 81 senadores a votar contra a lei de adaptação climática em 2024, mesmo depois da tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul.
O plano de Flávio Bolsonaro sequer reconhece a existência de uma crise do clima, o que reflete seu recorrente posicionamento negacionista. Contra tudo o que a ciência comprova, em 2019, afirmou que o planeta está passando, na verdade, por um “resfriamento global”. Em maio de 2024, Flávio disse ser uma “armadilha” atribuir as graves enchentes no estado do Rio Grande do Sul às mudanças climáticas. No fim de agosto passado, durante sabatina no Jornal Nacional, o candidato declarou que a melhor forma de combater a crise do clima é com saneamento básico.
Além de todas as suspeitas e investigações de corrupção e lavagem de dinheiro que recaem sobre ele, é difícil imaginar alguém pior para conduzir o Brasil nos próximos anos, em que o mundo vai ultrapassar 1,5ºC de aquecimento e eventos climáticos extremos infelizmente tendem a virar lugar comum.
O Brasil percorreu um longo caminho até a consolidação de um conjunto de instituições e políticas públicas que guardam um patrimônio natural único, base sobre a qual se assenta não apenas a qualidade de vida, mas o próprio desenvolvimento econômico do país. Há muita coisa em risco nessas eleições, a escolha é entre termos possibilidade de futuro ou optarmos pelo caos. Não será tão difícil decidir.
Suely Araújo é coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima

