ELEIÇÕES 2026

A besta e o capitão

Show do Iron Maiden em São Paulo no dia do segundo turno expõe a aproximação entre parte do público de heavy metal e a extrema direita, num gênero que nasceu provocando o conservadorismo

Em 15 de janeiro de 1985, enquanto o Colégio Eleitoral escolhia Tancredo Neves e encerrava 21 anos de ditadura militar, dezenas de milhares de jovens se espremiam na zona oeste do Rio de Janeiro para o primeiro Rock in Rio. O festival virou trilha sonora da redemocratização, e o Iron Maiden estava no cartaz, apresentando ao público brasileiro um heavy metal que, nos Estados Unidos, vinha sendo tratado pela direita religiosa como ameaça moral. Quarenta e um anos depois, a banda inglesa volta a cruzar o caminho de uma eleição decisiva no país. O primeiro dos dois shows da turnê Run For Your Lives, que celebra cinco décadas de carreira, acontece no Allianz Parque, em São Paulo, no domingo, 25 de outubro, mesmo dia em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno da eleição presidencial. Os ingressos esgotaram em poucas horas.

A coincidência de datas não seria mais que curiosidade de calendário se não tocasse numa ferida que a própria cena discute há pelo menos uma década: a adesão de uma parcela visível do público de metal ao bolsonarismo. Não existe pesquisa de opinião que meça o voto de quem frequenta shows de heavy metal no Brasil, e qualquer afirmação sobre “a maioria” esbarra nessa lacuna. Mas sobram sinais, registrados por músicos, jornalistas especializados e, mais recentemente, pela academia.

A besta na fogueira

Em 1982, o álbum The Number of the Beast levou o Iron Maiden ao topo das paradas britânicas e ao centro de uma cruzada moral nos Estados Unidos. Grupos religiosos organizaram passeatas, protestaram na porta dos shows e queimaram discos da banda em praça pública, acusando-a de satanismo. A capa, em que o mascote Eddie manipula o Diabo como uma marionete, e as supostas mensagens ocultas tocadas ao contrário alimentaram a campanha. A banda respondeu com deboche e, anos depois, admitiu que o boicote só aumentou o interesse dos jovens pelos discos.

O episódio ajuda a entender o lugar que o heavy metal ocupou na cultura dos anos 1980: o de uma música que irritava pastores, políticos e pais, e que fazia disso parte da graça. A obra do Maiden, porém, sempre foi menos sobre o Diabo do que sobre história, literatura e guerra. Run to the Hills narra o massacre dos povos indígenas na colonização da América do Norte. 2 Minutes to Midnight ataca a indústria que lucra com a corrida armamentista. Afraid to Shoot Strangers acompanha um soldado que não quer matar. Powerslave conta a agonia de um faraó adorado como deus que descobre, diante da morte, ser apenas um homem. Em 2000, Brave New World tomou emprestado o título da distopia de Aldous Huxley sobre uma sociedade pacificada pelo controle.

Seria desonesto transformar o Iron Maiden em banda militante. Seus integrantes raramente falam de política, e Bruce Dickinson, vocalista, declarou voto a favor do Brexit, em 2016, e já disse que sociedades saudáveis ficam no centro. A contradição que interessa aqui não é entre o fã e o partido do artista, mas entre o que as músicas dizem e o projeto político que parte de quem as canta escolhe nas urnas.

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O metal de farda

No Brasil, os sinais dessa contradição se acumulam. Em 2020, depois que a banda Nervosa perdeu duas integrantes e virou alvo de uma enxurrada de comentários misóginos, um texto publicado no Whiplash, um dos sites mais lidos da cena, afirmou que uma parcela significativa dos headbangers havia se alinhado a uma agenda de extrema direita. O autor, Evilásio Júnior, lembrou que o metal brasileiro é majoritariamente branco, masculino e heterossexual, e que quase não há bandas formadas por negros, indígenas ou mulheres.

A pesquisa acadêmica começou a olhar para o fenômeno. Em tese de doutorado defendida em 2025, na Escola de Música da UFMG, Flávio Garcia da Silva investigou o NSBM, o chamado black metal nacional-socialista, e encontrou uma série de bandas brasileiras atuando de forma semiclandestina, com a conivência da própria cena. Um trabalho de conclusão de curso na Universidade Federal da Fronteira Sul, em Chapecó, examinou o crescimento do discurso de extrema direita no black metal catarinense. São recortes extremos, que não representam o público médio de um show do Iron Maiden, mas mostram que o subterrâneo do gênero não ficou imune à onda que atravessou o país.

A literatura sobre o bolsonarismo oferece pistas para entender o encontro. Estudos publicados em periódicos como Estudos Avançados apontam o caráter fortemente masculino do movimento e sua cultura de virilidade, enquanto outros o descrevem como uma coalizão entre neofascismo, ultraliberalismo, conservadorismo cristão e autoritarismo militar. O culto à força, a estética militar e a fantasia do homem que enfrenta sozinho um mundo hostil são velhos conhecidos do heavy metal. A diferença é que, nas letras, eles costumam vir carregados de ironia, tragédia ou denúncia. Na política, chegam como programa.

Quem canta contra

Nem toda a cena embarcou. Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, maior nome do metal brasileiro, disse em 2021, que Jair Bolsonaro era o pior que poderia acontecer a qualquer país, mesmo afirmando detestar os rótulos de esquerda e direita. O Ratos de Porão, que atravessou a ditadura militar e ajudou a fundar o punk e o crossover no país, lançou em 2022, Necropolítica, disco conceitual sobre o governo Bolsonaro e a pandemia, cujo título vem do filósofo camaronês Achille Mbembe. Em entrevista recente, João Gordo atribuiu o rock de direita a bandas que simplesmente pararam no tempo, pensando igual a 1982, quando, segundo ele, a falta de informação fazia de quase todos reacionários, inclusive entre os punks.

O mito e o faraó

O contexto de 2026, torna a contradição ainda mais nítida. O “mito” que o bolsonarismo construiu acima de provas e críticas foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em 2025, por tentativa de golpe de Estado, e quem herdou a candidatura foi o filho. Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno com um passado que a campanha tenta administrar. Como deputado estadual no Rio, condecorou com a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa, o ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, milícia de assassinos de aluguel. Empregou no gabinete a mãe e a ex-mulher do miliciano e foi investigado por um esquema de rachadinha operado pelo ex-assessor Fabrício Queiroz. Nunca foi condenado no caso e nega irregularidades.

A desastrosa trajetória do pai também ajuda a medir o que está em jogo. Jair Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Sob sua gestão, o número de pessoas registradas como caçadores, atiradores e colecionadores saltou de cerca de 117 mil, em 2018, para mais de 670 mil em meados de 2022, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. E foi ao fim de seu mandato que a crise humanitária no território Yanomami levou o Ministério da Saúde a decretar emergência sanitária, em janeiro de 2023.

 

Erick Tedesco é jornalista e historiador.

Leia mais sobre o tema: