A escolha não é difícil
Entre a pressão da diplomacia de Washington e a ingerência algorítmica das big techs, a eleição brasileira se converteu em um debate sobre soberania nacional. Ante um projeto de alinhamento automático e acrítico, a luta pela manutenção da democracia expõe e reafirma o relevante papel do país na ordem internacional. Veja no 22º e último artigo do especial Lula × Bolsonaro 2026, escrito por Tatiana Teixeira, editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU)
Este é um daqueles momentos privilegiados, em que escrevemos e vivenciamos a história, justo no transcorrer dos acontecimentos.
Em tais circunstâncias, pesquisas de opinião podem oferecer um bom retrato da conjuntura em evolução, mas não devem ser o único instrumento para se observar a realidade e o desempenho de um governo. Na reta final da campanha eleitoral brasileira, as sondagens mais recentes mostram um empate técnico das avaliações positivas e negativas da gestão Lula, ou seja, o presidente se mantém em patamares estáveis de polarização. Ao mesmo tempo, em termos de intenção de voto para o segundo turno, o petista registra um índice de rejeição menor do que de seu oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Essa última métrica merece atenção e parece ser mais útil agora, pois explica e conversa diretamente com a gigantesca mobilização que vemos no campo progressista.
Após a derrota de Lula no primeiro turno, a mobilização nas ruas e nas redes sociais se tornou um indicador mais fidedigno do engajamento do eleitor, porque diz respeito tanto àquilo que ele aprova, quanto ao que rejeita. E é proporcional aos desafios impostos à campanha de Lula, que enfrenta a intromissão do governo de Donald Trump no processo eleitoral brasileiro, com pressão política e recursos financeiros diretos e indiretos, assim como a censura e a manipulação algorítmica por parte das big techs, especialmente da Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp). O interesse desses atores estrangeiros e as inéditas penetração e intensidade de sua intervenção na soberania nacional nos dizem muito sobre o importante papel do Brasil, hoje, no plano internacional.
As multitudinárias manifestações nas principais capitais brasileiras uniram esquerda, direita e isentões a favor da democracia e contra o bolsonarismo e a ingerência externa. Nesse contexto, o segundo turno deixou de ser exclusivamente sobre a reeleição de Lula, catapultando uma agenda de defesa da soberania nacional, da Constituição, da garantia de alternância de poder e das consolidadas regras do jogo democrático. No lado adversário, que passou a ser visto como uma ameaça ao Estado de direito, não há registro de mobilização igual em volume, capilaridade territorial, diversidade da composição social e recorrência.

Legado de Jair
Considerando-se o mesmo recorte temporal para os dois governos, Lula e Jair Bolsonaro (2019-2023) recebem a mesma avaliação de “ruim ou péssimo”. Em uma pesquisa do Datafolha de outubro de 2022, Jair registra 39% nessa categoria, percentual idêntico ao de Lula na enquete do mesmo instituto, realizada em outubro de 2026. O contexto é bem diferente, porém. Um indício nesse sentido foi a divulgação neste mês do relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), informando que o Brasil deve voltar a ser a oitava economia do mundo em 2027. Na comparação de indicadores socioeconômicos, embora o governo Lula apresente melhor desempenho em geral, a percepção do eleitor não reflete, necessariamente, a situação do país, em meio à persistente polarização político-ideológica. Os demais artigos deste dossiê especial tratam desses números em detalhe e recomendo a leitura.
Há, também, pelo menos dois acontecimentos dramáticos ainda frescos na memória do brasileiro e que pesam contra o ex-presidente Jair: sua gestão da pandemia de Covid-19, com o triste balanço de cerca de 700 mil mortos, e o planejamento de um golpe de Estado, cuja tentativa frustrada se materializou no nefasto 8 de Janeiro. Somado a esse legado perturbador, o filho e herdeiro político de Jair acumula escândalos e investigações e tem uma controversa e pouco produtiva trajetória parlamentar, bem como uma obscura rede de relações que mistura o público e o privado de forma nada republicana.
De acordo com levantamento feito pela Agência Lupa, no Senado, onde registra baixa produção legislativa direta, Flávio atuou para enfraquecer regras ambientais, ampliar o acesso às armas e aprovar uma pauta de endurecimento penal. Como deputado estadual (RJ-PSL), foi o único a votar contra propostas relacionadas com os direitos femininos, o combate ao turismo sexual e a contenção da violência doméstica, conforme levantamento feito pelas jornalistas Marina Dias e Carol Pires e divulgado no podcast “Duas e Tanto”. Ao mesmo tempo, homenageou policiais já identificados como integrantes de milícias no estado do Rio de Janeiro. Quem é fluminense e, sobretudo, carioca sabe do que as milícias são capazes.
O que esperar, então, de um governo Flávio?
Na economia, entre outros pontos, seu plano prevê corte de pelo menos dez ministérios, “tesouraço” nos gastos em saúde e educação, redução de impostos, privatizações, revisão da reforma tributária e flexibilização das relações de trabalho. A área de segurança recebe especial atenção, com pautas como a redução da maioridade penal, a expansão do sistema prisional e o tratamento de facções criminosas como organizações narcoterroristas. Este último tópico se conecta diretamente com medida anunciada este ano pelos Estados Unidos e que classificou o PCC e o CV como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT) e Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), a despeito da rejeição do governo brasileiro.
Em 2025, Flávio chegou a defender a anistia dos condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro como “condição número um” para Trump retirar as tarifas impostas ao Brasil – tarifas essas incansavelmente buscadas pelo lobby de outro Bolsonaro, o Eduardo. A promessa de anistia segue sobre a mesa, e as tarifas, também.
O Brasil não é quintal de ninguém
Para sua política externa, com forte componente ideológico conservador, Flávio defende a aproximação estratégica com pautas da extrema direita internacional, a revisão de iniciativas Sul-Sul e uma conexão mais estreita com Estados Unidos, Argentina e Israel. Caso siga os passos do pai, veremos um alinhamento político-ideológico automático e acrítico com Washington, balizado por devoção e deslumbramento pelos Estados Unidos de Trump. Historicamente, esse tipo de relação diminuiu a margem de manobra do Brasil e colocou o interesse nacional em segundo plano. Traz, portanto, poucos ou nenhum ganho concreto e significativo e será alvo de preocupação, se Flávio for eleito.
E por que pode ser preocupante? Porque em um sistema internacional profundamente assimétrico, economias intermediárias, como o Brasil, têm um repertório muito mais limitado de instrumentos e recursos para protegerem seus interesses econômicos e estratégicos do que as grandes potências. Ignorar isso é praticar patriotismo reverso e ser fogo amigo do próprio país. Além disso, o diálogo para buscar um consenso mínimo, multipartidário e multissetorial sobre os interesses nacionais brasileiros também se anuncia mais complexo do que o habitual, devido à composição da nova legislatura.
Uma das polêmicas promessas de Flávio é a adesão do Brasil ao “Escudo das Américas”, uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos, cujo objetivo é usar a segurança e a cooperação militar para exercer o controle econômico no “Hemisfério Ocidental”. São interesses dos Estados Unidos, não exatamente do Brasil.
A agenda do candidato do PL para “reativar” as relações bilaterais considera adotar parte das condições impostas por Trump, em outubro de 2025, por ocasião das negociações sobre as tarifas. Na lista, estão incluídas condições (desfavoráveis ao Brasil) sobre Pix, abertura comercial, minerais críticos, regras de atuação das big techs, sanções financeiras e relações com a China. O governo Lula rejeitou os termos de negociação, mas Flávio parece achar que são uma boa ideia.
A esse modelo, contrapõe-se o projeto de Luiz Inácio Lula da Silva, que advoga um maior protagonismo internacional do país. Ancora-se na bem-sucedida tradição autonomista, de diversificação de parcerias internacionais, não ingerência, resolução pacífica de conflitos, defesa do multilateralismo e prioridade à integração do Sul Global e do Brics.
Democracia ou barbárie?
Em 30 de outubro de 2022, no histórico discurso após sua vitória, Lula afirmou que o povo brasileiro deseja “mais, e não menos democracia”. É disso que se trata esta eleição, tanto no plano doméstico quanto nas nossas relações exteriores. De um lado, temos um projeto que defende democracia, soberania, políticas públicas redistributivas, combate à fome e regulação democrática das redes. Do outro, autoritarismo, subordinação à potência estadunidense, Estado mínimo para os trabalhadores e uma terra sem lei nas redes.
Reeleito, Lula terá menor margem de manobra com o Congresso mais à direita que saiu das urnas em outubro, com o PL na maior bancada, e o Centrão, decisivo. Dependerá, talvez, da execução orçamentária via decretos e portarias para preservar programas de proteção social. Novas pautas, agendas e programas podem ser difíceis de aprovar, e não é certo que conquistas e direitos adquiridos estarão a salvo da sanha destruidora do bolsonarismo. Nesse quadro adverso, com um horizonte do possível mais estreito, a defesa da democracia contra a desinformação das plataformas digitais e a responsabilização da família Bolsonaro devem permanecer no centro da disputa.
Ante tais limitações, é esperado que o próximo governo acrescente menos elementos inovadores ao legado do petista, em comparação com os três mandatos anteriores. Ainda assim, sua vitória poderá servir de modelo e inspiração para outros países sob o jugo da extrema direita e da dominação tecnopolítica das big techs, consolidando seu lugar singular na história política brasileira.
Tatiana Teixeira é editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) e pesquisadora de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025).

