‘O tenebroso brilho do sol’ de Ana Paula Maia
A autora se apropria da estética folk horror para contar sua história, mas inova ao não mostrar aquela comunidade com os olhos do forasteiro preconceituoso que se acha superior aos “nativos”
Após uma barragem se romper e destruir uma comunidade inteira, Eliote, o único sobrevivente, passa seus dias à deriva, sofrendo com estresse pós-traumático, ouvindo vozes e cavando na lama na esperança de encontrar o corpo dos filhos. Essa é a base do novo romance da premiada Ana Paula Maia: O tenebroso brilho do sol (Cia. Das Letras, 2026).

Um soco no estômago em termos de literatura. História compacta em poucas páginas, mas de ampla carga dramática, onde o fantástico surge de forma sutil, aqui e ali, por entre brumas da floresta, águas negras da barragem e sombras do cânion. Maia se apropria da estética folk horror para contar sua história, mas inova ao não mostrar aquela comunidade com os olhos do forasteiro preconceituoso que se acha superior aos “nativos”.
É um romance de trauma e solidão. Somos levados pela mão da narradora para junto do personagem principal e de sua rotina, que se resume a vigiar a comunidade por câmeras, cavar a terra em busca de corpos, andar pela floresta e inspecionar a estrutura da barragem. Entramos nas suas lembranças e rememoramos com ele a vida com os filhos, o irmão falecido anos antes, o relacionamento difícil com a esposa e o ritual de relembrar os mortos, herdado dos indígenas.
O estilo da prosa de Maia é direto e seguro. Brutal em vários momentos. Descreve uma cena de morte e suspense como se fosse uma simples cena de café da manhã. Algo que produz forte efeito dramático. Descrições do vale destruído, da floresta noturna e das águas que trazem emanações do desconhecido e da morte, representam o ponto alto de uma autora premiada que, com sua escrita, quebra o preconceito contra a literatura de horror ao mostrar que é possível e esperado escrever histórias profundas e complexas dentro do gênero. Aliás, nosso príncipe dos prosadores, Coelho Neto (1864 -1934), é prova disso.
Além do trauma e da solidão, há outros temas que ressurgem em O tenebroso brilho do sol. A dificuldade de viver com pessoas que padecem de patologias mentais; a insegurança de cidades que vivem perto de barragens, lembremos dos casos de Brumadinho (2019) e Mariana (2015); o quanto pequenas comunidades são as mais atingidas por processos ligados às mudanças climáticas e ao trabalho de muitos veículos de mídia, que se aproveitam dos desastres para gerar cliques e somem sem se preocupar com os que ficam.
Na obra, a melancolia está presente por toda a história e o brilho do sol, longe de trazer esperança, é um lembrete de que a vida é cheia de sofrimento, e as consequências de nossas escolhas sempre nos encontrarão, para o bem e para o mal.
Ricardo Kaate Lima é manauara, doutor em ciências sociais pela UNESP, vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus (2022) e autor de O Fim de Todas as Coisas (Porto de Lenha, 2021) e A Lança de Anhangá (Cachalote, 2024).

