ELEIÇÕES 2026

Pessoal, urgente: dá para replicar o Exército do Lula em outros países?

Mais de 10 milhões de pessoas cumpriram missões num canal de WhatsApp no segundo turno de 2026. Dá para copiar o formato em outros países, mas o sucesso veio de uma combinação difícil de repetir e de uma mobilização que foi muito além de um único canal 

Nas últimas semanas da campanha presidencial, mais de 10 milhões de pessoas viraram soldados num canal de WhatsApp com nome de “exército”. Eu fui uma delas. Liguei as notificações, cumpri missões, bloqueei perfis, “explodi” vídeos e perdi noites de sono obedecendo a um macho, o que não me orgulha. Desde o domingo do segundo turno, quando as primeiras análises sobre o fenômeno começaram a circular, uma pergunta não sai da minha cabeça: dá para replicar isso em outros países? 

Minha aposta é que o formato pode ser copiado, mas a combinação que o levou ao sucesso foi única. O Exército do Lula não funcionou por um motivo só. Funcionou porque muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo, somadas à força de todas as outras iniciativas que movimentaram o segundo turno. O que proponho aqui é uma leitura, sem pretensão de tese e aberta à discordância. 

A primeira peça foi um desafio em comum. No final do segundo turno, havia o entendimento de que o progressismo estava perdendo terreno nas redes, e não por causa da alta qualidade do adversário. O problema era a própria plataforma. Levantamentos de organizações como o NetLab, da UFRJ, e ações do Ctrl+Z, do Sleeping Giants Brasil e de muitos outros apontavam indícios de que a Meta não estava tratando as campanhas da mesma forma. Só reclamar não era opção. A meta passou a ser dobrar a Meta, e o canal de André Janones ofereceu exatamente isso: missões para juntos vencermos o algoritmo. 

Crédito: Ricardo Stucker/LulaOficial/Flickr

O mais interessante é que Janones explicava cada orientação. Por que não comentar no perfil do adversário, como ligar as notificações do canal, como dar visibilidade a um tema. Foi, na prática, um curso de educação midiática dado em áudios e mensagens de WhatsApp para milhões de pessoas que provavelmente nunca tinham parado para pensar em como o algoritmo funciona. Quando a gente entende o porquê, cumpre a missão com outra garra. Ali, nos sentíamos mais espertos do que a plataforma, e juntos. 

A segunda peça foi o acesso aos bastidores. Janones não era um influenciador comentando a campanha de fora. Estava dentro, com acesso ao presidente Lula, e sabia das coisas. Isso mudava a forma como recebíamos as orientações. Quando ele avisava que no dia seguinte determinado perfil publicaria um vídeo, e pedia que ninguém engajasse e usasse uma hashtag no lugar, não estávamos simplesmente obedecendo. Confiávamos que aquilo era estratégia, conectada ao que a campanha pensava lá dentro. Ou essa foi a história que contei a mim mesma para obedecer ao boy. O canal funcionava quase como um reality show da campanha: vídeos com Lula em tom íntimo, histórias de bastidor e aquele gostinho de “tenho uma informação aqui que vocês ainda não sabem, mas daqui a pouco eu conto”. E a gente esperava, porque sabia que ficaria sabendo primeiro. 

Ao mesmo tempo, ele era um de nós. Em dia de debate, acompanhava Lula no estúdio e mandava áudios sussurrados no canal. Quando a bateria do celular estava baixa, vinha a mensagem que qualquer um já mandou um dia: “pode ser que eu suma, tô ficando sem bateria”. Chorava, gritava, se revoltava e dava opinião, mesmo quando, aparentemente, ela não estava alinhada com a campanha. Depois do primeiro debate, quando todo mundo ficou mal, ele também ficou, e foi parar na UTI com arritmia. Mandava bom-dia e boa-noite e dava bronca quando a missão não era bem cumprida, como aquele professor que esperava mais da turma. 

Havia também ousadia. As missões nunca eram pequenas. Não bastava entrar nos assuntos do momento: era preciso ocupar todos eles. Não bastava fazer o canal crescer: era preciso dobrá-lo de um dia para o outro. “Amanhã quero ver 5 milhões aqui.” “Bloqueiem TODOS esses perfis.” “Explode esse vídeo.” Explodir, no caso, não era só curtir, era fazer de tudo. Justamente por serem ousados, os desafios funcionavam: cada meta batida virava prova da força do coletivo. Verás que um filho teu não foge à luta. 

No meio de toda essa tensão, a gente riu junto. Foram surgindo piadas internas: os bordões, o jeito gritado de falar, o celular chacoalhando nos vídeos, o “Pessoal, urgente” que virou meme. E Janones, sempre permeável, levou tudo na brincadeira, inclusive a própria ideia de exército. O comandante era o primeiro a rir de ser comandante. Brasileiro precisa desse componente em altas doses. E, sinceramente, quem não precisa? Deveríamos exportar isso, e não petróleo da foz do Amazonas. 

Por fim, houve acolhimento. Estávamos, e ainda estamos, em psicose política. Nas últimas 24 horas de campanha, o país inteiro estava com a ansiedade nas alturas. Estávamos exaustos de ver vídeo até o fim e depois ir para a rua, e morrendo de medo do resultado eleitoral. Janones fez então uma live de 24 horas, que começou logo depois do último debate e terminou 12 horas antes da abertura das urnas. Ali, ofereceu um contêiner emocional para a militância e organizou a conversa sobre o debate, sobre nossos sentimentos e sobre o que estava acontecendo. Trouxe artistas, especialistas, políticos e memes. Se emocionou. E, no final, deu o último boa-noite antes de irmos votar. Com o resultado definido, a orientação foi outra: quem precisasse deveria desligar as notificações do canal e se cuidar. 

Então, dá para replicar? Dá para copiar o canal, as missões e até os bordões. Mas reunir um inimigo em comum, a confiança de quem está lá dentro com a intimidade de quem está aqui fora, ousadia, humor e cuidado, tudo junto, na mesma pessoa e no mesmo momento histórico, é outra história. 

E há algo ainda mais importante: o canal não lutou sozinho. Caminhou de mãos dadas com estudantes nas ruas, fandoms nas ruas e nas redes, influenciadores, organizações chamando jovens, mulheres e as avós para votar, coletivos no Nordeste falando com todo mundo, a campanha indígena, as caronas solidárias, deputados recém-eleitos da geração Z mudando a linguagem da campanha, pessoas LGBT unidas, vídeos e mais vídeos expondo o histórico do outro candidato e o maior uso de inteligência artificial de todos os tempos, para fazer coisas legais, divertidas e sites que seriam humanamente impossíveis de produzir tão rápido. Quem quiser replicar o Exército do Lula precisa começar por essa rede, porque nenhum canal, por maior que seja, vence uma eleição sozinho. 

 

Gabi Juns é diretora executiva do Instituto Lamparina. 

 

Sobre o Instituto Lamparina 

A Lamparina é uma organização da sociedade civil liderada por mulheres, que une escuta, comunicação e cultura política para fortalecer a democracia com justiça de gênero, racial e climática. Saiba mais em: lamparina.org  

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