Os inocentes do Leblon não sabem de você
Sobre a classe média brasileira, a alienação de classe e a conveniência de não enxergar o navio que chega
Foi no auge da década de 1980 que Marina Lima, ao lado de seu irmão, o letrista, poeta e filósofo, Antônio Cícero, deu voz à canção Virgem. Entre seus versos, uma referência direta a Carlos Drummond de Andrade: “os inocentes do Leblon”.
Anos depois, Cícero contaria que a expressão fazia parte de suas lembranças de infância, quando seu pai costumava chamar assim os filhos que saíam do mar, nas praias cariocas. Uma memória afetiva que, curiosamente, evocava outra vivência, anterior àquela família e à própria canção.
Aqui, recorremos brevemente a Michel Foucault, que, na abertura do seu livro, A ordem do discurso, manifesta o desejo de encontrar uma voz que já o precedesse. De acordo com ele, não inauguramos os discursos que pronunciamos, mas ocupamos lugares em uma trama de sentidos, histórias e relações de poder que existiam muito antes de nós.
Foi o que Antônio Cícero fez convocando Drummond para sua própria lírica? Ao recuperar “os inocentes do Leblon”, a expressão foi realocada para o território da experiência amorosa, onde o mundo continua existindo, indiferente às nossas perdas. Entretanto, o verso original traz consigo uma história menos romântica.
Publicado em 1940, em Sentimento do mundo, o poema de Drummond surge em meio ao avanço do fascismo e à Segunda Guerra Mundial. Nele, os inocentes não percebem a chegada de um navio, não sabem o que transporta, quem chega ou o que acontece para além da praia. Estão ocupados com o calor da areia, o óleo sobre as costas e a tranquilidade de quem pode se dar ao luxo de não olhar para o horizonte. Lá, na cadência proposta pelo poeta, o mundo parece estar em convulsão. O bronzeado, todavia, não pode esperar.
Eis, então, que surge a primeira de muitas perguntas que aqui nos interessa: quem são e será que os inocentes do Leblon são mesmo tão inocentes assim?

Há algo na classe média brasileira que remete continuamente a esses personagens, não exatamente pela localização geográfica, embora o Leblon seja uma metáfora bastante conveniente para pensar os privilégios no Brasil, mas pela relação que determinados segmentos estabelecem com a própria condição de classe.
Isso porque a classe média brasileira parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de se reconhecer em tudo aquilo que não é. Não é pobre, porque comprou um apartamento financiado. Não é trabalhadora, porque ocupa um cargo de gestão. Não é proletária, porque tem diploma universitário, carro, plano de saúde e, eventualmente, alguém que trabalha em sua casa. Ela também não é burguesa, embora faça um esforço admirável para pensar como se fosse.
A grande ironia é que basta perder o emprego para descobrir que o banco, o condomínio e a operadora do plano de saúde não reconhecem distinções tão sofisticadas – e é justamente nessa contradição que a leitura marxista se torna incontornável.
Para Marx, a alienação está inscrita das e nas próprias relações de trabalho, quando aquele que produz a riqueza não controla plenamente as condições de sua produção. Mas há outra dimensão dessa discussão que nos interessa particularmente, a saber, a maneira como determinadas relações sociais e ideológicas contribuem para que trabalhadores se identifiquem com posições de classe que não ocupam.
É o caso de parcelas da classe média que dependem do próprio salário, mas encontram no diploma, no cargo e no padrão de consumo motivos suficientes para se imaginar mais próximas da burguesia do que dos demais trabalhadores.
Diante disso, podemos inferir que o problema não está em a classe média reconhecer seus privilégios, mas em confundi-los com uma mudança de classe e, nessa confusão, terminar por defender os interesses de quem controla o capital, enquanto se empenha em manter distância daqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Esta maneira de compreender a própria posição social possui uma história, e ela não vem de agora…
“Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar”
A classe média urbana brasileira já existia antes de 1930, mas sua expansão acompanhou as transformações econômicas desencadeadas pela industrialização e pelo crescimento do Estado. A partir da Era Vargas, a reorganização das relações de trabalho, a ampliação do funcionalismo público e o desenvolvimento de ocupações técnicas e administrativas contribuíram para a formação de novos segmentos assalariados. A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um marco dessa reorganização, embora suas garantias não tenham alcançado todos os trabalhadores da mesma maneira.
Nos anos seguintes, a industrialização, a urbanização e a expansão dos serviços ampliaram essas ocupações. O crescimento econômico durante a ditadura militar também favoreceu determinados segmentos médios, ao mesmo tempo que aprofundou desigualdades e concentrou renda. Bem mais adiante, após o período ditatorial, a redemocratização, a estabilização monetária com o Plano Real e, posteriormente, a ampliação do emprego formal, do crédito e do acesso à educação contribuíram, em momentos distintos, para modificar as condições de vida e as possibilidades de ascensão social.
Embora essa trajetória não tenha sido linear, tampouco universal, ela auxilia na compreensão de como o emprego estável, a formação profissional e o acesso ao consumo se tornaram referências importantes para a identidade de parcelas da classe média brasileira.
Entretanto, o que aqui importa não é reconstituir toda essa história, mas observar o que acontece quando as condições de trabalho que ajudaram a sustentar determinadas expectativas de estabilidade começam a se transformar.
Durante boa parte do século XX, a expansão do trabalho assalariado formal esteve associada, para determinados grupos, à possibilidade de construir uma carreira, acumular patrimônio e projetar alguma segurança para o futuro. A empresa, a instituição pública ou a profissão ofereciam uma referência relativamente estável de pertencimento.
Todavia, é importante registrar que essa estabilidade nunca foi uma experiência generalizada no Brasil. O trabalho doméstico, a informalidade, a desigualdade racial e a precariedade das ocupações rurais permaneceram como características estruturais do mercado de trabalho. Ainda assim, a promessa de uma carreira protegida e de ascensão pela escolarização exerceu enorme influência sobre o imaginário das classes médias urbanas.
Nas últimas décadas, essa promessa passou a conviver com transformações profundas na organização do trabalho.
A flexibilização das relações contratuais, a terceirização, a expansão do trabalho por demanda, a contratação por pessoa jurídica e o crescimento das plataformas digitais modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam. A especialização profissional, antes frequentemente associada à estabilidade, passou a coexistir com vínculos mais instáveis, competição permanente e exigências contínuas de atualização.
O neoliberalismo não inventou a precariedade do trabalho brasileiro – ela é muito anterior a ele, isso é fato –, mas a reorganização econômica e institucional das últimas décadas contribuiu para produzir novas formas de insegurança, inclusive entre profissionais que, historicamente, se percebiam relativamente protegidos.
A Reforma Trabalhista de 2017, durante o governo Temer, é um marco importante desse processo. Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas digitais tornou mais visíveis formas de organização do trabalho nas quais a promessa de autonomia convive com mecanismos intensos de controle, dependência econômica e transferência de riscos.
O trabalhador passa a ser estimulado a se perceber como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar a própria carreira, investir continuamente em qualificações, construir uma marca pessoal e assumir os riscos de sua inserção profissional. A ausência de estabilidade ganha o nome de liberdade, a perda de garantias vira flexibilidade, e trabalhar cada vez mais passa a ser celebrado como espírito empreendedor. Eis uma das grandes ironias do capitalismo contemporâneo, a de que o trabalhador perde direitos, mas ganha um título de empresário para chamar de seu.
É nesse cenário que a meritocracia cumpre uma função bastante conveniente. O sucesso passa a ser apresentado como resultado exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à incapacidade de acompanhar as exigências do mercado. Pouco importa que as oportunidades continuem profundamente condicionadas pela origem social, escolaridade e relações de poder. A responsabilidade é sempre do indivíduo, nunca das estruturas que organizam sua existência.
A contradição se torna ainda mais evidente quando observamos a classe média brasileira. Acostumada a encontrar no diploma, na profissão e no consumo elementos de distinção social, ela passa a enfrentar um mercado de trabalho que já não oferece as mesmas garantias de estabilidade e ascensão. O diploma permanece na parede, o cargo profissional é estampado no LinkedIn, mas a segurança econômica que deveria acompanhar essas conquistas se torna cada vez mais incerta.
E, em vez de reconhecer nessa precarização uma condição que a aproxima dos demais trabalhadores, parte da classe média insiste em preservar a distância simbólica que acredita separá-la deles. A ampliação do acesso à universidade, a conquista de direitos ou a ascensão dos mais pobres, costumeiramente, são percebidas como ameaças ao próprio prestígio. Afinal, de que vale ocupar uma posição privilegiada se aqueles que antes estavam excluídos começam a frequentar os mesmos espaços?
O resultado disso soa como uma inversão bastante reveladora. O trabalhador que perde garantias encontra no trabalhador que conquista direitos um adversário, enquanto continua a reconhecer naquele que controla o capital um modelo de sucesso. A disputa se desloca das relações entre capital e trabalho para uma competição entre pessoas que, apesar das diferenças reais de renda e prestígio, compartilham a dependência do próprio trabalho. E, assim, a classe média consegue a proeza de se afastar simbolicamente de sua condição de classe sem jamais conseguir escapar materialmente dela.
“Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram”
A história eleitoral brasileira oferece exemplos bastante reveladores dessa contradição. Desde a redemocratização, a classe média esteve longe de constituir um bloco político homogêneo. Mas, especialmente a partir das eleições de 2006, quando Lula consolidou seu apoio eleitoral entre os segmentos de menor renda, parcelas da classe média e dos estratos superiores passaram a se identificar mais fortemente com candidaturas de oposição ao PT. Esse movimento assumiu novas configurações nas eleições seguintes e encontrou, na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão particularmente significativa da combinação entre conservadorismo moral, antipetismo e liberalismo econômico.
Evidentemente, ninguém vota apenas de acordo com sua posição nas relações de produção. Religião, segurança pública, valores morais e experiências individuais também orientam escolhas políticas. Mas há uma ironia difícil de ignorar quando trabalhadores assalariados defendem a flexibilização de direitos, profissionais precarizados celebram a ausência de vínculo empregatício como liberdade e pequenos empresários se identificam com os interesses de grandes grupos econômicos que, não raramente, também os pressionam na estrutura social.
É justamente aí que a ideologia encontra terreno fértil. A liberdade de quem controla o capital passa a ser confundida com a liberdade de quem precisa vender sua força de trabalho. Parte da classe média, ao incorporar como seus os interesses daqueles que ocupam posições superiores na estrutura econômica, acaba por defender relações que também sustentam sua própria subordinação. Em outras palavras, ela trabalha como assalariada, consome como classe média e, em determinadas circunstâncias, imagina o mundo como burguesa.
Eis então a grande contradição! Parte da classe média teme perder o lugar que ocupa, mas dirige sua hostilidade a quem tenta alcançá-lo, não a quem controla as condições de acesso a ele. O trabalhador mais pobre se transforma em concorrente, enquanto o grande empresário, em referência de sucesso. E o conflito que poderia revelar interesses compartilhados entre trabalhadores acaba reorganizado como uma disputa por quem merece permanecer alguns degraus acima dos demais.
É nessa antítese que podemos tentar entender a classe média através de uma posição particularmente perversa: a de vítima e algoz. Vítima porque se ilude com a ideia de pertencer à burguesia, confundindo determinados privilégios e sinais de prestígio com a posse efetiva do capital. Afinal, integrar uma elite econômica ou intelectual não significa, necessariamente, pertencer à classe que controla os meios de produção. E a própria burguesia se encarrega de estabelecer os limites dessa identificação, sobretudo quando o emprego desaparece e a renda deixa de sustentar a aparência de pertencimento.
Algoz porque, mesmo submetida a essa relação de dependência, parte da classe média reproduz as hierarquias que a subordinam, oprime os trabalhadores que ocupam posições inferiores e transforma a própria insegurança em instrumento de exclusão. Ela não consegue ser reconhecida por aqueles a quem deseja se igualar, mas insiste em negar o reconhecimento àqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Por essa via de análise, é possível concluir também que a inocência deixa de ser uma questão de desconhecimento. Afinal, reconhecer a própria condição de classe não significa, necessariamente, desejar transformar as relações que a sustentam, sobretudo quando determinados privilégios dependem da permanência de outros trabalhadores em posições inferiores.
“A areia é quente, e há um óleo suave…”
Talvez, por isso, o poema de Drummond permaneça tão atual. O navio chegou, o mundo mudou, as relações de trabalho se transformaram, mas os inocentes continuam ocupados demais para perceber o que acontece além da praia. Afinal, reconhecer a própria vulnerabilidade exige um esforço consideravelmente maior do que preservar a confortável ilusão de pertencimento à classe dominante.
Ainda assim, parte dessa classe prefere responsabilizar aqueles que estão abaixo na hierarquia social por uma insegurança que não foi produzida por eles. O problema nunca parece estar nas relações econômicas que a subordinam, mas no trabalhador que conquistou direitos, no pobre que ingressou na universidade ou naquele que passou a frequentar espaços antes reservados a poucos. A classe média teme perder seus privilégios, mas, frequentemente, se incomoda mais com quem começa a conquistá-los do que com quem efetivamente controla sua distribuição.
Retomemos então a alienação nas relações de trabalho, tal como discutida por Marx. Se as condições materiais de existência contribuem para moldar a maneira como os sujeitos compreendem a si mesmos e o mundo, isso não os isenta de participar da reprodução das relações que os subordinam. A classe média pode ser alienada em sua condição de trabalhadora e, ao mesmo tempo, encontrar na preservação das desigualdades uma forma de sustentar seus próprios privilégios. Sua inocência, portanto, carrega também uma parcela de responsabilidade.
Em Virgem, de Cícero e Marina, o mundo segue indiferente às nossas expectativas. As coisas não necessitam de nós. Mas, diante dos inocentes de Drummond, a pergunta é outra: por que determinados grupos insistem em agir como se não precisassem compreender o mundo que os cerca?
E, principalmente, quem se beneficia dessa “inocência”?
Há uma diferença considerável entre não perceber a chegada de um navio e construir toda uma visão de mundo para continuar ignorando sua presença. A primeira situação pode ser distração, a segunda já se aproxima bastante de uma conveniência política.
Talvez os inocentes do Leblon não sejam tão inocentes assim. Sua “ingenuidade” também pode ser uma posição social, uma maneira de interpretar a realidade e, sobretudo, de escolher a quem atribuir a responsabilidade pelas próprias contradições.
Afinal, o navio continua chegando. E a areia, para alguns, permanece suficientemente quente para que não seja necessário olhar para o mar.
Mariana Kaoos é jornalista, mestra em Cultura e Sociedade e pós-graduanda em Psicanálise, Filosofia e Sociedade.
Fernando Wolff Mendonça é doutor em Educação, professor na Universidade Estadual de Maringá e atuação em formação dos processos psíquicos.

