As vozes das periferias que contribuíram para a eleição de Lula
As batalhas ajudaram a manter o debate político vivo nos territórios, ampliaram a circulação de argumentos nas redes e ofereceram a muitos jovens uma forma de participar de uma disputa que também dizia respeito ao seu futuro
Diversas análises apontam múltiplos fatores que contribuíram para a virada histórica que resultou na eleição do presidente Lula em 2026. Muito se fala sobre o papel da juventude, das mulheres, das pessoas idosas e de diferentes setores da sociedade nesse processo. Entretanto, há um segmento que ainda recebe pouca visibilidade nas análises sobre a mobilização política e eleitoral: a juventude que atua por meio das manifestações culturais das periferias brasileiras. Destaco, particularmente, as batalhas de rima, que demonstraram sua capacidade de mobilização, conscientização e defesa da democracia.
Para quem ainda não conhece, as batalhas de rima são encontros culturais nos quais MCs se enfrentam por meio de versos improvisados, em duelos que combinam criatividade, domínio da palavra, argumentação e capacidade de responder ao adversário. Embora tenham características próprias em cada território, essas batalhas integram a cultura hip hop e se consolidaram como espaços de expressão artística, convivência e reflexão sobre a realidade social. No Brasil, essa manifestação ganhou força nas ruas, nas praças e nos espaços públicos, constituindo uma importante forma de expressão da juventude periférica.
Mais do que disputas entre artistas, as batalhas se tornaram fenômenos culturais e sociais que mobilizam milhares de jovens em todo o país. Elas combinam uma atuação nas ruas e nas redes, onde alcançam números expressivos de visualizações e interações, inclusive furando bastante a bolha do campo progressista. Nas ruas, é nítido que o público tem um viés mais à esquerda. Já nas redes, esse público se divide, tornando o debate bastante acalorado.
Uma dimensão dessa capilaridade pôde ser identificada a partir do prêmio “Vozes Periféricas”, realizado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, no início do ano de 2026. Por meio dessa iniciativa, foi possível mapear aproximadamente 1.700 experiências culturais, entre batalhas de rima, slams – competições de poesia falada – e saraus, distribuídas por cerca de 500 municípios, em todos os estados brasileiros. São iniciativas que revelam a força e a diversidade da produção cultural periférica.
Na prática, isso significa que, em todos os dias da semana, em diferentes cidades e territórios brasileiros, jovens se reúnem para rimar, declamar poesia, compartilhar experiências e debater suas realidades. São rodas que podem começar com dez ou quinze pessoas e chegar a centenas de participantes. Esses encontros criam vínculos comunitários, fortalecem identidades e constroem espaços de participação que nem sempre são reconhecidos pelas instituições tradicionais da política.
Foi justamente essa força social que se manifestou durante o processo eleitoral de 2026. Organizadores de batalhas, MCs e outros artistas ligados ao hip-hop passaram a se posicionar publicamente em defesa da democracia. Desde o primeiro turno, ganhou visibilidade a ideia de que “o hip-hop tem lado”, uma afirmação que buscava conectar as raízes históricas dessa cultura às lutas da classe trabalhadora, da população negra e das periferias, e também se expressou em um Manifesto com mais de 250 assinaturas.
No segundo turno, essa mobilização ganhou ainda mais força. Artistas históricos do rap e do hip-hop se manifestaram, MCs levaram o debate eleitoral para as batalhas e diversos encontros passaram a abordar diretamente as eleições. Trechos de duelos foram publicados nas redes sociais, circularam amplamente e alcançaram públicos muito maiores do que aqueles presentes nas rodas nos territórios.
Um dos momentos mais emblemáticos desse processo foi a “Batalha do Viravoto”, realizada em São Paulo. A iniciativa contou com uma etapa online, em uma grande transmissão ao vivo, com a participação de MCs e a articulação de importantes batalhas da cidade. Ao final da transmissão, ocorreu a “Passeata das Batalhas pela Democracia”, que reuniu mais de mil pessoas em uma caminhada pelo centro paulistano, da região de Santa Cecília até a Praça da República.

A imagem de jovens que habitualmente ocupam praças e espaços culturais reunidos em uma manifestação pública em defesa da democracia é bastante significativa. Ela mostra que as batalhas podem ultrapassar os limites do entretenimento e da competição artística para assumir um papel ativo na vida social e política do país.
Outro aspecto interessante foi o debate que essa tomada de posição provocou dentro da própria cena. A nova geração do hip-hop que se expressa nas batalhas de rima não possui necessariamente a mesma trajetória de gerações anteriores, cuja relação com o movimento negro, os movimentos populares e a organização política foi, em muitos casos, mais direta. As batalhas contemporâneas ganharam projeção em um contexto marcado pela expansão da internet, pela circulação de vídeos e pela formação de grandes comunidades digitais.
Essa expansão transformou o perfil do público. Hoje, as batalhas e o rap chegam a pessoas com experiências, interesses e posicionamentos políticos muito diferentes. Nem todo mundo que acompanha essa cultura se identifica com a esquerda ou com pautas progressistas. Há também setores conservadores que consomem essa produção artística e se apropriam de aspectos de sua linguagem e de seu discurso.
Foi nesse contexto que as manifestações eleitorais de parte dos artistas e organizadores provocaram tensões e confrontos nas redes sociais. Alguns integrantes do público questionaram o posicionamento político dos MCs, argumentando que o hip-hop sempre se apresentou como uma cultura antissistema, contrária às estruturas de poder e às formas tradicionais de representação política.
Esse embate, longe de ser irrelevante, revelou uma questão fundamental: o que significa ser antissistema? É possível criticar as estruturas de poder sem discutir as desigualdades que organizam a sociedade? É possível defender a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, ignorar as ameaças à democracia? E até que ponto uma manifestação cultural pode se manter distante dos conflitos políticos que atravessam a vida de seus participantes?
Essas questões não possuem respostas simples, mas o debate produzido durante as eleições abriu uma oportunidade de reflexão para a própria cena. Os confrontos demonstraram que as batalhas não são espaços politicamente neutros, ainda que sua função não seja a militância partidária. Quando artistas e organizadores assumem posições políticas públicas, também provocam seus públicos a pensar, questionar e elaborar seus próprios posicionamentos.
Esse processo pode representar um importante amadurecimento do movimento. Uma cena que durante muito tempo foi percebida, inclusive por parte de seus próprios integrantes, principalmente como uma expressão cultural passa a reconhecer também sua dimensão social e sua capacidade de intervenção política.
É justamente aí que reside uma de suas maiores potências.
As batalhas de rima já possuem algo que muitos projetos institucionais de participação popular procuram construir: presença cotidiana nos territórios, capacidade de mobilização, linguagem acessível, identificação com a juventude e redes de relacionamento que ultrapassam os espaços formais da política. São ambientes nos quais jovens desenvolvem habilidades de argumentação, aprendem a sustentar posições, confrontam ideias e constroem formas próprias de expressão.
Durante as eleições de 2026, essa estrutura foi mobilizada em torno de uma causa comum: a defesa da democracia e a disputa sobre os rumos do país. Ao se posicionarem, artistas e organizadores contribuíram para levar o debate eleitoral a espaços que nem sempre são alcançados pelas campanhas tradicionais e pelos discursos institucionais.
É difícil dimensionar isoladamente o impacto eleitoral dessas iniciativas ou afirmar quantos votos foram diretamente influenciados por elas. Uma eleição presidencial é resultado de múltiplos fatores, de diferentes processos de mobilização. Entretanto, seria um erro desconsiderar a contribuição política e social de uma rede cultural tão capilarizada.
As batalhas ajudaram a manter o debate político vivo nos territórios, ampliaram a circulação de argumentos nas redes e ofereceram a muitos jovens uma forma de participar de uma disputa que também dizia respeito ao seu futuro. Essa mobilização pode ter alcançado outros públicos, incluindo familiares e pessoas mais velhas, demonstrando como a participação política de uma geração pode estimular o envolvimento de outras.
Assim como diferentes movimentos sociais, organizações populares, artistas, lideranças comunitárias e setores da sociedade civil desempenharam papéis relevantes na mobilização democrática, as batalhas de rima também contribuíram para esse esforço coletivo. Seu mérito está não apenas nos posicionamentos assumidos, mas na capacidade de transformar espaços culturais em ambientes de diálogo, mobilização e participação.
O desafio agora é compreender o que essa experiência representa para além do calendário eleitoral.
O presidente Lula, ao apontar para a importância de ampliar a participação social e governar em diálogo com a população, coloca em evidência a necessidade de fortalecer os canais de interlocução entre o Estado e a sociedade. Nesse cenário, a articulação entre as ruas e as redes, entre a participação presencial e a comunicação digital, ganha importância estratégica.
As batalhas de rima podem desempenhar um papel relevante nesse processo.
Uma política pública comprometida com essa perspectiva precisa respeitar a autonomia dos coletivos, garantir condições para a realização de suas atividades, ampliar o acesso a recursos e equipamentos culturais e criar mecanismos permanentes de participação. Também precisa reconhecer que esses espaços produzem conhecimento sobre os territórios e desenvolvem formas de organização que podem contribuir para a formulação e o acompanhamento de políticas públicas.
É fundamental que esse reconhecimento não se limite aos períodos eleitorais. A juventude periférica não pode ser lembrada apenas quando sua mobilização interessa a uma disputa política. Ela precisa ser reconhecida como sujeito de direitos, produtora de cultura e protagonista na construção dos rumos do país.
Há muito tempo, setores da esquerda brasileira discutem a necessidade de reconstruir o trabalho de base, fortalecer a presença nos territórios e desenvolver processos permanentes de formação e conscientização política. As batalhas de rima não substituem a organização política tradicional, nem devem ser reduzidas a uma ferramenta para alcançar objetivos eleitorais. Mas demonstram que já existe uma rede viva, diversa e territorializada, capaz de produzir vínculos, mobilizar pessoas e estimular debates sobre a realidade brasileira.
Se essa potência for compreendida com a devida atenção, respeitando a autonomia dos coletivos e criando condições para seu desenvolvimento, as batalhas poderão contribuir de maneira ainda mais significativa para a participação social e para o fortalecimento da democracia.
Se, durante as eleições, as batalhas demonstraram que têm voz e força política, o próximo passo é reconhecer que também podem ter um papel estratégico na construção do Brasil. Como expressão de uma juventude que, ao ocupar as ruas, as praças e as redes, reivindica o direito de participar das decisões que definem seu presente e seu futuro.
Joselicio Junior (Juninho) é produtor cultural, militante da Ação Negra e Secretário Adjunto de Diálogos Sociais da Secretaria Geral da Presidência.

