Todo quilombo precisa ter sua Voz
Meninas quilombolas ocupam um espaço de produção de informação e interpretação da realidade, em um campo no qual populações historicamente silenciadas nem sempre têm o poder de contar suas próprias histórias
“Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio, ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece”, essa frase é a base do legado deixado pelo escritor quilombola Nego Bispo, ao refletir sobre a confluência dos saberes. Para o autor, o encontro entre diferentes não exige o abandono das próprias identidades. Ao contrário, permite que cada um preserve suas particularidades e, ao mesmo tempo, construa novas possibilidades coletivas.
Essa ideia ajuda a compreender o A Voz do Quilombo, um projeto escolar de jornalismo desenvolvido em uma escola pública de Alcântara, no Maranhão. O segredo dessa experiência está justamente na confluência: cada uma das meninas que integram o projeto vem de um quilombo diferente. São trajetórias, memórias familiares, conhecimentos e experiências territoriais próprias que se encontram na sala de aula e passam a construir uma voz coletiva. Ao se reunirem, essas jovens não deixam de pertencer às suas comunidades. Elas ampliam as possibilidades de narrar suas histórias, defender seus territórios e lutar por justiça.
Alcântara é um município singular na história brasileira. Segundo o Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 84,6% de sua população se autodeclara quilombola, a maior proporção entre os municípios do país. Essa presença não representa apenas um dado demográfico. Ela expressa a continuidade de comunidades que preservam suas memórias, seus modos de vida e suas formas de organização diante de séculos de tentativas de apagamento e expropriação.
A história recente do município também é atravessada por conflitos territoriais. Na década de 1980, comunidades quilombolas foram desapropriadas e famílias removidas de suas terras para a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), empreendimento militar destinado a atividades espaciais que provocou diversas violações de direitos humanos.
Décadas depois, a disputa pelo território continuava a ameaçar a permanência dessas comunidades. Em 2019, o governo Bolsonaro buscou firmar com os Estados Unidos um acordo de salvaguardas tecnológicas relacionado ao uso comercial do Centro de Lançamento. As perspectivas de ampliação das atividades espaciais reacenderam as preocupações das comunidades quilombolas com o futuro de seus territórios. Em 2023, os conflitos ganharam um novo capítulo quando o território quilombola de Vista Alegre foi cenário de uma ação de desocupação realizada por forças militares e pelo Batalhão de Choque, que resultou em imóveis destruídos e moradores feridos.
Foi nesse contexto que a sala de aula se tornou um espaço de encontro entre a experiência vivida pelas estudantes e as ferramentas de investigação e comunicação oferecidas pela escola. Eu era o professor de História daquela turma e propus uma investigação a partir da pergunta: “Qual o perigo de ter sua história contada por outros?”, questionamento que surgiu após a leitura do livro O perigo de uma história única, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A atividade pretendia discutir a colonialidade e as formas de representar o passado no espaço escolar. Mas um grupo de estudantes decidiu seguir outro caminho: denunciar as violências que ameaçavam suas comunidades. A educação passa a ser também um processo de escuta, troca e construção coletiva, no qual a ancestralidade não aparece como uma lembrança distante, mas como conhecimento capaz de iluminar os problemas do presente e soltar a voz pressa na garganta.
Desse encontro que nasceu o A Voz do Quilombo. A indignação diante das violações sofridas pelas comunidades encontrou na escola pública um espaço para se transformar em ação. As estudantes passaram a produzir reportagens em vídeo e a compartilhar suas histórias nas redes sociais. Como professor fascinado por esse entusiasmo estudantil, passei a oferecer ferramentas para pesquisar, apurar e comunicar; os territórios forneceram as experiências, as memórias e as questões que precisavam ser narradas. Dessa relação surgiu um projeto em que aprender também significava investigar a própria realidade, produzir conhecimento e fazê-lo circular para além dos muros escolares.
O jornalismo tornou-se uma maneira de registrar as lutas dos territórios, ampliar a circulação de informações e disputar as narrativas sobre uma realidade frequentemente distante dos grandes centros de decisão do país. O que essas jovens produzem, portanto, não pode ser compreendido apenas como um exercício de aprendizagem técnica. Ao investigar acontecimentos, ouvir moradores e narrar os conflitos de suas comunidades, elas mobilizam conhecimentos construídos dentro e fora da escola. O vínculo com o território não é somente o tema das reportagens: é também uma fonte de conhecimento e um compromisso com as pessoas que vivem nele.
Meia dúzia de meninas e um celular fizeram uma revolução na maneira como as informações circulavam em Alcântara. Seu trabalho conectou povoados aos acontecimentos do município e registrou histórias que muitas vezes não chegam aos grandes meios de comunicação, democratizando o acesso à informação. Nas reportagens, as estudantes deram visibilidade a conversas com artesãs, à emoção de comunidades que conquistaram a titulação de suas terras e aos impactos da condenação do Estado brasileiro pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), pelo que foi feito em Alcântara no passado. Um dos vídeos sobre o tema alcançou cerca de 70 mil visualizações no Instagram. Em outra reportagem, as estudantes investigaram a existência de uma escola situada dentro de um território quilombola que homenageava um antigo senhor de escravizados. A denúncia mobilizou estudantes e a sociedade civil, dando força à reivindicação da comunidade pela mudança do nome da escola municipal e provocando um debate junto às autoridades municipais. O movimento conquistou um desfecho bem-sucedido, com a aprovação da mudança em votação na Câmara de Vereadores, garantindo que a escola passasse a homenagear uma referência que representasse a história, a identidade e a memória coletiva da comunidade.

Essa perspectiva se torna ainda mais importante quando observamos quem está por trás das câmeras. Meninas quilombolas ocupam um espaço de produção de informação e interpretação da realidade, em um campo no qual populações historicamente silenciadas nem sempre têm o poder de contar suas próprias histórias. Ao assumirem essa tarefa, elas ampliam a visibilidade de suas comunidades e questionam quem tem o direito de produzir conhecimento, definir os problemas públicos e narrar a história do Brasil.
É aqui que a imagem de Nego Bispo volta a nos ajudar a compreender essa experiência. As meninas vêm de quilombos diferentes, mas não precisam abandonar suas particularidades para construir algo em comum. Quando essas experiências se encontram na sala de aula, não se tornam menos diversas. Tornam-se capazes de produzir uma voz coletiva que amplia o alcance das lutas de cada comunidade. O nosso colégio, o Centro Educa Mais Aquiles Batista Vieira, nesse processo, não aparece apenas como lugar de transmissão de conteúdos, mas como espaço de confluência entre saberes comunitários, conhecimentos escolares e experiências de vida. É nesse encontro que a educação pode reconhecer os estudantes como sujeitos produtores de conhecimento, capazes de investigar sua realidade e intervir nela. O jornalismo não substitui a mobilização comunitária nem resolve, por si só, os conflitos fundiários. Mas pode contribuir para que as violações sejam conhecidas, para que as memórias permaneçam registradas e para que as comunidades tenham mais recursos para disputar as narrativas que incidem sobre suas vidas. Todo quilombo precisa ter sua voz porque nenhum povo deveria depender exclusivamente de outros para contar a própria história.
Talvez a força do A Voz do Quilombo esteja justamente nisso: cada menina continua sendo de seu quilombo, mas, ao confluir com as outras, passa a integrar uma corrente maior. Uma corrente que não apaga as diferenças, que carrega as memórias de seus territórios e que reivindica o direito de narrar o presente e construir o futuro.
Eu não cresci no território de Alcântara. Cheguei de outro lugar e, ao longo desses anos, construí uma relação com esse território a partir da convivência com seus moradores e, sobretudo, com meus estudantes. Como professor, não poderia ter mais orgulho da coragem e da vontade dessas meninas de contar suas próprias histórias. Construir com elas esse proejto durante o Ensino Médio foi um dos maiores orgulhos da minha trajetória na docência. Aprendi com a mesma intensidade com que ensinei.
Hoje, ver minhas alunas dando continuidade ao projeto em um perfil próprio no Instagram é uma alegria difícil de traduzir em palavras. É também a materialização de ideias que atravessam o pensamento de Nego Bispo, na confluência; de Paulo Freire, na construção da autonomia; e de bell hooks, na educação como prática da liberdade e transgressão. E, se um dia a proposta era ajudá-las a encontrar suas próprias vozes, hoje são elas que me ensinam a dimensão que uma voz coletiva pode alcançar.
Lucas de Sousa da Conceição é professor de História e pesquisador de práticas educativas antirracistas e digitais. Atua na rede pública do Maranhão, onde desenvolve projetos que articulam educação, comunicação, memória e ancestralidade com estudantes quilombolas. É idealizador dos projetos A Voz do Quilombo e Origens, reconhecidos pelo Mapa Brasileiro da Educação Midiática, iniciativa do Governo Federal em parceria com a UNESCO.

