A Amazônia em tempos de COP
Os mesmos protagonistas do caos climático tentam nos vender a ideia de que é possível sairmos dele pelo esverdeamento de suas próprias práticas historicamente devastadoras. O que está em jogo, afinal, é a transformação das mudanças climáticas em uma nova oportunidade de mercado, garantindo os meios para a expansão ilimitada do sistema capitalista
A realização da COP 30 na cidade de Belém, em novembro de 2025, tem causado relativa euforia em alguns governos, entidades do terceiro setor e até mesmo em certas organizações sociais. Escrevemos este texto, na Amazônia, para relativizar essa euforia, afinal estamos falando de um grande evento, que alarga a especulação imobiliária na cidade onde se instala, tal como outros grandes eventos. Esse evento em tela pretende reorganizar as relações capitalistas e reposicionar a Amazônia na geoeconomia global. E, para os leitores mais ansiosos, antecipamos que essa reorganização e esse reposicionamento envolvem muito mais riscos que potências. Sim, é isso mesmo: a COP pode ser o anúncio de novas violências para a Amazônia.
Parte da euforia em torno da COP 30 está no fato de a Amazônia figurar com centralidade nas discussões planetárias, o que – é bom que se diga – não é necessariamente uma novidade. Falavam-se, entre os séculos XVII e XVIII, além dos milhares de línguas indígenas, pelo menos cinco línguas coloniais no que compreendemos hoje como Pan-Amazônia. Seja por razões econômicas, geopolíticas e, agora, climáticas, sempre estivemos no centro dos interesses de potências globais.
Entretanto, esse protagonismo tem significado, ao longo da história, a abertura de novas frentes econômicas em direção à Amazônia. Numa repetição absurda de processos violentos que desestruturam nossos territórios da vida, sempre o mercado vira nossa salvação. Na história recente da Amazônia, já foi o gado nossa solução; por isso, saímos de 48,9 milhões de cabeças em 2000 para 125 milhões em 2023;[1] já foi a soja, e também por isso tivemos multiplicada por sete a área plantada desse monocultivo no bioma, entre 2000 e 2023;[2] já foi o ferro, e saltamos de uma produção de 48 milhões de toneladas desse minério na província mineral de Carajás em 2000 para 177,5 milhões de toneladas em 2024.[3] Agora, em tempos de COP 30, serão os minerais críticos? Será o crédito de carbono? Será a exploração de nosso patrimônio de conhecimentos pela indústria farmacêutica e de cosméticos?
Tais interrogações problematizam o lugar da Amazônia nas reorganizações das relações capitalistas operadas em eventos como as COPs. Para tentar responder a elas, organizamos nossas ideias em três momentos: um primeiro, em que analisaremos a transformação das mudanças climáticas em uma nova oportunidade de mercado; um segundo, em que demonstraremos as novas frentes econômicas abertas na Amazônia em tempos de COP 30; e um terceiro, em que ouviremos as agendas políticas dos povos historicamente silenciados nas negociações climáticas.

®A COP 30 e a necroeconomia da desfaçatez
Vivemos tempos de caos climático, em que os mesmos protagonistas do caos tentam nos vender a ideia de que é possível sairmos dele pelo esverdeamento de suas próprias práticas historicamente devastadoras. Por acordos entre Estado e mercado, com pouco ou nenhum envolvimento da sociedade civil, as corporações capitalistas se colocam como a grande solução dos próprios problemas que criaram. Palavras como “sustentabilidade”, “bioeconomia”, “transição energética” e “descarbonização” há tempos se avolumam em relatórios de agências multilaterais, no ambiente corporativo e no governamental, tendo, inclusive, poder de agendamento no mundo acadêmico. O que está em jogo, afinal, é a transformação das mudanças climáticas em uma nova oportunidade de mercado, garantindo os meios para a expansão ilimitada do sistema capitalista. Esse é o contexto que explica a existência das Conferências das Partes (COPs).
Não custa lembrar que os principais emissores de gases de efeito estufa também são os principais financiadores das COPs. Em escala nacional, é visível a centralidade da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), da Vale e da JBS na construção dos estandes do país nas últimas COPs. Até as duas principais obras em Belém, sede da COP 30, são financiadas pela Vale, empresa responsável pelos dois principais crimes ambientais da história do Brasil. A Vale, aliás, juntamente à JBS, também patrocina a cobertura da COP 30 pela Folha de S.Paulo e por empresas de comunicação do grupo Globo; afinal, o discurso é fundamental. Isso deixa claro que o que está em jogo é transformar os setores da economia responsáveis pelo caos climático: a mineração, o agronegócio, o setor de energia, entre outros, em benfeitores da transição energética e da descarbonização.
Alguns intelectuais chamam esse jogo discursivo de greenwashing para nomear esse verniz verde construído por estratégias de marketing. Para evitar a colonialidade de palavras estrangeiras e ser mais preciso, temos preferido nomear esse processo de necroeconomia da desfaçatez, pois o que vemos são dinâmicas econômicas que matam a vida em nome da vida, que nomeiam de sustentáveis práticas insustentáveis, que se dizem de baixo carbono, violando povos que mantêm a floresta em pé. Estamos em um país que alargou, por séculos, o poder decisório e a capacidade de circulação de ideias dos principais responsáveis por nosso colapso ambiental: grandes latifundiários, grandes corporações do agro, da mineração, da energia… Por isso, faça o que fizerem, esses responsáveis pelo caos não hesitarão em definir como vida suas práticas de violência, poluição, envenenamento e morte.
®Novas frentes econômicas aos territórios da vida na Amazônia
Todas essas operações discursivas não apenas abrem espaço para transformar em sustentáveis velhas práticas que poluem, matam, desmatam e envenenam o território; esses discursos também ganham materialidade na estruturação de novas frentes em direção aos territórios da vida na Amazônia, ou seja, em direção a Terras Indígenas, Territórios Quilombolas, assentamentos de reforma agrária, Unidades de Conservação, territórios ribeirinhos e de pescadores, maretórios, entre muitos outros. Estamos presenciando um novo projeto de territorialização capitalista para a Amazônia. A espoliação, ou transformação violenta de bens comuns em mercadoria, que sempre explicou as operações de produção do valor nessa região, agora se desloca pelas frentes de mercantilização do ar, das florestas, dos conhecimentos tradicionais e até dos modos de vida ancestrais, o que incorpora definitivamente os territórios da vida aos processos de financeirização da economia. São esses os territórios abertos ao capitalismo, quando transformamos as mudanças climáticas em oportunidade de mercado. São esses os territórios no centro dos interesses da reorganização das relações capitalistas e do reposicionamento geopolítico da Amazônia, em jogo na COP 30.
Poderíamos falar aqui do saque de conhecimentos tradicionais operado por indústrias de cosméticos; das práticas de turismo predatório, que mercantilizam modos de vida tradicionais; da validação de processos expropriatórios pela criação de selos verdes; da incorporação a negócios de larga escala de cultivares nativos, como o açaí, que, para entrar nos ritmos das demandas, começa a virar monocultivo. Enfim, poderíamos listar uma série de novas frentes econômicas abertas na Amazônia em tempos de capitalismo verde, mas falaremos um pouco mais de duas: o mercado de crédito de carbono e a expansão da mineração de minerais críticos.
A frente do carbono se constrói discursivamente em torno da ideia de redução das emissões, o que, em realidade, não ocorre, uma vez que esse é um mercado de compensações, em que se compra, de uma área que captura carbono, o direito de poluir em outra. A simplificação das mudanças climáticas à métrica do carbono, na prática, cria um mercado que tem imobilizado comunidades na Amazônia. Essas comunidades têm seus territórios transacionados por contratos – por meio de metodologias que pouco ou nada consideram as práticas de manejo no cálculo dos créditos –, o que as impede, na maioria das vezes, de realizar suas práticas tradicionais de gestão do território.
Outra contradição gritante desse mercado foi demonstrada em levantamento feito pelo InfoAmazonia, com assessoria científica da professora Marcela Vecchione, o qual demonstrou que 61% de todo o crédito de carbono vendido da Amazônia brasileira está em áreas destinadas à mineração, ou seja, dos 65,8 milhões de toneladas de carbono comercializadas, 40,1 milhões estão totalmente, parcialmente ou nos limites de áreas também destinadas à mineração.[4] Um setor da economia com práticas historicamente destrutivas na Amazônia, a mineração, sobrepondo-se a uma economia que se diz verde.
A análise se complexifica quando percebemos que, entre as principais empresas que compram esses créditos de carbono, estão a Uber, o iFood e o Google, o que nos faz pensar que a realização do atual modo de vida urbano informatizado se dá imobilizando territórios da vida na Amazônia.
Outra frente econômica que encontra um novo impulso de expansão no contexto da transformação das mudanças climáticas em oportunidades de mercado é a mineração de minerais críticos (cobre, níquel, manganês, lítio, grafite, terras-raras, entre outros), cujos processos extrativos se tornam magicamente verdes unicamente pelo fato de esses minerais serem usados em sistemas de armazenamento de energia, carros elétricos, painéis solares… Essa mineração é nomeada oficialmente pelo Banco Mundial como Mineração Climática Inteligente, e as corporações começam a chamá-la de mineração para a transição energética e para a descarbonização.
Longe dos holofotes discursivos, entretanto, em levantamento dos dados da Agência Nacional de Mineração, a Repórter Brasil verificou que, dos 7.718 requerimentos ativos para os minerais críticos na Amazônia, 1.827 estão a menos de 40 km de 45 grupos indígenas isolados.[5] Em matéria anterior, o InfoAmazonia, analisando os mesmos dados, já havia demonstrado que cerca de 23,88% dos pedidos de mineração de minerais críticos na Amazônia estão em área de impacto direto de 137 Terras Indígenas.[6] Essa demanda por minerais críticos também alarga processos de extração ilegal, o que podemos afirmar com base no levantamento extenso que fizemos das operações da Polícia Federal de apreensão de minérios no Pará, nas quais, além de ouro, houve diversas apreensões de manganês e cobre, minerais críticos, nesses casos, extraídos ilegalmente, sem comprovação de origem.
Um novo cerco se apresenta aos territórios da vida na Amazônia, e o discurso da vez é a transição energética e a descarbonização.
®Reconstruir a agenda política considerando os povos
A operação de transformar os responsáveis pelo caos climático em heróis da transição energética pode até convencer nas grandes cidades, por meio da grande mídia e da lógica dos algoritmos nas redes sociais, mas não convence aqueles que estão no caminho das novas frentes econômicas abertas pelo capitalismo verde. Há resistência. Há R-existência!
Temos a COP 30, mas também temos a Cúpula dos Povos, a COP do Povo e tantas outras organizações construindo articulações que deságuam em propostas de soluções e agendas políticas reais. Olvidados pelos Estados e pelo mercado, esses povos não estão apenas dizendo não a essa necroeconomia da desfaçatez; eles também estão apontando que não há justiça climática sem o enfrentamento da concentração da terra, até porque concentração de terra é concentração de energia vital, é concentração de patrimônio genético, de vida! Por essas vozes se escuta que não é possível continuar pensando a integração nacional apenas integrando frentes econômicas que sempre nos mataram; é preciso pensar em integrar os territórios da vida: quilombolas, ribeirinhos, indígenas, camponeses articulados por circuitos da vida, não atravessados por infraestruturas do colapso.
Por essas vozes ignoradas nas Conferências das Partes, também percebemos que não construímos justiça climática sem o enfrentamento do nosso atual sistema agroalimentar, pautado no monocultivo, no envenenamento e na violação ambiental, uma vez que a produção de alimento precisa significar saúde e vida, além de produção de autonomia de comunidades, por circuitos curtos de comercialização, com agroecologia, não com agronegócio.
Pelos gritos que os discursos verdes querem esconder, escutamos que não haverá justiça climática sem um real enfrentamento do colapso ambiental e que não basta frear o desmatamento: é preciso que os territórios da vida, com toda sua diversidade florestal, étnica e linguística, avancem sobre os territórios do agronegócio, da mineração e das demais frentes da destruição. Esse é o recado dos povos.
*Bruno Malheiro é professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e autor, entre outros livros, de Geografias do bolsonarismo: entre a expansão das commodities, do negacionismo e da fé evangélica no Brasil (Amazônia Latitude Press, 2023). Corroteirista do filme Pisar suavemente na terra e autor do álbum musical Segura o céu.
[1] IBGE, Pesquisa da Pecuária Municipal: 2000 a 2023, Rio de Janeiro, 2023.
[2] IBGE, Produção Agrícola Municipal: 2000 a 2023, Rio de Janeiro, 2023.
[3] Vale, Relatório de produção e vendas da Vale 2024, Rio de Janeiro, 2024.
[4] Fábio Bispo, “Mais da metade dos créditos de carbono da Amazônia está ‘contaminada’ pela mineração”, InfoAmazonia, 26 jun. 2025.
[5] Isabel Harari, “Minerais críticos ‘cercam’ 45 povos indígenas isolados na Amazônia”, Repórter Brasil, 23 out. 2025.
[6] Fábio Bispo, “Transição energética gera corrida por minerais estratégicos com 5 mil requerimentos na Amazônia”, InfoAmazonia, 11 jun. 2024.

