BIBLIOTECA PALESTINA

A ética revolucionária palestina em “Homens ao sol”, de Ghassan Kanafani

Este é um dos relatos mais impactantes sobre a catástrofe palestina. Homens ao Sol não apenas denuncia a miséria e o abandono vividos pelos palestinos exilados, como também lança perguntas incômodas ao leitor. Trata-se de uma obra que antecipa a urgência da resistência, do gesto coletivo e da recusa ao silenciamento. Com uma narrativa marcada por sofisticada elaboração formal e intensidade política, o livro se impõe como leitura essencial.

Aviso: este artigo contém revelações sobre o enredo e o desfecho da obra

– Quer saber? Eu comparo estes cento e cinquenta quilômetros à senda prometida por Deus às criaturas, que a percorreriam antes de serem direcionadas ao paraíso ou ao inferno. Se alguém cair, vai para o inferno, e, se atravessar com segurança, chega ao paraíso. Quanto aos anjos… aqui seriam os guardas da fronteira.

Poucas obras literárias marcaram tão profundamente a reflexão sobre a ação política quanto a novela Homens ao sol. E poucos escritores deixaram um legado tão impactante na história política de seu povo quanto o palestino Ghassan Kanafani, o seu autor. Esses dois elementos voltaram à tona na última semana: no dia 8 de julho, completaram-se 53 anos do assassinato daquele que ficou conhecido como “o soldado que nunca disparou uma arma; cuja arma era uma caneta esferográfica e cuja arena eram as páginas do jornal”, como registrou o The Daily Star, do Líbano, em seu obituário. Por isso, este terceiro ensaio do Especial Biblioteca Palestina é também um tributo, uma homenagem a Ghassan Kanafani.

No primeiro texto da série, revisitamos Diário da tristeza comum, de Mahmud Darwish, obra em que o poeta palestino entrelaça memória pessoal e história coletiva diante da Nakba contínua, criando um relato autobiográfico com densidade suficiente para nos aproximar, de forma ao mesmo tempo sensível e profunda, da Palestina. Em seguida, abordamos Brevíssima história do conflito Israel-Palestina, de Ilan Pappé, uma síntese rigorosa e corajosa, que enfrenta a versão colonial sionista usada para justificar a limpeza étnica, o apartheid, a ocupação militar e, agora, o genocídio em curso. Retornaremos a esses autores em textos futuros, mas, neste momento, voltamos o olhar a um dos relatos mais impactantes da catástrofe palestina e uma das convocações mais contundentes à ação, uma narrativa marcada por sofisticada elaboração formal e intensidade política. Aviso: este artigo revela o enredo e o desfecho da obra.

Homens ao sol (Rijal fi achams), escrita em 1962 e publicada no Brasil pela primeira vez em 2009 pela editora Bibliaspa, em tradução de Paulo Daniel Farah – neste ensaio, utilizamos a edição de 2023, na tradução primorosa da professora Safa Jubran, pela editora Tabla –, surge em um momento de profundo desalento para o povo palestino. Mais de uma década após a catástrofe de 1948, quando centenas de milhares de palestinos foram expulsos ou forçados a fugir com a criação do Estado de Israel, o exílio se consolidava como destino permanente, e a condição de refugiado tornava-se a norma. A resistência armada ainda não havia se estruturado enquanto movimento organizado, e o sentimento que marcava a luta palestina era, para muitos, de desorientação, impotência e fracasso político.

Nesse contexto, Kanafani constrói uma obra que, embora breve, é uma das mais simbólicas da literatura palestina moderna. Homens ao sol não apenas denuncia a miséria e o abandono dos palestinos exilados, mas também interpela com perguntas incômodas. Uma obra que antecipa a urgência da resistência, do gesto coletivo, da recusa ao silenciamento.

O enredo é ambientado no período pós-1948, entre a década de 1950 e início dos anos 1960, e narra a história de três palestinos refugiados, Abu Qais, Asaad e Marwan, que, em diferentes momentos e idades da vida, decidem empreender uma jornada clandestina rumo ao Kuwait. O objetivo comum é simples, mas carregado de esperança: encontrar trabalho, estabilidade e dignidade, negados a eles nos campos de refugiados e nas cidades do exílio. A narrativa se desenrola com um ritmo tenso e sombrio, revelando, a cada etapa, os fantasmas e as cicatrizes da perda, da miséria e do deslocamento.

A história se inicia com a apresentação dos três personagens principais, cada um em seu contexto individual, marcado pela precariedade e pela ausência de horizontes. Abu Qais é o mais velho entre eles. Vive assombrado pela lembrança da terra natal e pela sensação de impotência. Mesmo desgastado pelos anos de exílio, decide abandonar sua vida em busca de algum alívio financeiro para a família, que teve que deixar provisoriamente para trás. Sua imagem, deitado sobre o solo orvalhado, sentindo a pulsação do seu próprio coração na terra e mergulhado em lembranças, já carrega o tom elegíaco da narrativa.

Assad, o segundo personagem a ser introduzido, é um homem de meia-idade, marcado por um passado de perseguições e tentativas frustradas de escapar da pobreza. Já tentou entrar ilegalmente em outros países árabes e sofreu torturas e humilhações. É um personagem de consciência aguda, mais cínico que os demais, mas igualmente desesperado. Apesar das feridas, continua tentando, como se a sobrevivência fosse uma sequência de apostas cada vez mais arriscadas.

Marwan é o mais jovem dos três, um menino de dezesseis anos. Seu pai abandonou a família para refazer a vida em outro país, e seu irmão mais velho, que sustentava a família, foi para o Kuwait. Coube a ele a tarefa de sustentar a mãe e os irmãos pequenos. Sua juventude contrasta com o envelhecimento e o cansaço dos outros dois, mas ele também carrega, precocemente, o peso da responsabilidade e da desilusão.

Os três se encontram no sul do Iraque, na cidade de Basra, uma espécie de entreposto árido e impessoal por onde passam milhares de trabalhadores ilegais. É lá que conhecem Varapau, o motorista de um caminhão-tanque que trabalha transportando água entre o Iraque e o Kuwait. Ex-combatente da guerra de 1948, ele perdeu seus órgãos genitais na explosão de uma mina, algo que não é dito abertamente no texto, mas que se insinua de forma amarga. Apesar da mutilação física, é quem detém, naquele momento, o poder de decidir a travessia dos três homens.

Varapu propõe levá-los clandestinamente no tanque de água de seu caminhão, em troca de pagamento. A travessia implica esconder-se no compartimento metálico durante os momentos de inspeção nas fronteiras, onde o caminhão é detido e inspecionado por soldados. Ele os orienta: devem ficar em silêncio absoluto, por poucos minutos, sempre que ele pedir. O plano parece eficaz apesar do enorme desafio de enfrentar o sol ardente e, se tudo correr bem, estarão logo no Kuwait, prontos para trabalhar e enviar dinheiro às suas famílias.

A viagem começa. Durante o trajeto, o calor se intensifica brutalmente. À medida que se aproximam da fronteira, os três entram no tanque e o motorista segue para os controles. No entanto, os minutos se transformam em eternidade. Varapau é retido mais do que esperava, não por causa de alguma suspeita, mas por conversas banais, burocracia, e até uma insinuação de zombaria sexual feita por um oficial árabe. A demora é fatal.

Quando enfim retorna ao caminhão, Varapau abre o tanque e encontra os três mortos, sufocados pelo calor escaldante do compartimento metálico sob o sol do deserto. Apavorado, tenta esconder os corpos de modo que pareça que morreram naturalmente. Mas o verdadeiro impacto está no momento final, quando, diante dos cadáveres silenciosos, o motorista exclama: “Por que vocês não bateram nas laterais do tanque? Por que não disseram nada? Por quê?”. Indagações que não são apenas de desespero, mas uma interrogação política e ética.

Esse final é o ponto de virada do texto, que ressignifica toda a narrativa. A pergunta ecoa muito além da cena literal: por que os homens, mesmo à beira da morte, permaneceram calados? Por que não fizeram um último gesto de vida, de revolta, de grito? Para Kanafani, a tragédia não é só a morte, mas o silêncio. É esse silêncio, herdado da dispersão, da humilhação, do medo, que, no contexto da novela, precisa ser rompido pela luta coletiva e pela reconstrução da dignidade palestina.

Para entender este enquadramento com mais precisão, é necessário conhecer um pouco mais sobre o autor. Ghassan Kanafani nasceu em 1936, em Akka, na Palestina, e foi forçado ao exílio com sua família em 1948, após a ocupação sionista da cidade de Yafa, onde vivia. Exilou-se na Síria, no Líbano e no Kuwait. Foi professor, jornalista, editor e porta-voz da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), organização de orientação marxista-leninista e anticolonial, defendendo a libertação total da Palestina por meio da revolução socialista.

Desde sua fundação, a FPLP propôs uma análise materialista e anticolonial da questão palestina. Enxergava o sionismo como uma expressão do imperialismo ocidental no Oriente Médio e compreendia a luta palestina como parte inseparável de uma revolução socialista árabe mais ampla. Seus princípios combinavam o combate à colonização israelense com a crítica às estruturas conservadoras das elites árabes e à submissão dos regimes da região aos interesses estadunidenses e europeus. Essa visão marcou profundamente a obra de Kanafani, o que se revela em outros títulos, também disponíveis no Brasil em traduções cuidadosas da editora Tabla, como Retorno a Haifa, O que lhes restou e Umm Saad.

Kanafani foi assassinado pelo Mossad, serviço secreto israelense, em 8 de julho de 1972, em Beirute, num atentado que vitimou também sua jovem sobrinha Lamis. Sua morte representou a tentativa de silenciar uma voz que, com lucidez e coragem, fazia da palavra um instrumento de luta. Mas essa tentativa do sionismo fracassou de forma retumbante.

Ilustração: Abu Amã

Ao longo do tempo, suas obras têm sido objeto de dezenas de estudos, teses e leituras. Um desses trabalhos, realizado no Brasil, é a dissertação de mestrado em História Social de Mariane Soares Gennari, defendida em 2016 na Universidade de São Paulo com o título “O exílio palestino em Homens ao sol”. Um dos eixos centrais do trabalho de Gennari é a relação do tema do exílio com a temática da resistência. Ela dedica atenção especial à novela Homens ao sol como exemplo emblemático da denúncia das condições de vida dos refugiados palestinos e da crítica às estruturas de poder que os mantêm em situação de vulnerabilidade. A imagem dos três personagens sufocados no caminhão torna-se uma poderosa metáfora para crítica de Kanafani de certa paralisia política palestina nos anos que se seguiram à Nakba. O silêncio final dos mortos, que não bateram na parede para serem salvos, pode ser lido como uma interpelação direta ao leitor e uma convocação à ação coletiva. Trata-se de uma denúncia não apenas da ocupação israelense, mas também da inação das lideranças árabes e da necessidade de reorganização da resistência palestina.

Muitos estudos também exploram a complexa construção narrativa das obras de Kanafani, evidenciando como o autor fragmenta a linearidade temporal e descentraliza o ponto de vista, criando uma narrativa polifônica que espelha a dispersão e a multiplicidade da experiência palestina. Ao fazê-lo, Kanafani recusa a perspectiva do herói individual e propõe uma visão coletiva da luta, marcada por tensões internas, dilemas éticos e contradições históricas. Isso sem dúvida representa um gesto político, uma recusa às soluções fáceis e aos modelos redentores típicos de certa literatura nacionalista convencional.

A crítica literária Barbara Harlow, no seu importante Resistance Literature, propõe uma leitura engajada da literatura anticolonial e insere Kanafani no campo da produção textual revolucionária. No centro da análise de Harlow está o conceito de “literatura de resistência”, um tipo de produção textual que se engaja diretamente com os processos históricos e sociais da dominação e da libertação. Kanafani, nesse sentido, não apenas tematiza o exílio, a derrota e a opressão, mas mobiliza estratégias narrativas que contribuem para a construção de uma consciência coletiva.

Harlow lê a novela Homens ao sol como um exemplo paradigmático dessa estética da resistência. O silêncio final dos três refugiados que morrem sufocados dentro de um caminhão, incapazes de bater na porta para salvar suas vidas, torna-se, na leitura de Harlow, uma metáfora poderosa da inação política e da necessidade urgente de organização coletiva. A pergunta que encerra a história, “Por que vocês não bateram nas laterais do tanque?”, reverbera como um chamado à mobilização e à ruptura com a passividade histórica. Essa dimensão ética e política do texto é, para Harlow, inseparável de sua estrutura narrativa, marcada por uma crítica radical à atomização dos personagens e à ausência de solidariedade entre lideranças árabes e os palestinos.

O professor Bashir Abu-Manneh, em seu marcante livro The Palestinian Novel: From 1948 to the Present, também destaca o papel de Kanafani na construção de uma estética literária revolucionária e na formação de uma consciência nacional palestina. Abu-Manneh sustenta que Kanafani, mais do que qualquer outro autor palestino de sua geração, foi capaz de transformar a narrativa literária em instrumento de luta política e expressão coletiva diante da catástrofe e da contínua condição de exílio. Kanafani politizou radicalmente a forma do romance, fundindo a estética realista com uma ética revolucionária. Isso não significa, para Abu-Manneh, uma mera inserção de conteúdo político em estruturas tradicionais, mas sim uma reconfiguração formal da narrativa a partir das exigências históricas do povo palestino. A literatura deixa de ser apenas um espaço de representação para se tornar também um campo de ação, uma forma de interpelar o presente e projetar possibilidades de futuro.

Em 1972, o cineasta egípcio Tawfiq Saleh adaptou Homens ao sol para o cinema sob o título The Dupes (Os enganados). A principal polêmica gerada foi a alteração do final: no filme, os personagens batem na parede do tanque antes de morrerem, mas ninguém os ouve. A mudança, aparentemente sutil, transforma profundamente o significado da obra. Enquanto na novela a tragédia é fruto da paralisia histórica, da inação, no filme ela se torna uma tragédia determinada pela indiferença externa.

Ler Homens ao sol hoje, enquanto um genocídio se perpetra em Gaza diante da indiferença de muitos e poderosos setores do planeta, nos faz pensar, mais uma vez, no significado do chamado à mobilização política. A obra de Kanafani permite acessar não apenas a história do povo palestino e de suas estratégias políticas, mas o sentido profundo de sua resistência. A morte silenciosa dos três homens no deserto não é apenas um acontecimento trágico: é um aviso, um espelho, uma exigência de ruptura com o silêncio.

Kanafani nos ensina que a literatura pode ser uma arma. Que contar histórias é também um modo de lutar. Em tempos de apagamento, de colonialismo midiático, de criminalização da solidariedade, sua obra segue viva, interpelando leitores a tomarem posição. Diante da indiferença global, a pergunta final de Kanafani ecoa com ainda mais urgência, desta vez não aos palestinos, mas àqueles que assistem a tragédia em curso e nada fazem. “Por que não disseram nada?”

Os textos da Biblioteca Palestina serão publicados quinzenalmente.

 

Rafael Domingos Oliveira é historiador e educador. Bacharel, mestre e doutorando em História pela Universidade Federal de São Paulo. Foi aluno do Programa de Pós-Graduação em História Social da USP. Atua, há 15 anos, na gestão de acervos e preservação do patrimônio cultural. É membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Afro-América (NEPAFRO) e foi pesquisador do Projeto Querino (Rádio Novelo), e coordenador do Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil. É autor do livro Vozes afro-atlânticas: autobiografias e memórias da escravidão e da liberdade (Elefante, 2022) e organizador dos livros Gaza no coração: história, resistência e solidariedade na Palestina (Elefante, 2024) e Diários de Gaza, volume 1: a memória é uma casa indestrutível (Tabla, 2024). Atualmente é coordenador do Núcleo de Acervo e Pesquisa do Complexo Theatro Municipal de São Paulo.