Tsitsina Xavante, Mário Juruna e a luta dos povos indígenas no Brasil - Le Monde Diplomatique

PERFIL

Espiral do tempo: Tsitsina Xavante, Mário Juruna e a luta dos povos indígenas no Brasil

por Diego Mendonça
2 de Maio de 2018
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Samantha trilha seu próprio caminho em sintonia com seu tempo, com suas pautas, comprometimento e possibilidades. Reconhece a importância de seu pai para o país, Mário Juruna, mas tem certo que precisa fazer sua própria trajetória, inscrever sua marca nos dias correntes.

Tsitsina tinha apenas dois anos de idade quando seu pai encerrou seu mandato como deputado federal. Filha de Mário Juruna, único indígena eleito na história do país para o legislativo nacional (1983-1987), Samantha Ro’otsitsina Xavante, nome dado em homenagem a sua vó paterna, ou simplesmente Tsitsina, como se apresenta a jovem liderança indígena, vem se destacando nos espaços de mobilização e representação junto a outras mulheres que despontam no movimento indígena do Brasil.

Integrante da Rede de Juventude Indígena (Rejuind), ativa no coletivo de mulheres do movimento, graduada em Serviço Social e mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB, Samantha diz não ter contado com facilidade alguma em sua trajetória militante por ser filha de um renomado líder indígena, pelo contrário, só veio dar conta da importância política de seu pai já na faculdade, quando já atuava no movimento indígena estudantil no Mato Grosso do Sul.

Mesmo com a casa frequentada por reconhecidos líderes dos povos originários do país, como o cacique Raoni Metuktire e Álvaro Tukano, a jovem xavante não associava os amigos do pai à visibilidade e importância política que representavam. “Ele (o pai) nunca fez uma cobrança política de fato, a única coisa que falava, não só pra mim mas pra todos os meus irmãos, era: eu quero que vocês estudem, eu quero que vocês se capacitem e que um dia vocês possam contribuir com sua família e contribuir com os povos indígenas do Brasil”, conta Tsitsina durante o 15o Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília.

Sua participação no ATL começou há 10 anos, quando ainda era estudante da graduação e juntou dinheiro “o ano todo” para a viagem. A diversidade dos povos participantes, a variedade das pautas e a intensidade da disposição para a luta cativaram a universitária de Dourados (MS). Desde então, Tsitsina ampliou sua aproximação e participação no movimento indígena nacional, em especial em coletivos e redes da juventude e das mulheres, tendo inclusive colaborado na coordenação da plenária das mulheres por mais de uma vez no acampamento. Recentemente, ela esteve em Nova York representando os povos brasileiros no “Fórum Permanente sobre Questões Indígenas” nas Nações Unidas. Na agitada semana do Terra Livre, que teve início dia 23 de abril, esteve na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal.

As mulheres no movimento indígena

Esse lugar de fala e representação é fruto da conquista das mulheres dentro do movimento indígena nacional, que a cada ano vê crescer seu protagonismo dentro dos espaços das organizações e nas mediações externas.

Samantha faz parte de uma nova geração de lideranças que dão continuidade às lutas anteriores e que constroem sua própria trajetória, vivenciando outros processos em uma outra temporalidade, em uma conjuntura diferente. Junto a outras novas lideranças femininas no movimento indígena, como Telma Taurepang, Joênia Wapixana, Célia Xakriabá, dentre outras, elas formam um background, uma base sólida que contribuiu para que uma mulher, Sônia Guajajara, assumisse a coordenação executiva da maior organização dos povos originários do país, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

E a força das mulheres indígenas não tem resultado em apenas conquistas internas. Pela primeira vez na história do país uma delas é alçada a uma pré-candidatura à vice-presidência da república, na chapa do PSOL, que é encabeçada por Guilherme Boulos e que tem Sônia Guajajara como vice.

Essa capacidade de intervenção nos espaços de decisões, a representatividade e a visibilidade que a liderança Guajajara alcançou nos últimos anos têm um grande peso para as demais mulheres indígenas, que se identificam como representadas nos lugares de poder e ao mesmo tempo se sentem legitimadas em sua atuação nas comunidades, nas aldeias, onde muitas vezes ainda são questionadas por familiares ou outros membros na vida comunitária.

Esse é o sentimento expresso por Tsitsina ao falar sobre a importância da Sônia para a sua realidade, ela relata que hoje a família é mais compreensiva com suas viagens e atuação tendo como referência a coordenadora executiva da APIB.

Mas sua leitura em relação ao papel das mulheres no meio indígena vai além do reconhecimento estratégico da participação nos espaços de decisões. Tsitsina defende que a mulher tem um papel central na cultura indígena, agindo em complementariedade com os homens. Segundo sua visão, sem que as mulheres assumissem várias das responsabilidades da comunidade, os homens não teriam a possibilidade de viajar e realizar as reuniões e ações políticas demandadas.

“Muitos se perguntam: Onde estão as mulheres, elas não participam? Por quê as mulheres não têm voz? Mas se for parar pra pensar, onde estão as mulheres? Nas comunidades, nas bases, cuidando da família, sendo a provedora da cultura, a provedora da língua, da soberania alimentar, a provedora da organização social, do processo educacional. Ou seja, quem é a mulher? A mulher é tudo!”, afirma a xavante sobre o assunto.

O tempo presente e o diálogo entre gerações

Ao analisar a difícil conjuntura do país em que se tem recrudescido a violência e a criminalização contra os movimentos sociais e o movimento indígena, Tsitsina vê como um dos maiores desafios atuais a garantia dos direitos originários dos povos que vêm sendo ameaçado tanto pelo poder executivo, vide o Parecer 001/2017, chamado de Parecer Antidemarcação, assinado em julho do ano passado por Michel Temer, quanto pelo Congresso Nacional, em especial a tríade das bancadas “BBB” (Boi, Bala e Bíblia).

A revogação do Parecer 001/2017 foi um dos alvos das ações realizadas pelos indígenas durante o Acampamento Terra Livre deste ano, que teve como lema principal “unificar as lutas em defesa do Brasil Indígena – Pela garantia dos direitos originários dos nossos povos”. Além deste ato que aconteceu na Advogacia Geral da União (AGU), no último dia do acampamento ocorreu uma marcha até o Congresso Nacional que contou com mais de 3 mil indígenas das 5 regiões do país.

A respeito da união dos povos e das lutas, Tsitsina Xavante se diz otimista e vê com bons olhos a atual mobilização do país, que tem como resultado concreto o sucesso da realização de 15 encontros nacionais como o Terra Livre.

É uma conquista de sua geração na esteira e diálogo direto com as conquistas da geração de seu pai, que ainda segue presente na luta, como é o caso de Raoni e Álvaro Tukano, dentre outros. A pauta das políticas públicas e dos direitos constitucionais seriam inviáveis para os povos indígenas hoje sem a garantia mínima dos artigos 231 e 232 da Constituição (que garantem o direito ao território), além dos demais direitos sociais e culturais presentes na Carta Magna, garantias conquistadas pelos movimentos do tempo de Mário Juruna.

“O que falta então pra nós, essas gerações atuais fazer? Porque estas lideranças sem nível superior, sem domínio na escrita, muitos deles, sem domínio do português, muitos deles, e digamos sem apoio financeiro de ONGs ou financiamento internacional, ou próprio do Estado brasileiro, sim, eles estiveram aqui em Brasília, unindo-se na diversidade de povos indígenas e conseguiram fazer esse avanço que é o reconhecimento da Constituição. E hoje eu fazendo essa avaliação, eu não consigo ter uma resposta”, reflete Samantha sobre as gerações do movimento indígena. “Hoje nós temos jovens formados, mestrados, doutorados, falantes de português com boa escrita, alguns falantes de outros idiomas, mas eu sei que ainda falta algo, não sei dizer ainda o que falta”.

Enquanto esta formulação paira no ar e se dissipa como fumaça na intensidade das ações atuais, nos compromissos e avanços do presente, da resistência, da luta unificada dos povos, no protagonismo das mulheres, da juventude, Samantha Ro’otsitsina Xavante trilha seu próprio caminho em sintonia com seu tempo, com suas pautas, comprometimento e possibilidades. Reconhece a história de seu pai, a importância de ser filha dele, a importância para o país e para os povos indígenas, mas tem certo que precisa fazer sua própria trajetória, inscrever sua marca nos dias correntes.

Assim seguem os caminhos de resistência indígenas através de uma tênue linha geracional. Presente, passado e futuro ligados em defesa da vida, dos territórios e dos povos. E essa espiral do tempo nunca para, ainda mais quando resta tanto a conquistar.

 

*Diego Mendonça é educador popular e mestre em Direitos Humanos pela UnB



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