A vingança do campo - Le Monde Diplomatique Brasil

CONFINAMENTO ESVAZIA AS METRÓPOLES DE SEUS ATRATIVOS

A vingança do campo

Edição 161 | França
por Benoît Bréville
1 de dezembro de 2020
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Uma casa com jardim, protegida do estresse das grandes cidades… A ideia seduziu muitos habitantes urbanos castigados pela crise sanitária. Entretanto, a qual “vingança do campo” assistimos atualmente?

Impossível não percebê-los no metrô parisiense. “Alès, a capital onde não falta ar”, “Sologne, ar”, “Seine-et-Marne, a verdadeira grande aposta”…: desde maio, esses anúncios estão expostos nos corredores e nas plataformas para incentivar os usuários a mudar de vida, com particular insistência na linha 1, aquela que leva ao bairro empresarial de La Défense. Não faz mais de um ano, Paris enfrentava Londres, Nova York ou Cingapura na competição global para atrair sedes de empresas, grandes eventos e trabalhadores de colarinho branco com alto nível de escolaridade. Agora, as pequenas cidades roubam seus executivos seniores nos subterrâneos do metrô.

A Covid-19 passou por ali. Os confinamentos e as “medidas de contenção” reduziram a nada tudo o que fazia a atração das metrópoles: restaurantes, cafés, concertos, museus, pequenos comércios, grandes festivais, a intensidade das relações sociais, a possibilidade de viajar facilmente saltando de um aeroporto para uma estação… Em vez disso, desde a pandemia, a vida tem se reduzido ali cada vez mais ao eterno casa-trabalho-casa, e ninguém sabe realmente quando isso vai acabar. Por isso, algumas pessoas se perguntam: por que se amontoar em apartamentos apertados e caros quando os prazeres da vida urbana são proibidos? Elas não se sentiriam melhor em uma pequena cidade, ou no campo, confortavelmente instaladas em uma grande habitação com jardim? O home office parece abrir essa possibilidade a muitos assalariados ou terceirizados qualificados, enquanto o comércio on-line, que coloca todos os produtos à mão, permite que as pessoas vivam como um citadino, mas próximas da natureza.

Muitos franceses tentaram isso durante o confinamento da primavera. Assim que a medida foi anunciada, em Paris, Lyon ou Lille, as estradas e estações foram tomadas por moradores que desejavam retornar à sua segunda residência ou à casa de sua família. Nada menos que 451 mil parisienses teriam deixado a capital em março-abril, ou seja, um quarto da população da cidade e quatro vezes mais que no ano anterior.1 O mesmo fenômeno afetou a maioria das metrópoles mundiais. Em Nova York, alguns bairros ricos de Manhattan perderam mais de 40% de sua população.2 Em Londres, o Financial Times evocou uma “cidade deserta”, onde todo dia parecia domingo: “Os banqueiros desapareceram”, observou o diário da cidade, “e novas tribos, usando outros uniformes, apareceram: operários da construção com suas calças pretas reforçadas nos joelhos e suas botas empoeiradas; guardas de segurança com coletes fluorescentes andando em frente a saguões de entrada desertos; jovens vestidos de lycra correndo ou pedalando em ruas desertas”.3

“Fuja cedo, para longe, e demore para voltar.” No século V antes da nossa era, Hipócrates já professava esse remédio contra as epidemias e, em consequência, aqueles que podiam poucas vezes se faziam de rogados. Quando Avignon foi atingida pela peste negra (1347-1348), a corte pontifícia fez as malas para fugir da doença. O mesmo foi feito em Paris no século XIX para escapar da cólera. Mas, com o coronavírus, os citadinos que pegaram a chave do campo não queriam apenas se colocar ao abrigo: também buscavam uma situação mais agradável para viver o confinamento.

(Angelo Brathot/CC)
“Refúgio de paz situado na floresta”

A mídia ficou cheia desses felizes exilados, que exibiam um gosto reencontrado pela calma, pelo ar puro, pela natureza, pelos cafés da manhã em família e para os quais o período tinha um sabor de férias. Não precisou muito para que ela acabasse por falar de uma “vingança do campo”, senão das “cidades médias” e da “França periférica”, após anos de dominação esmagadora das metrópoles. Na France Culture, em 1º de abril, Brice Couturier profetizou “uma espécie de êxodo rural às avessas”, que “vai contribuir para o reequilíbrio geográfico de nossas regiões, que hoje sofrem com a desertificação do campo”. O Le Figaro (10 abr.) garantiu que “o desejo provinciano, muito presente entre os habitantes das cidades, será reforçado e favorecerá o home office”. Já o economista Olivier Babeau previu uma “ruptura dos principais equilíbrios do mercado imobiliário”, em benefício das áreas rurais, que vão tirar proveito de suas “muitas vantagens exclusivas: o preço, o ar, a tranquilidade e sobretudo o espaço, que se tornou tão precioso”.4

Desde o fim do confinamento, são incontáveis as reportagens sobre Alice e Ferdinand, ambos atores, que trocaram seu apartamento em Paris por uma casa na Normandia (France 3, 9 nov.); Céline, especialista em “animação de inteligência coletiva”, que também deixou a capital e agora trabalha de seu “refúgio de paz situado na floresta” em Sologne ou em um espaço de coworking em Vierzon, economizando dessa forma tempo para “praticar a cerâmica e a fotografia” (Le Monde, 24 jul.); Claire, professora de ioga, que encontrou a felicidade em sua segunda casa em Charente durante o confinamento e não quer mais ir embora (Marie Claire, 11 nov.); Charles e Magali, que não suportaram o retorno à cidade e se estabeleceram definitivamente no Loiret (Le Figaro Magazine, 23 out.). E também há aqueles que, como Yann, optam pela “corresidencialidade” – uma casa em Nièvre, para a natureza, e um espaço em Paris, para os filhos estudantes e reuniões profissionais (Le Parisien, 23 out.). A imprensa norte-americana e a britânica produzem exatamente os mesmos artigos, exceto por seus protagonistas, chamados Kathlyn e Andrew, e que, em vez disso, planejam migrar para o Vale do Hudson ou Kent.

Em poucos meses, as representações da geografia social francesa foram invertidas. Quando, antes da pandemia, os jornalistas se interessavam pelo destino do “interior” ou do “campo”, era geralmente enfocando os aspectos mais miseráveis da sociedade, para evocar os “coletes amarelos”, o voto no partido Reagrupamento Nacional (Rassemblement Nacional, ex-Frente Nacional), a escassez de empregos, o fechamento de pequenos comércios, o desaparecimento das estações, o preço do combustível, a monotonia das áreas residenciais, a ausência de serviços públicos, a escassez de transportes coletivos… Esses problemas desapareceram da mídia: tudo que sai das grandes cidades agora parece se resumir a uma bucólica casa com jardim. Por outro lado, as metrópoles, que há um ano eram só criatividade, inovação e inteligência, aparecem essencialmente como algo pouco atraente.

Essa reversão atesta uma incapacidade de ver o país de outra forma que não pelo prisma das classes dominantes. Se Charles e Magali ficaram felizes, o confinamento não foi um prazer para todos nas pequenas cidades e no campo. Muitos residentes continuaram a ter de ir até o trabalho; os agricultores ficaram sem braços para colher seus produtos; os idosos ficaram ainda mais isolados; numerosas pequenas lojas já frágeis receberam o golpe de misericórdia, para não mencionar a dificuldade de hospitais mal equipados (ao contrário dos de Paris)…5 Em tais circunstâncias, possuir um jardim oferece pouco consolo.

Além disso, os citadinos no exílio não se juntam ao “campo” ou à “França periférica”, mas a um certo campo próspero e atraente: o das segundas residências e das férias, no sul e no oeste do país, ou na órbita das grandes cidades. Na verdade, todas as áreas rurais, todas as pequenas cidades não precisavam se vingar das metrópoles. Algumas já iam muito bem antes do coronavírus, com uma demografia dinâmica e um mercado imobiliário florescente: Perche, Bretanha, Dordonha, Landes, Vaucluse, Vexin, Gâtinais… Frequentemente apresentada como homogênea, a “França periférica” é atravessada por grandes fraturas que um êxodo de moradores de cidades qualificados apenas acentuaria.

Além disso, a chegada de moradores ricos da cidade ao campo nem sempre é uma bênção. Claro, isso significa mais habitantes e, portanto, mais clientes para comércios e artesãos, mais impostos locais, potenciais criações de empregos… Mas ainda é necessário que os recém-chegados consumam nas lojas da região (e não on-line), que trabalhem ali (e não para uma empresa sediada em Paris), enfim, que se misturem com o tecido local e desistam de importar seus hábitos urbanos para o campo, de conceber o rural como uma extensão, uma decoração de seu modo de vida citadino. No entanto, como a geógrafa Greta Tommasi mostrou por meio do caso da Dordonha, nem sempre é esse o caso:6 antigos e novos habitantes muitas vezes têm dificuldade de se misturar, não frequentam os mesmos lugares, não têm os mesmos círculos de sociabilidade. A chegada de uma população abastada também gera um fenômeno de “gentrificação rural”, que indexa os preços dos imóveis com base nos salários das grandes cidades, impedindo que alguns autóctones, em particular jovens, consigam moradia.

O êxodo tão anunciado não está escrito, no entanto. É certo que os preços dos imóveis parisienses pararam de subir desde março – depois de terem se multiplicado por quatro em 25 anos7 –, enquanto disparam na região periférica da capital conhecida como grande coroa, onde as menores casas de condomínio de subúrbio são vendidas em poucos dias. Em sites de classificados, as pesquisas por residências próximas às grandes cidades nunca foram tão numerosas. E são unânimes: os moradores das metrópoles sonham com jardins e pequenas cidades. Mas, quando se trata de moradia, geralmente há um longo caminho a percorrer. Todos precisam conciliar seus anseios com o mercado de trabalho, a disponibilidade de serviços, a proximidade com a família e os amigos, a reputação das escolas, os preços dos imóveis etc. Portanto, os desejos nem sempre se realizam.

Aliás, os moradores das cidades não esperaram o coronavírus para sonhar com o verde. Já em 1945, a primeira vez em que o Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined) perguntou à população sobre seus desejos em matéria de moradia, 56% dos parisienses (e 72% dos franceses) responderam que gostariam de viver em uma casa com jardim. “A maioria dos franceses gostaria de ter um terreno, cultivar seu jardim e ver sua casa despontar em meio a canteiros de flores e leguminosas, longe da cidade, e só deles”, constataram os autores do estudo.

Desde então, toda pesquisa veio confirmar isso: a pequena propriedade individual representa um ideal para sete a oito franceses em cada dez. Ao contrário das autoridades públicas norte-americanas, que encorajaram o desenvolvimento de extensos conjuntos nos subúrbios, os tomadores de decisão franceses por muito tempo resistiram a essa tentação. No final da Segunda Guerra Mundial, não obstante as conclusões do Ined, eles privilegiaram a habitação coletiva e os grandes conjuntos habitacionais. “Devemos construir com rapidez e muito para recompor o país e absorver o crescimento populacional”;8 o desejo de se destacar do regime de Vichy, fervoroso defensor da ideologia de pavilhões, estava vivo e todos se lembravam do fiasco dos “conjuntos habitacionais defeituosos” do período entreguerras, aqueles casebres erguidos por incorporadoras corruptas no meio dos campos e da lama e sem manutenção. Para centenas de milhares de “mal alojados”, o sonho de uma pequena propriedade se transformara em um pesadelo e foi preciso quase vinte anos para reparar os danos.

Portanto, as autoridades há muito tempo enfatizam a habitação coletiva. Elas só reabriram as comportas do desenvolvimento de casas nos subúrbios a partir da década de 1970, causando um desgaste progressivo no espaço rural. Durante cinco décadas, os estudantes franceses aprendem que o equivalente a um departamento é concretado a cada sete a dez anos. Por vinte anos, no entanto, os governos têm definido a luta contra a expansão urbana como um objetivo prioritário – na Lei de Solidariedade e Renovação Urbana (SRU), de dezembro de 2000, na lei sobre o compromisso nacional com o meio ambiente, conhecida como Grenelle 2, de julho de 2010, naquela que se refere ao acesso à habitação e a um urbanismo renovado (Alur), de março de 2014… A necessidade de “adensar” a área periurbana, e em particular os subúrbios das grandes cidades, está no cardápio de qualquer simpósio de planejamento urbano que se preze.

Portanto, é surpreendente ouvir o atual ministro da Habitação, Julien Denormandie, alegrar-se com o desejo de um êxodo dos moradores das cidades. “O período que acabamos de viver nos faz questionar o ordenamento do território, e o que constatamos é um apetite muito forte por territórios que, em termos imobiliários, não seriam tão atraentes sem a crise”, declarou em 14 de maio.9 “O home office tem muito a ver com isso. Hoje percebemos que novos modelos sociais são possíveis.” O “modelo social”, que veria os trabalhadores de colarinho branco deixando as metrópoles em grande escala para trabalhar em suas casas em Perche ou Vexin, produziria, no entanto, uma expansão urbana considerável, que, ainda por cima, teria como resultado uma maior dependência de carros e gigantes da internet, do Zoom à Amazon. Seria mesmo um “retorno à natureza”?

 

*Benoît Bréville é jornalista do Le Monde Diplomatique.

 

1 “População presente no território antes e depois do início do confinamento: resultados consolidados”, Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), 18 maio 2020. Disponível em: www.insee.fr.

2 Kevin Quealy, “The richest neighborhoods emptied out most as coronavirus hit New York City” [Bairros ricos foram esvaziados enquanto coronavírus atingia Nova York], The New York Times, 15 maio 2020.

3 Ben Hall e Daniel Thomas, “Everyday is like Sunday in a desert City of London” [Todo dia é como domingo na deserta Londres], Financial Times, Londres, 27 mar. 2020.

4 Olivier Babeau, “Le coronavirus prépare-t-il la revanche des campagnes?” [O coronavírus prepara a vingança do campo?], FigaroVox, 24 mar. 2020. Disponível em: www.lefigaro.fr.

5 Cf. Salomé Berlioux, Nos campagnes suspendues. La France périphérique face à la crise [Nosso campo suspenso. A França periférica diante da crise], Éditions de l’Observatoire, Paris, 2020.

6 Greta Tommasi, “La gentrification rurale, un regard critique sur les évolutions des campagnes françaises” [A gentrificação rural, um olhar crítico sobre os desenvolvimentos do campo francês], GéoConfluences, 27 abr. 2018. Disponível em: http://geoconfluences.ens-lyon.fr.

7 De 2.500 euros a 10.500 euros por metro quadrado entre 1995 e 2020.

8 A população francesa cresceu duas vezes mais rápido entre 1946 e 1961 do que entre 1870 e 1946.

9 “Julien Denormandie: ‘Eu quero revitalizar as cidades médias!”, “L’Immo en clair”, SeLoger – Radio Immo – Le Parisien, 14 maio 2020.

 

 



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