Mulheres sempre existiram na Filosofia - Le Monde Diplomatique Brasil

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As mulheres sempre existiram na Filosofia

por Nádia Junqueira Ribeiro
3 de julho de 2019
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Ruth Hagengruber, diretora do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas de Paderborn, defende o papel determinante de mulheres na História da Filosofia

As mulheres influenciaram o desenvolvimento do pensamento filosófico e científico de diversas formas ao longo da história. É esta a convicção da filósofa alemã Ruth Hagengruber. Mostrar esta influência é o propósito do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas, do qual é diretora e fundadora, em Paderborn, na Alemanha. Hagengruber esteve no Brasil na última semana durante a I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia Moderna que aconteceu no Rio de Janeiro. A filósofa veio ao evento a convite de Katarina Peixoto, pesquisadora da UERJ, que esteve presencialmente com Hagengruber em Paderborn no ano passado. Naquela ocasião, Ruth disse a ela: vocês devem buscar conhecer as mulheres filósofas da sua história. Não é fato que elas não existiram, vocês apenas não as conhecem.

Hagengruber desenvolve, desde os anos 1990, este trabalho de mostrar como os escritos filosóficos de mulheres, desde a Antiguidade, contribuíram, essencialmente para filosofia. Por esta razão, o centro de Paderborn, além de oferecer aulas, conferências e cursos de verão, reúne entre dois e três mil manuscritos de filósofas digitalizados, disponíveis para estudos e pesquisas. Nesta entrevista ela afirma esta existência das filósofas ao longo da história, se contrapondo ao discurso de que haja um apagamento destas pensadoras. Ela indica como vários filósofos, como Leibniz, Descartes e Locke, sempre se referiram a filósofas e nunca se mostraram desconfortáveis em terem aprendido com mulheres.

Hagengruber enfatiza o importante papel de voltar às fontes, pesquisar manuscritos para que seja possível conhecer o trabalho destas filósofas. Para ela, este é o papel da História da Filosofia: um duro trabalho de muito estudo para que seja possível desenvolver diferentes abordagens sobre o mundo e não apenas uma única.

Na sua fala na conferência você traz parte de seu trabalho nos mostrando como sempre houve mulheres na Filosofia, desde a Antiguidade. Isto é: as filósofas sempre existiram e você trabalha com esta perspectiva positiva em contraposição à ideia de que haja um apagamento destas mulheres. Gostaria que nos contasse mais sobre esta afirmação da existência das mulheres na Filosofia.

Filósofas existiram em todo o tempo, fazendo filosofia, como os homens filósofos faziam filosofia. Isso é simples de se explicar: porque a história da Filosofia Ocidental começa com Sócrates e as professoras dele foram duas mulheres: Diotima e Aspasia. Aspasia é citada por vários filósofos, como Senofone, Platão, e outros, dizendo que Sócrates era seu aluno, etc. Ela era, inclusive, citada por ser professora de economia. Nossa história da filosofia começa com duas importantes mulheres que fizeram Filosofia e ensinaram Sócrates. Costumo dizer que elas tornaram o garoto um rei. Pense que é Sócrates que diz que a filosofia é como aquilo que ajuda algo a nascer. Ele sempre tem essa imagem de dar luz a alguém, a maiêutica. Ele sempre diz que sua mãe era parteira, isso pode ser simbólico ou não.

Por que nós não as conhecemos?

Nós as conhecemos! Porque Diotima e Aspasia têm um papel crucial em toda a História da Filosofia. Elas não são institucionalizadas, mas são lembradas pelas suas posições sociais. Isto é o caso de muitas mulheres eminentes e extraordinárias na Filosofia. A mudança cultural transformou essas mulheres, por exemplo, a Aspasia em cortesã. Até mesmo Émilie du Châtelet em amante de Voltaire. Ainda que historicamente a relação fosse outra: ela era a professora e ele era o estudante. O caso não é apenas que não conhecemos muitas delas, mas sim que a cultura cristã transformou bastante. Em poucas palavras, como podemos imaginar a história das mulheres na Filosofia da Antiguidade até hoje, como explicar os altos e baixos na história? Temos uma grande quantidade de escrita de mulheres da Antiguidade e sabemos que se tornaram conhecidas de novo no Renascimento. Sabemos, por exemplo, que a mãe de Platão era uma filósofa pitagórica conhecida. Podemos dizer que há como ondas ao longo da História. Em alguns momentos, em algumas épocas, nós vemos todas essas filósofas.

Como você avalia a metodologia através da qual é desenvolvida a nossa História da Filosofia? Por que você não acredita em um apagamento das filósofas?

Esse é um ponto que tem sido muito discutido pelas mulheres e elas dizem: nós não somos “extras”. Isto é muito importante e eu vou sempre me posicionar contra. Porque é um ponto de vista feminista e não são todas as mulheres que têm sido feministas ao longo da História da Filosofia. Há uma mudança de perspectiva quando dizem: os homens têm sido sexistas. Isto não é real para a igualdade, nem é em favor da igualdade.  A ideia de que os homens têm sido sexistas e que têm excluídos mulheres é uma perspectiva completamente diferente, compartilhada amplamente hoje em dia.

No século XVII Marie Du Gournay dizia que os grandes e verdadeiros filósofos sempre souberam que havia mulheres filósofas. Ela está dizendo que o que queremos é igualdade e que lutamos contra uma depreciação das mulheres por alguns homens. E a metodologia é desconstruir a dominação masculina, essa dominação na Filosofia não é filosófica, mas política e cultural. Isto muitas mulheres identificaram, esse poder cultural, o poder religioso. Du Gournay dizia que era completamente errado, na Filosofia, dizer que Deus é homem e ir à Igreja e dizer: oh, Deus; oh, pai. Este é um dos erros cruciais na Filosofia e na Teologia. As falhas metodológicas estão do lado dos homens e não das mulheres.

Fico feliz em dizer que os grandes filósofos reconheceram as mulheres, algo sustentado por Gournay. Platão, Descartes, Leibniz, Locke nunca hesitaram em citar mulheres. Esta é a ideia do racionalismo alemão do início do século XVIII, de que mulheres são tão fortes quanto homens. Muitos homens não se sentiam desconfortáveis em aprender com mulheres.

Como enfrentar, então, no ensino hoje em dia o fato de que estas mulheres ainda são ausentes das bibliografias e desconhecidas por grande parte dos estudantes de Filosofia?

O problema é que até mesmo na Filosofia os seres humanos são como todos os outros, eles seguem os passos já trilhados. Isto é um problema. Esta é a história de Mary Ellen Waithe (principal conselheira do Centro). Ela dizia: eu não tinha ideia de que havia mulheres na Filosofia, conhecia apenas Hannah Arendt e Hildegard von Bingen. Daí então ela foi para a biblioteca, descobriu várias filósofas na Antiguidade e começou a sua pesquisa. Foi como eu fiz, comecei essa pesquisa nos anos 1990, fui até a biblioteca, li muitos livros, fui às fontes. Eu estudei muito Platão e há muitas mulheres ali. Não é que as mulheres não estavam ali, mas se leva um caminho mais longo para chegar até elas.

Eu começo minhas aulas dizendo, hoje temos essa religião. Mas quando estudamos de verdade, vemos que antes havia outra, depois outra. Por exemplo, na religião grega havia muitas deusas também. É um olhar diferente e por isso é tão importante fazer História da Filosofia. Porque havia um problema, e não importa quem o colocava, mulher ou homem, então você enfrenta o argumento através da história. Fazer História da Filosofia é desenvolver diferentes abordagens e isto é muito importante para metodologia, não ter uma única abordagem. Para isso deve-se ler o texto, ir até a fonte. O estudo hoje é rápido e o professor quer ouvir do aluno o que ele mesmo responderia. Esta não é a forma como emergem filósofos. Eu sempre digo a quem vai a Paderborn: busque conhecer as mulheres filósofas de sua história. Porque sempre houve mulheres pensando enquanto também havia homens pensando. Você não pode dizer que elas não existiram, mas apenas: eu ainda não as conheço.

Você acredita que o papel das filósofas na História da Filosofia tem sido interdisciplinar? Como podemos identificar quais trabalhos destas mulheres são filosóficos ou não?

Eu sempre vou recusar essa interdisciplinaridade. Filosofia é Filosofia. E se eu puder dizer, em poucas palavras, o que é Filosofia, eu diria que é ontologia. O Centro de História das Mulheres Filósofas e Cientistas assim se chama porque acredito em algo próximo ao cânone filosófico. Porque não gostaria que se ampliasse no sentido de que temos narrativas aqui, outras narrativas ali. Eu sequer acredito que a Filosofia seja sobre narrativas. Penso que ela seja de ordem ontológica, como o mundo se organiza. Quando temos vários materiais, como você organiza esse material vai determinar como olhamos para o mundo. Este é parte do trabalho do Centro.

Eu, de fato, acredito que temos que cooperar umas com as outras, como mulheres. Esta é uma ação política. Mas acho também que a filosofia feminista é derivativa, vem de um ponto de vista ontológico, é secundária. É uma disciplina política, dentro da Filosofia, dentro da Filosofia Política, muito importante para a democracia e para os direitos. Mas não é toda a Filosofia. O ponto de vista feminista é muito importante para a disciplina de Filosofia Política. Você pode fazer uma abordagem feminista, mas você também pode trabalhar, como mulher, em todas as disciplinas da Filosofia sem ser feminista. Esta é uma pergunta metafísica que foi colocada por Diotima: de onde você vem quando você começa a fazer filosofia? Qual o processo crítico de onde você parte? Como você reflete criticamente do ponto de vista de onde vem? Se a gente permanece nesse mesmo ponto de vista, eu e você não temos nada em comum.

E como é o trabalho que vocês têm desenvolvido em Paderborn? Como ele dialoga com o que conversamos aqui?

Venho da tecnologia, fui professora de Filosofia da Tecnologia e Filosofia da Economia por alguns anos na Alemanha. Trabalhei nessa área e sou entusiasta da tecnologia. Acredito ser um problema que muitas mulheres fazendo filosofia e ciências sociais estejam distantes da tecnologia. Então o centro, desde o início, dá grande importância a esse campo, é o que estamos fazendo. Estamos coletando textos de arquivo e temos, desde o início, uma grande quantidade de filósofos trabalhando com mídias. Temos vários professores de Filosofia trabalhando com ensino online. Começamos este trabalho em 2012 quando oferecemos um curso de História da Filosofia, em vídeo, online.  Continuamos a fazer isso, todo mundo que vai a Paderborn dá aulas em Inglês, gravamos e publicamos essas aulas online.

Em nossas aulas combinamos ciência, mídias, música, por exemplo. Vamos focar a próxima conferência nisso: não apenas em mulheres que fazem filosofia, mas mulheres filósofas que têm feito e apresentado filmes, por exemplo. Queremos trabalhar de forma interdisciplinar. Nós estamos trabalhando junto com o pessoal da música, temos uma famosa academia de música em Paderborn. Os melhores resultados que tenho são dos alunos que estudam todo tipo de história: ciência, tecnologia, cérebro. Isso não é Filosofia, eu tenho um conceito claro de Filosofia, mas é inspiração. Com os filmes as questões filosóficas aparecem, os alunos trabalham a imaginação, necessária para elaborar as questões que devem ser feitas para a Filosofia. Por isso fazemos Filosofia de forma interdisciplinar, utilizando mídias, preparamos os estudos num alto nível de tecnologia digital.

Somos o primeiro e único centro a ter mais de dois mil documentos online com a transcrição dos manuscritos de mulheres filósofas. Ainda não podemos apresentar online porque não temos direitos, mas se você vai até o nosso centro, pode ver e ter acesso ao material. Temos uma enorme coleção bibliográfica a partir de qual construímos a ECC, a primeira enciclopédia que traz conceitos de mulheres filósofas. É um trabalho enorme, revisado. Estamos desenvolvendo instrumentos tecnológicos para quem trabalha com mulheres filósofas. Esse ponto é crucial, é como podemos caminhar adiante. Este é o futuro, além do fato de que as pessoas devem se encontrar, por isso fazemos os cursos de verão, as conferências.

Nádia Junqueira Ribeiro é doutoranda em Filosofia Política (Unicamp) e jornalista da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia. Esta entrevista teve colaboração de Franciele Petry e Otávio Vieira.



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