Bethania Pires Amaro: ‘me interessa esse espaço íntimo onde afetos e violências se misturam’
Autora de O Ninho abre especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor
A primeira entrevistada é Bethania Pires Amaro, autora do livro de contos O Ninho, publicado pela Editora Record em 2023 e vencedor dos Prêmios SESC, APCA e Jabuti.
O Ninho é daquelas obras inesquecíveis, dignas de muitas releituras. Porque, além do evidente trabalho com a linguagem, reúne tramas que discorrem sobre a maternidade, mergulham na vida privada das famílias, evidenciam as muitas disfuncionalidades nas relações e abrem espaço aos silêncios – tanto aos que confortam quanto aos que ferem.
“De certa forma, minha escrita nasce de uma escuta prolongada das mulheres à minha volta, da minha própria história, das histórias que vivem na intimidade e no cotidiano. A maternidade, as expectativas sobre o que é ser ‘boa filha’, ‘boa esposa’, ‘boa mãe’ — tudo isso aparece na minha escrita porque atravessa as mulheres o tempo todo, inclusive a mim também”, disse a autora ao Le Monde Diplomatique Brasil.
Confira a entrevista na íntegra:
Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?
Acho que sem dúvida a família, os papéis e condicionamentos das mulheres dentro de suas famílias. Me interessa esse espaço íntimo onde afetos e violências se misturam, e procuro entender como as relações familiares moldam a identidade das mulheres, especialmente através daquilo que não é dito: os pactos silenciosos, as heranças emocionais que passam por mães, filhas, avós. De certa forma, minha escrita nasce de uma escuta prolongada das mulheres à minha volta, da minha própria história, das histórias que vivem na intimidade e no cotidiano. A maternidade, as expectativas sobre o que é ser “boa filha”, “boa esposa”, “boa mãe” — tudo isso aparece na minha escrita porque atravessa as mulheres o tempo todo, inclusive a mim também.
Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância?
Acredito que a literatura não se sustenta apenas em bons enredos. O que realmente me interessa é o modo como uma história é contada: a linguagem como ferramenta de escavação, de revelação e de desconforto. Em O Ninho, muitas vezes o que acontece é mínimo — um encontro, uma ausência, um trajeto. Mas é justamente a linguagem que permite que essas pequenas fraturas ganhem potência. No conto, especialmente, tudo precisa estar calibrado: o mínimo gesto na trama precisa encontrar sua forma precisa na linguagem. Muitas vezes começo a escrever sem saber exatamente detalhes do enredo, mas com um personagem, um conflito. A história vai surgindo desse movimento, ao redor do personagem. Claro que um bom enredo contribui muito para uma boa história. No fundo, há sempre um diálogo entre os dois.
Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?
Costumo reler muitos livros durante o processo de escrita, livros que se relacionem com o meu projeto literário — eles funcionam como uma espécie de bússola criativa, me inspiram a entrar mais fundo no universo da história. Atualmente, estou revisitando a obra de Jorge Amado para um projeto em curso.
Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?
A leitura sempre fez parte da minha vida. Como muitos brasileiros, comecei lendo gibis da Turma da Mônica e a coleção Vaga-Lume, que me apresentaram ao prazer da imersão em histórias. Por isso, acredito que é essencial promover a leitura por diferentes caminhos, valorizando tudo que consiga despertar o interesse dos jovens e aproximá-los da literatura. Como escritora e contista, foi através dos contos de Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles, que primeiro me encantei pelo gênero e compreendi suas potencialidades narrativas, que até hoje influenciam meu trabalho. A precisão com que Lygia constrói seus personagens, o impacto e tensão nas suas histórias, e também a forma como ela revela as complexidades da experiência humana, tudo isso me mostrou as inúmeras possibilidades que o conto oferece.
Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?
Temos muito a celebrar, lembro que na minha adolescência eu nunca encontrava autores nacionais expostos nas livrarias, com exceção dos clássicos, e hoje essa realidade vem mudando, a literatura nacional tem obtido destaque cada vez maior seja em livrarias, eventos, clubes de leitura ou nas estantes dos leitores. Outra conquista é a crescente abertura do mercado para vozes historicamente marginalizadas — mulheres, negras, indígenas, LGBTQIA+ — que vêm conquistando espaços relevantes no cenário literário. Essa pluralidade é um avanço importante, porque torna a literatura nacional mais rica e representativa. Ainda assim, os desafios permanecem e, em muitos aspectos, se intensificam. As pesquisas vêm mostrando uma queda no número de leitores no Brasil, o que compromete não só o mercado editorial, mas também o impacto social da literatura. Esse cenário torna ainda mais necessária a implementação e fortalecimento de políticas públicas que incentivem a leitura desde a infância e promovam a formação de leitores críticos e engajados.

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?
A lista é imensa, admiro muito o trabalho de Taiane Santi Martins, Helena Machado, Calila das Mercês, Izabella Cristo, dentre tantas outras autoras que vêm chegando com livros de estreia muito potentes. Cada uma coloca em cena uma escrita que explora a individualidade, mas também dialoga com o coletivo, o social, o político. É um momento bonito da literatura brasileira, com muitas vozes novas e diversas surgindo.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?
O melhor conselho que recebi foi “não tenha pressa.” A escrita precisa de tempo, de silêncio, de maturação. Aprendi que respeitar o ritmo do texto é tão importante quanto escrever. No conto, isso é ainda mais evidente, porque cada palavra precisa encontrar seu lugar, e a reescrita, até mesmo o tempo de gaveta, são essenciais para que o texto alcance sua máxima potência. Muitas vezes, o que parece pronto precisa ainda descansar para revelar o que está faltando ou até mesmo o que está sobrando. Já o pior conselho foi justamente algo como “publique logo para não perder o timing.” Essa lógica da urgência pode ser paralisante e a pressa costuma matar aquilo que há de mais verdadeiro na escrita: a sua organicidade, o processo. Já ouvi isso mais de uma vez, como se um livro fosse um produto com data de validade. Acredito no contrário: o que é bem escrito permanece, mesmo que chegue depois.
O que move sua escrita?
Minha escrita nasce da vontade de compartilhar recortes da vida que me atravessam e me inquietam, instantes da experiência humana que, à primeira vista, poderiam passar despercebidos porque ficam escondidos dentro das casas, das famílias, dos silêncios. Vejo os contos de O Ninho como fotografias, fragmentos que buscam lançar luz sobre conflitos íntimos, familiares, e que não oferecem respostas fáceis — o mais importante, para mim, é provocar essa escuta, talvez uma identificação, um desconforto. Cada conto é um pedido ao leitor: olhe mais de perto. Olhe bem aqui, de frente.
Sobre a autora:
Bethania Pires Amaro nasceu em Recife (PE), em 1988, mas foi criada na Bahia, em Ilhéus e em Salvador. Seu primeiro livro, O Ninho, publicado pela Editora Record em 2023, foi vencedor, na categoria contos, dos Prêmios SESC, APCA e Jabuti. Reside atualmente em São Paulo, onde trabalha na Secretaria Municipal de Educação.
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

