Como desracializar o mundo sem mobilizar a própria noção de raça?
Se por um lado é urgente afirmar as experiências raciais e nomear a opressão para combatê-la, por outro essa nomeação também mantém a lógica racial funcionando
Estudo raça porque, entre todas as categorias que produzem efeitos psíquicos, é das que mais odeio. Raça aprisiona. Aprisiona o sujeito naquilo que a sociedade o faz acreditar ser seu lugar no mundo. Aprisiona na forma de sonhar, na forma de amar, de desejar, de imaginar um futuro possível. Aprisiona na maneira como os recursos simbólicos e materiais são distribuídos. Mas, principalmente, aprisiona a subjetividade. O sujeito racializado é sempre capturado antes de chegar a si mesmo: vê-se atravessado pelo olhar do outro, pela imagem pré-fabricada que o antecede. Antes de ser alguém, ele é um estereótipo. Dediquei minha vida a pensar essa categoria não porque a amo – pelo contrário, tudo em mim desejava destruí-la. Mas o racismo, o sistema de dominação que a raça organiza, foi exatamente o que pretendi combater quando me engajei nesse campo. A raça me interessou como estrutura de aprisionamento que constrói uma forma…

