Dossiê 5


Desde meados de dezembro de 2010, quando as mobilizações populares ganharam as ruas da Tunísia, estamos assistindo, surpresos, a um crescente número de revoltas populares no Norte da África. Elas atingiram o Egito, a Líbia, o Marrocos, e estenderam-se para a Costa do Marfim... Há sinais de que essas manifestações se propagam para outros países sem que se saiba até onde irão, seja em profundidade, seja no território. Em dois casos, da Tunísia e do Egito, elas derrubaram ditaduras. Na Líbia converteu-se em guerra civil e campo de intervenção da Otan. É uma crise sem precedentes na qual a população desses países sai às ruas e questiona a legitimidade e a permanência de governos autoritários. E as manifestações persistem, apesar da repressão dos governos já ter produzido milhares de vítimas fatais.



Uma das características mais inusitadas desses conflitos é o papel que cumprem o telefone celular, a internet, as redes sociais. Mas para além dessas novas ferramentas de comunicação existe um cenário, um pano de fundo, um contexto que precisa ser compreendido.



Buscar entender essas profundas mudanças em curso no continente africano requer recuperarmos, em uma dimensão histórica, a análise de como a África veio evoluindo, ou melhor dizendo, se precarizando, ao longo das últimas décadas. Pobreza extrema, aids, exploração predatória dos recursos naturais, conflitos étnicos, corrupção e ausência de políticas públicas são decorrentes de processos onde teve grande peso, por exemplo, o passado de colonização do território por parte de potências europeias.



Por outro lado, há toda uma riqueza cultural, uma expressão artística, uma diversidade, experiências na solução de problemas que passam por outros padrões de convivência, mais solidários e cooperativos, que não estão visíveis para nós. 



Os laços do Brasil com a África se estreitam cada vez mais nos dias de hoje, com a construção de um mundo multipolar onde tanto a América Latina quanto a África estão desafiadas a se articular em organizações regionais e alianças de novo tipo para superar a produção das desigualdades e assegurar padrões de desenvolvimento que busquem a efetivação de direitos.



A importante presença do negro na composição da população brasileira, os sincretismos religiosos profundos, com a forte influência da umbanda e do candomblé em nossa cultura; as múltiplas manifestações de arte; a importância da vida comunitária que se abre como alternativa ao nosso padrão individualista, tudo isso nos leva a crer que precisamos conhecer muito mais da vida, da cultura e da política do continente africano. É com essa disposição que DOSSIÊ Le Monde Diplomatique Brasil escolheu abordar o tema da “África: desafios da democracia e do desenvolvimento”.



Ao lançarmos esta revista bimestral, que abordará em suas próximas edições outros temas em profundidade, estamos buscando principalmente o público jovem, que expressa seu interesse e sua curiosidade sobre temas como essas importantes manifestações populares que se passam do outro lado do Oceano Atlântico, em um continente com o qual temos laços profundos de identidade e, cada vez mais, o empenho na busca de um futuro comum.



Procuramos produzir uma revista com grande qualidade, apresentando nesta edição a visão mais completa possível da realidade africana. Para isso contamos com a colaboração, como organizadores, dos professores Kabengele Munanga e Carlos Serrano, coordenadores do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo. Agradecemos a eles o trabalho de escolher os textos dentre os disponíveis em nosso acervo do jornal Le Monde Diplomatique e organizá-los de maneira a apresentar uma visão de conjunto da realidade africana.



Também queremos agradecer ao MUSEU AFRO BRASIL – especialmente ao diretor curador, Emanoel Araújo, e ao diretor executivo, Luiz Henrique Marcon Neves – pela cessão das imagens que ilustram nossa revista e que tanto contribuem para termos uma idéia da produção artística relacionada a esse continente.



Desejamos uma boa leitura e que você desfrute dos artigos e das imagens que trazem para perto de nós uma África muito pouco conhecida



11 de junho 2011
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