Geopolítica da fome - Le Monde Diplomatique Brasil

A INSEGURANÇA ALIMENTAR COMO PRETEXTO PARA ESTABELECER UM MODO DE PRODUÇÃO

Geopolítica da fome

por José Raimundo Sousa Ribeiro Júnior
28 de dezembro de 2020
compartilhar
visualização

Não surpreende que a falsa promessa de acabar com a fome por meio do aumento da produtividade agropecuária nunca tenha se cumprido. Verdade seja dita, desde a consolidação do setor agroindustrial, a fome continuou crescendo. Dados da FAO revelam que, antes da pandemia, uma em cada quatro pessoas no mundo passava fome: quase 2 bilhões de pessoas 

No início do século XX, as duas grandes guerras explicitaram a importância estratégica dos alimentos para os Estados nacionaisComo em outros conflitos armados, a pilhagem de alimentos dos países ocupados foi acompanhada de estratégias como bloqueios navais e cercos militares para debilitar a disponibilidade de alimentos dos inimigos. Não se tratava apenas de prejudicar os suprimentos alimentares das forças militares, mas de utilizar os alimentos como armas de guerra também contra os civis, provocando o caos em território inimigo. Por essa razão, somente na Segunda Guerra Mundial pelo menos 20 milhões de pessoas morreram de fome e doenças associadas à má nutrição, cifra similar aos 19,5 milhões de militares mortos.1

É nesscontexto que emerge a noção de segurança alimentarProveniente da terminologia militar, ela constituiu parte importante das estratégias de defesa dos Estados direta ou indiretamente envolvidos nesses conflitos. Porém, terminada a Segunda Guerra, essa noção passou a servir a novos propósitosEm um período de intensa disputa por áreas de influência política, econômica e militar entre os blocos capitalista e socialista, os Estados Unidos souberam explorar o papel estratégico dos alimentos em sua busca pela hegemonia global. Com o apoio de organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e o Banco Mundial, criadas no pósguerra, construiu-se a compreensão de que a persistência da fome na periferia do capitalismo era resultado da baixa produtividade de seus setores agropecuários, incapazes de fornecer alimentos em quantidade suficiente para uma população crescente. Ocultando que a fome era um dos produtos de séculos de dominação e colonização, impunham como única alternativa para os países periféricos a adesão a um modelo agroindustrial que prometia acabar com a fome por meio da adoção de um “pacote tecnológico”. Consolidava-se, com isso, uma noção de segurança alimentar que não problematiza as relações econômicas e sociais capitalistas (em especial a propriedade privada da terra) e que naquele momento serviu de justificativa para impor uma Revolução Verde aos países periféricos.  

A universalização do modelo agroindustrial ocorreu em meio a isso contribuiu decisivamente para a constituição de um novo padrão de dominação, que assumiu uma forma mais complexa após os processos de independência das antigas colônias europeias.2 Motivados pelos ganhos econômicos que a incorporação do alardeado pacote tecnológico poderia proporcionar, os grandes proprietários de terra (elite latifundiária) também se interessavam pela proteção política e, por vezes, militar que os Estados Unidos ofereciam a seus aliados em um contexto internacional marcado pela perspectiva de reformas sociais ou revoluções de caráter socialista.3

É nesse contexto que se consolida em escala global um setor agroindustrial caracterizado pela intensificação das trocas entre os produtores agropecuários (em especial o latifúndio monocultor, mas também os pequenos e médios produtores) e as indústrias (sobretudo grandes empresas transnacionais) que lhes fornecem bens e serviços e processam, transformam e distribuem a produção agropecuária. Gradativamente esssetor também foi atravessado pela financeirização, que penetrou tanto a atividade produtiva como a comercialização dos alimentos (commodities).  

Apesar de se apresentar como inovador e promotor da segurança alimentaresssetor reforçou o papel historicamente atribuído aos territórios periféricos na divisão internacional do trabalho, fixando-os prioritariamente como exportadores de alimentos e matérias-primas com baixo valor agregado. Nesses territórios, ele reproduz de maneira ampliada a concentração de terras e de capital, por meio da contínua expropriação de camponeses e de povos e comunidades tradicionais, além da intensa exploração da força de trabalho em toda sua cadeia produtiva, reforçando uma estrutura econômica extremamente desigual.4 Chama a atenção, nesse sentido, a combinação entre a docilidade com a qual as classes proprietárias aceitam o controle externo de suas economias e a violência que dispensam aos trabalhadores no campo e na cidade. 

(Kateryna Ivanova/Unsplash)

Além disso, oquestionáveis ganhos de produtividade obtidos por meio da integração com a agroindústria impõem uma exploração ainda mais intensa dos recursos naturais, com uma lista de consequências ambientais já bem conhecida e documentadaavanço do desmatamento, perda da biodiversidade, erosão e contaminação dos solos, poluição do ar e das águas, entre outras. Por fim, como Rob Wallace evidenciaa expansão da agroindústria está diretamente relacionada com as infecções pandêmicas, tais como a do novo coronavírus.5

Não surpreende, portanto, que a falsa promessa de acabar com a fome por meio do aumento da produtividade agropecuária nunca tenha se cumpridoVerdade seja dita, desde a consolidação do setor agroindustrial, a fome continuou crescendo. Dados da FAO revelam que, antes da pandemia, uma em cada quatro pessoas no mundo passava fome (quase 2 bilhões de pessoas), a imensa maioria em países periféricos: um quinto da população asiática (996 milhões), um terço da população latino-americana (203 milhões) e pouco mais da metade da população africana (653 milhões).6

Segundo projeções da própria FAO, os efeitos econômicos da pandemia poderão ser responsáveis pelo crescimento de 83 milhões a 132 milhões na quantidade de pessoas cronicamente desnutridas no mundo. Caso essa projeção se confirme, a pandemia será responsável por mais mortes relacionadas à fome e à má nutrição do que às infecções pelo novo coronavírus. Contudo, se 2020 por muito tempo será lembrado por conta dos efeitos desastrosos da pandemia, ao mesmo tempo foi particularmente positivo para o setor agroindustrial, que entre outros feitos atingiu uma safra mundial recorde de cereais e se beneficiou com a valorização das commodities agrícolas (o índice de preço dos alimentos da FAO atingiu seu ponto mais alto desde 2014).7

Desse modo, pandemia não fez mais do que aprofundar os danos causados pelo modelo agroindustrial e explicitar como o uso ideológico da noção de segurança alimentar serve apenas para apresentar os interesses particulares dos grandes proprietários de terra e das empresas transnacionais desssetor como se fossem interesses gerais, ocultando os antagonismos e contradições que caracterizam a forma como os alimentos e a fome são produzidos. 

 

*José Raimundo Sousa Ribeiro Junior é doutor em Geografia Humana pela USP, professor visitante do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp e membro do Grupo de Trabalho sobre a Questão Alimentar da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB-SP). 

 

1 Lizzie Collingham, The taste of war: world war II and the battel for food [O sabor da guerraSegunda Guerra Mundial e a batalha por comida], Nova York, Penguin, 1992. 

2 Florestan Fernandes, Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina, Rio de Janeiro, Zahar, 1975. 

3 David Harvey, O novo imperialismo, São Paulo, Loyola, 2012. 

4 Ariovaldo Umbelino de Oliveira, A mundialização da agricultura brasileira, São Paulo, Iãnde Editorial, 2016. 

5 Rob Wallace, Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência, São Paulo, Elefante e Igrá Kniga, 2020. 

6 Com o objetivo de não subdimensionar o fenômeno da fome, tomamos aqui os dados referentes à insegurança alimentar moderada e grave, e não aquele que remete apenas a seu estágio mais grave: a desnutrição crônica. FAO, The State of Food Security and Nutrition in the World – 2019 [Quadro da segurança alimentar e da nutrição no mundo – 2019], Roma, 2020.  

7 World food prices hit 6-year high amid COVID pandemic [Preços mundiais de alimentos são os maiores em seis anos durante pandemia de Covid], Deutsche Welle, 3 dez. 2020. 



Artigos Relacionados

JUSTIÇA AMBIENTAL DEPENDE DA JUSTIÇA RACIAL

O racismo ambiental e climático nas favelas do Rio

Online | Rio de janeiro
por Gabrielle Alves e Mariana de Paula
PRISÕES BRASILEIRAS

Não há perspectiva de normalidade para quem sempre esteve na barbárie

Online | Brasil
por Janine Salles de Carvalho e Giovanna Preti
PRODUÇÃO DE ALIMENTOS

Por que tantos acidentes de trabalho, adoecimentos e mortes em frigoríficos?

Online | Brasil
por Márcia Kamei Lopez Aliaga, Luciano Lima Leivas, Leomar Daroncho, Sandro Eduardo Sardá e Lincoln Roberto Nóbrega Cordeiro
SEGURANÇA PÚBLICA

Racismo e violência letal do Estado: um olhar a partir da Baixada Fluminense

Online | Rio de janeiro
por Adriano Moreira de Araujo
RESENHAS

Miscelânea — Resenhas

Edição 173 | Brasil
ARTES

Alice Neel, na contracorrente

Edição 173 | Mundo
por Marie-Noël Rio
QUANDO O RECENSEAMENTO DA POPULAÇÃO CARCERÁRIA SE TORNA UM DESAFIO DEMOCRÁTICO

Magia da manipulação eleitoral nos Estados Unidos

Edição 173 | EUA
por Charlotte Recoquillon
OS ECOLOGISTAS NO PODER

Diplomacia: dos programas “verdes” à realidade

Edição 173 | Mundo
por Annette Lensing