Levantar a poeira
Modernidade contra tradição, criação contra patrimônio: por razões políticas e econômicas, a dança contemporânea floresceu na África francófona, e a importância dos balés locais diminuiu ali. Irredutíveis a essa dualidade, as práticas populares mantêm viva uma dança em que se opera a transposição das relações sociais
Toda uma geração de bailarinos e coreógrafos africanos adotou o gênero e o rótulo “dança contemporânea” ou “afrocontemporânea”. Por uma razão simples: “Ela entendeu que era preciso embarcar no trem em movimento mesmo que não fosse ela a conduzi-lo”, explica a pesquisadora Annie Bourdié.[1] Os outros, parados na plataforma, à margem dos trilhos da modernização, só poderiam então ser os defensores da dança tradicional, esse misterioso folclore imóvel, imutável, ao mesmo tempo sem história, passado e ultrapassado. História contra pré-história, contemporâneo contra tradicional: tal classificação parece caricatural, mas corresponde a realidades políticas e econômicas. A dança contemporânea beneficiou-se na França de uma forte institucionalização nos anos 1980 sob Jack Lang, ministro da Cultura, e impôs a criação como critério de valor.[2] A política de cooperação internacional pretendia suscitar e promover no continente a prática dessa dança, justamente no momento em que ela se padronizava progressivamente na Europa. Mesmo que já…

