ENTREVISTA

Lilian Sais: ‘acho que sou uma autora interessada em cavoucar a minha verdade e em cavoucar a verdade atrás das coisas’

Autora de livros como Motivos para cavar a terra e As regras é a sexta entrevistada do especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor

A sexta entrevistada do especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor é a poeta e romancista Lilian Sais, autora de obras como O funeral da baleia (Patuá, 2021), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, Motivos para cavar a terra (Cepe, 2022), vencedor do 6º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, e O livro do figo (Macondo, 2023), semifinalista do Prêmio Oceanos.

Seu trabalho mais recente é As regras (DBA, 2026), romance em que a autora rememora episódios marcantes da relação com o pai atravessados pelo esporte.

Ao longo da entrevista, Lilian Sais fala sobre o luto, as dificuldades enfrentadas por autores e autoras no Brasil e a importância de Odisseia em sua trajetória como leitora e escritora.

Confira na íntegra:

As regras encerra a “tetralogia da perda”, formada por livros que você dedica ao seu pai. Qual é o papel da literatura em seus processos de luto?

Acredito que escrever esses quatro livros me ajudou a desviar a atenção da dor intensa da perda. Quando começamos a escrever sobre qualquer tema, a própria escrita nos impõe questões: há sempre muito a pensar e a resolver no campo da linguagem. Escrever é resolver problemas o tempo todo. De certo modo, isso me distraía. Em vez de remoer a perda, eu me perguntava: “Será que deixo este verbo no presente?” ou “Qual é a forma mais concisa de dizer isso, sem soar piegas?”. E foi assim que atravessei aqueles primeiros meses.

Você escreve de maneira magistral em diferentes gêneros literários. Algum deles é mais desafiador? Por quê?

Não. Cada gênero apresenta seus desafios e suas dificuldades próprias. Acho escrever difícil sempre.

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?

Acho que sou uma autora interessada em cavoucar a minha verdade e em cavoucar a verdade atrás das coisas. Sempre tento cruzar essas duas verdades, compreendê-las juntas. Fico feliz quando consigo.

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?

Odisseia é o livro que mais reli, seguramente. Estudei grego antigo por muitos anos, me tornei helenista e meu doutorado é justamente sobre as personagens mulheres da Odisseia. É um poema que me diz muito sobre a vida, sobre mim e sobre nós, ainda hoje. O livro que mais revisito entre os mais recentes é Dobra, que reúne a poesia da Adília Lopes, por que me diz muito sobre o que a poesia pode ser.

A autora Lilian Salais – Foto: Divulgação

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?

Na adolescência eu era fissurada na coleção Vagalume e nos suspenses de Agatha Christie. Li tudo que tinha na biblioteca da minha cidade tanto dessa coleção como dessa autora. Para me tornar escritora, ler três poetas foi fundamental: a Angélica Freitas, a Adília Lopes e a Adelaide Ivánova.

Em 25 de julho foi comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?

Temos que celebrar a cena atual, que é uma cena encorpada. E devemos nos preocupar com o fato de que nosso trabalho ainda não é devidamente reconhecido. Em toda a cadeia do livro, todos bem ou mal têm a possibilidade de viver do livro – as editoras, as livrarias, os profissionais do texto, os ilustradores, designers. A autora/o autor brasileiro não tem sequer essa possibilidade, salvo exceções que se contam nos dedos de uma mão. E a ironia é que sem autoria não há livro. Somos figuras essenciais para o mercado, mas isso não se reverte em ganhos financeiros, o que é triste demais, porque o dinheiro é o que poderia nos dar mais tempo para escrever, justamente. Acabamos nos desdobrando em inúmeras funções e escrevendo quando dá.

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?

Muitos, principalmente entre poetas. Não conseguiria citar um só e, se fosse fazer uma lista, correria o risco de esquecer muita gente ainda.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior? 

O pior conselho que recebi foi o de que eu devia escrever todos os dias se quisesse escrever um romance. Eu simplesmente não funciono assim e, por não funcionar assim, achei que não servia para escrita. É muito triste quando alguém tenta mediar a nossa relação com o nosso próprio processo criativo a partir de sua experiência, porque cada autora/autor funciona de uma maneira.

O melhor conselho que recebi foi o de não ligar para validações externas (sobre as quais não temos controle) e focar na minha verdade da minha relação com a escrita. Quando conseguimos fazer isso, nos vermos diante de uma liberdade radical. É o que importa, no fim das contas.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.

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