LITERATURA

Mar Becker: ‘Acho que um poema se decide exatamente aí, nessa lavoura profunda com as palavras’

Poeta nascida em Passo Fundo (RS) é a quinta entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil

Desde a sua estreia na literatura, Mar Becker tem sido apontada como uma das vozes mais autênticas da poesia contemporânea. E não é para menos: seus versos evidenciam um trabalho bastante apurado de linguagem, com cada palavra e cada silêncio precisamente encaixados.  

Em sua obra mais recente, Noite devorada (Círculo de Poemas, Fósforo), o amor e seus movimentos, desejos, aconchegos, anseios e complexidades aparecem entre os temas centrais.  

A quinta entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor (25 de julho), Mar Becker fala sobre suas obsessões como poeta, destaca a importância de Virginia Woolf e Augusto dos Anjos para sua formação como leitora e escritora. Além disso, relata seu incômodo com as figuras autoritárias que se mostram taxativas no momento de dizer como se faz e como não se faz poesia. “Sou avessa a essas verdades postas assim, de cima; prefiro estar aberta ao diverso, ao desconhecido. Testar, não saber. Ter dúvida”, disse a autora. 

Confira a entrevista na íntegra:  

Qual tema é a sua grande obsessão como poeta? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura? 

Quando volto ao que escrevo como leitora, noto certas recorrências: o corpo, o que o atravessa, o modo como deixa rastros e também padece deles (marca os tecidos, as coisas, a história, e é marcado por tudo isso). A vida íntima, a cena doméstica (não por ela em si, mas pelo que dela se depreende como busca de lugar, como sombra recaindo sobre um centro de foz arrancada, de ferida nascitura…). Também há muito do desejo de tocar nas fronteiras da língua, costear com o dizível o indizível, eriçar na letra mesma qualquer coisa de sol negro, de silêncio. O amor – e suas imagens, sua febre, seus orfanatos, seus desvãos – tem igualmente me feito visita. Acho que é por aí. 

Não sei se dividiria assim, Bruno – uma vida ‘dentro da literatura’ e ‘outra fora’. São uma carne só (do mesmo vento), imiscuem-se mutuamente, partilham o pão e se sentam à mesa com fantasmas comuns. 

Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância? 

No caso da poesia, acho que a ideia é sempre ir no sentido de fazer espelharem-se trabalho formal e enredo. Quer dizer, não há enredo nesse gênero – não no sentido com que empregamos esse termo para falar do romance ou do conto, por exemplo… Mas deve haver, me parece, um campo de ressonância comum, um fio percorrendo os poemas como um todo. Isso normalmente inclui a inclinação a certos temas ou certas buscas. Quanto à linguagem – e o que com ela se abre –, tudo o que se comentar sobre a importância do seu trato no caso da poesia será pouco. Acho que um poema se decide exatamente aí, nessa lavoura profunda com as palavras. 

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê? 

Antes de responder esta pergunta, devo dizer: leio de tudo em poesia, e gosto de muita coisa diversa, não me importo com tendência, moda, rótulo, essas coisas. Fujo de formulações do tipo “poesia é isto, não aquilo”, “poetas são estes e aqueles, não os demais”, acho que perigam ser reducionistas, empobrecedoras.  

Dito isso: regresso sempre à poesia de Rumi. Faz tempo que me acompanha o livro A flauta e a lua, em tradução de Marco Lucchesi. Junto dele, outros poetas considerados místicos: Hildegard von Bingen, Teresa D’Ávila, San Juan de La Cruz, Rabindranath Tagore…  

Por que eles? Porque me dão a vaga sensação de – estando viva – dispor de alguns minutos de trégua da vida. Ter onde descansar brevemente o sangue. 

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora? 

Em Passo Fundo, o acesso que tive aos livros foi sempre mediado por instituições públicas, de acordo com o que havia disponível nesses lugares – a biblioteca pública, a escola pública. Meu método de procura tinha menos de pesquisa e estudo e mais de intuição e oracularidade: abria uma página qualquer, e se algo dela brilhasse a mim – uma frase, uma palavra, uma ideia – prosseguia com a leitura. Assim encontrei Passeio ao farol, de Virginia Woolf, e Eu, de Augusto dos Anjos. Com o primeiro me tornei leitora, com o segundo comecei a querer escrever.  

Selfie da Mar Becker: ela tira uma selfie deitada e tem uma franja. Usa uma blusa preta.
Mar Becker
Crédito: arquivo pessoal

Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar? 

Particularmente, acho que é de se celebrar o fato de podermos usar a nosso favor e de forma autônoma as redes sociais e as plataformas virtuais de escrita (newsletters, blogs e afins), recorrendo a esses caminhos como modo de ampliar o alcance de nosso trabalho, estabelecer pontes, trocar com colegas e compor algum campo de força possível e legítima correndo à margem dos espaços disputados na grande imprensa (que são praticamente inacessíveis à esmagadora maioria). 

Para além disso, na dimensão de atividades presenciais, me alegra ver o surgimento de mais e mais clubes de leitura no Brasil como um todo. 

Sobre o que me preocupa, volto ao que dizia no começo desta resposta. Por um lado, estar conectado nos beneficia muito, democratiza o acesso e o alcance (algo importante quando não dá para contar com portas abertas de antemão, o que foi o meu caso), mas por outro tende a imprimir à escrita e às partilhas um ritmo acelerado e tumultuado, quase sempre contrário à respiração própria da palavra. Para mim (isso é pessoal), a língua respira lentamente. É um desafio conciliar esses dois registros. 

(Tenho optado bem mais pelo retiro.) 

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil? 

Certamente há um número grande de escritores e escritoras excelentes que não recebem a atenção devida em nosso país, e imagino que isso aconteça em outros lugares do mundo. Ainda assim, não sei, quem sou eu para dizer se este ou aquele deveria ser mais lido, comentado, resenhado – prefiro não me exprimir desse jeito. 

Antes, deixo o nome um poeta que acompanho há alguns anos, a obra dele me toca enormemente: Thomaz Albornoz Neves. Aqui comigo mesma, fico pensando, “Tomara que o leiam”. 

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior? 

Recebo do meu marido diariamente os melhores conselhos sobre escrita. Domenico, o nome dele – escritor maravilhoso, músico excepcional, sim sou suspeita para falar, mas é. O que ele diz? Não ter pressa, não esquecer que se pensa melhor numa obra quando se consegue vislumbrá-la no longo de um arco – há aqui um chamado à confiança no tempo. É também ele quem me fala da importância de despojar-se na medida do possível dos julgamentos dos outros (sejam positivos ou negativos), e manter-se fiel ao próprio caminho, ao que faz sentido internamente. 

Não me lembro de alguém tendo me aconselhado mal no meio literário. Também não costumo pedir conselhos, exceto para amigos muito próximos e poetas que admiro pelo trabalho e a postura ética. O que com alguma recorrência acontece, e me deixa bastante incomodada, é ter de lidar aqui e ali com uma e outra presença mais autoritária. Gente com afirmações taxativas, que surge dizendo que poesia “se faz desta e daquela maneira”, que minha escrita deveria seguir o caminho tal. “Vá por aqui, você deveria isto, você tem que aquilo”. 

Sou avessa a essas verdades postas assim, de cima; prefiro estar aberta ao diverso, ao desconhecido. Testar, não saber. Ter dúvida. 

O que move sua escrita? 

O coração, o outro fogo, a sombra da sombra, a carne de toda lágrima, o pássaro impossível. 

Sobre a escritora 

Mar Becker nasceu em Passo Fundo (RS) e vive em São Paulo (SP). Publicou Canção derruída (Assírio & Alvim/Portugal, 2023) e mais recentemente Noite devorada (Círculo de Poemas, Fósforo, 2025). 

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.  

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