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Miscelânea

1 de dezembro de 2020
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SABERES DOS POVOS DO CERRADO E BIODIVERSIDADE
Vários autores, Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Fruto de um amplo processo colaborativo, o livro é uma ode aos povos do Cerrado, verdadeiros guardiões e multiplicadores das riquezas dessa imensa região. Os povos do Cerrado são diversos. São indígenas de tronco Macro-Jê (como os Xerente, Xakriabá, Apinajé e Xavante), mas também Tupi-Guarani (como os Guarani e Kaiowá) e Arawak (como os Terena). São comunidades quilombolas, como os Kalunga, os jalapoeiros e centenas de outras pelos sertões do Cerrado. São comunidades tradicionais, tão diversas como o próprio Cerrado e que têm sua vida entrelaçada nas árvores e plantas, bichos, chapadas, vales e águas da região, como as quebradeiras de coco-babaçu, raizeiras, geraizeiras, fecho de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, benzedeiras, retireiras, pescadoras artesanais, vazanteiras e pantaneiras. São, ainda, as assentadas e assentados de reforma agrária e outras populações de base camponesa.

Os artigos que compõem esse livro ecoam a memória ancestral de que as paisagens onde a biodiversidade do Cerrado vibra não são representações de uma natureza intocada, e sim patrimônios históricos e socioculturais, fruto da convivência e cuidado dos povos com o Cerrado. Ao mesmo tempo, os relatos e análises mostram que esses saberes tradicionais vão se transformando, sendo desenvolvidos e continuamente testados, adaptados e reinventados por meio do manejo consciente das paisagens, ao longo de inúmeras gerações, e por isso mesmo são resilientes, diversos e apropriados a cada lugar. Essa conexão entre tradição e inovação – em meio a uma profunda crise ecológica mundial e mesmo após décadas de devastação do Cerrado pelo agronegócio monocultor – está entre os maiores legados dos povos do Cerrado, partilhando horizontes de vida, agora e para o futuro.

[Diana Aguiar e Helena Lopes] Respectivamente, assessora política da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e pesquisadora de pós-doutorado no CPDA/UFRRJ; e especialista em Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid e doutoranda em Ciências Sociais no CPDA/UFRRJ.

 

VIDAS NEGRAS IMPORTAM E LIBERTAÇÃO NEGRA
Keeanga Yamahtta-Taylor, Editora Elefante

O primeiro passo para enfrentar o racismo estrutural é compreender as narrativas que legitimam a opressão e entender como o modus operandi das instituições resulta em maiores taxas de pobreza e violência contra negros. Considerando isso, é possível partir para a resistência e a luta. É nesse sentido que Keeanga Yamahtta-Taylor analisa o combate à conjuntura político-social norte-americana, em que a igualdade só existe na letra morta da lei.

Taylor percorre documentos e bibliografia especializada para desvendar a retórica do daltonismo racial modelada nos anos pós-segregação: doravante o sonho norte-americano estaria disponível a todo e qualquer cidadão que primasse pelo esforço, independentemente de sua cor. Daí para o consentimento tácito da violência policial é um passo.

Em contraposição, ela destrincha a pauta do Black Lives Matter sobre a ineficácia da estratégia de remediação da violência via repressão, denunciando a diminuição constante dos investimentos sociais que poderiam a médio prazo produzir resultados mais efetivos. Em um mundo de oportunidades desiguais, a ascensão de pessoas negras torna-se exceção instrumentalizada para confirmar a regra – de que o baixo acesso aos serviços sociais de qualidade segue promovendo a marginalização de negros pobres. “Sempre houve diferenças de classe entre afro-americanos, mas é a primeira vez que elas se expressam por uma minoria de negros que exerce significativo poder político e autoridade sobre a maioria das vidas negras”, pois isso levanta questões importantes “sobre o papel da elite negra na contínua luta pela libertação e de que lado ela está.”

A autora alerta que “Exigir tudo é tão eficaz quanto não exigir nada”, cutucando os que criticam pautas identitárias em nome do materialismo histórico. É fundamental, segundo ela, que os ativistas do Black Lives Matter revejam questões não resolvidas pelo movimento negro histórico, entre elas a cooptação da luta pelo capital e a ausência de solidariedade com outros grupos marginalizados.

[Vanessa Machado] Historiadora.

 

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Educação sob vigilância

Mais de 65% das instituições públicas de educação no Brasil usam softwares baseados em modelos de negócios que extraem dados pessoais para obter previsões sobre o comportamento dos usuários e, com isso, ofertar produtos e serviços. Educação Vigiada é uma iniciativa de acadêmicos e membros de organizações sociais que apresentam no site uma ampla pesquisa para incentivar um debate na sociedade em relação aos impactos sociais da vigilância.

https://educacaovigiada.org.br

 

Atlas do Antropoceno

Toda ação humana tem impactos em outras espécies – não há vida na Terra desconectada de algum ecossistema. O Antropoceno é o período geológico em que as ações humanas causaram impactos irreversíveis ao planeta. A proposta desse site é tentar relacionar esses impactos causados por uma infraestrutura imperial e industrial. Traz inúmeros artigos e conexões interativas para que você siga alguma linha de raciocínio proposta. Foi também publicado como livro pela Stanford University Press.

https://feralatlas.supdigital.org

 

Trabalho digital

DigiLabour é uma newsletter sobre mundo do trabalho e tecnologia produzida por Rafael Grohmann, professor do mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Traz entrevistas, traduções de trechos de livros, uma varredura sobre assuntos como comunicação no mundo do trabalho; dataficação; capitalismo e cooperativismo de plataforma; circulação de sentidos; trabalho humano e inteligência artificial; organização coletiva de trabalhadores no mundo conectado. O site tem o arquivo de todas as newsletters distribuídas.

https://digilabour.com.br

 

[Andre Deak] Sócio da produtora Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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