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1 de março de 2021
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O FUTURO COMEÇA AGORA: DA PANDEMIA À UTOPIA

Boaventura de Sousa Santos, Boitempo

 

O futuro começa agora: da pandemia à utopia é um texto denso e refletido, muito bem concebido e executado, atingindo rigorosidade analítica, responsabilidade política e sensibilidade pessoal, com profunda preocupação ética. No início, somos agraciados com um apanhado histórico das pandemias, um grande esforço para contextualizar as diferentes mudanças estruturais do modo de produção e respectivas transições paradigmáticas do modo de pensamento sobre a vida, o mundo humano e a saúde. Em seguida, defrontamo-nos com um diagnóstico duro, baseado em relatos detalhados e objetivos de injustiças, iniquidades e absurdos provocados pelo impacto da pandemia na vida de pessoas, grupos, nações e lugares. Seguem-se análises sistemáticas e cuidadosas, nas quais Boaventura de Sousa Santos aplica com competência e consistência sua teoria do Estado capitalista, colonialista e patriarcal, num alentado rapport das políticas públicas de enfrentamento da pandemia em diferentes países.

Nesse livro, obra de maturidade que não esconde um vigor militante juvenil, sempre inquieto mas já impaciente, Boaventura mostra como a pandemia de Covid-19, evento crítico, episódio crucial, marco histórico que inicia um novo século, propicia uma convergência dos múltiplos focos de sua obra, numa perspectiva panorâmica, totalizante, rigorosa, consistente e ética. De muitas maneiras, portanto, o livro põe à prova, ponto a ponto, pertinência, consistência e validade do pensamento-ação boaventurano, que dele emerge fortalecido e justificado, enriquecendo todo um edifício teórico que segue em construção. Enfim, as reflexões e análises trazidas por esse exercício de retomada da ecologia de saberes retorna com novos elementos à matriz conceitual que o origina e contribui para viabilizar a utopia realista que a todos nós une, reúne e reanima.

 

[Naomar de Almeida-Filho] Professor titular de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA e titular da cátedra de Educação Básica do Instituto de Estudos Avançados da USP.

 

A REPRESENTAÇÃO DA CRIANÇA NA LITERATURA INFANTOJUVENIL: RÉMI, PINÓQUIO E PETER PAN

Isabel Lopes Coelho, Perspectiva

Se existe um campo que faz por merecer a atenção da pesquisa no Brasil é o da literatura infantil. Não nos faltam autores, editores ou livreiros oferecendo ao pequeno (e grande) leitor uma vasta gama de títulos importantes com grande qualidade editorial. Mas a literatura crítica desse gênero ainda não recebe o destaque que merece.

A representação da criança na literatura infantojuvenil preenche com maestria essa lacuna. O livro, fruto de doutoramento de Isabel Lopes Coelho, obtido pela USP, analisa três grandes clássicos da literatura infantil do século XIX: Sans famille, As aventuras de Pinóquio e Peter e Wendy.

A análise das obras é completa, feita com base em “um excerto meticulosamente selecionado por seu potencial metonímico”, “num estilo elegante e cheio de vida”, muito bem fundamentado na fortuna crítica internacional. As aspas são do professor da Unesp de Assis João Luís Ceccantini, que assina o prefácio do livro e nos lembra que a literatura para crianças e jovens é tanto reflexo quanto produtora da ideia de infância.

A metodologia da pesquisa de Coelho – pinçar trechos da obra que representam o todo – foi inspirada em Erich Auerbach e sua obra primordial Mimesis: a relação entre história e literatura. O livro da autora se divide em quatro capítulos: o primeiro apresenta um panorama histórico e cultural da literatura infantojuvenil europeia da segunda metade do século XIX, e os outros três abordam cada uma das obras icônicas, contextualizando os momentos sócio-históricos de sua publicação.

Dessa composição de vozes, as três obras ficcionais objetos da pesquisa emergem ressignificadas, e o leitor adulto vai finalmente ser apresentado a essa criança que não é uma personagem plana, criada com propósitos edificantes, e sim sujeito de sua(s) própria(s) história(s), em seus próprios termos.

O livro de estreia de Coelho é um exemplo de maturidade da crítica de literatura infantil entre nós. A obra chega pela coleção Estudos, da Editora Perspectiva.

 

[Maria Borin] Livreira.

 

 

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Indígenas contra a Covid

Está no ar a Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à Covid-19 (PARI-c), uma ferramenta de comunicação da pesquisa “Respostas indígenas à Covid-19 no Brasil: arranjos sociais e saúde global”. A pesquisa, desenvolvida ao longo de 2021, é realizada inteiramente de forma remota e conta com uma rede de pesquisadores indígenas e não indígenas em todo o território brasileiro. O objetivo é entender como os povos indígenas estão vivenciando a pandemia de Covid-19. Na PARI-c serão publicadas notas de pesquisa, ensaios fotográficos e estudos de caso estruturados em três eixos de análise: 1. Saúde, cuidado e morte; 2. Mobilidade e circulação; 3. Gênero. 

<www.pari-c.org>

 

Elas no Congresso

A revista online Azmina está medindo como cada deputada(o) e senadora(o) tem atuado em leis importantes para os direitos das mulheres no Brasil. Quanto mais favorável para as mulheres forem os projetos propostos pelo parlamentar, maior será sua nota e sua posição no ranking. Assim podemos saber quem são os aliados das mulheres no Congresso Nacional. O projeto foi selecionado pelo Google News Initiative na América Latina, programa de incentivo ao jornalismo na era digital, entre mais de trezentas iniciativas. Tem também um robô no Twitter que publica tramitações diárias de projetos de lei sobre temas de gênero.

<www.elasnocongresso.com.br>

 

Rio de balas

No ano passado, durante cem dias, o Intercept Brasil fez um trabalho jornalístico inédito: rodaram por 27 bairros do Rio de Janeiro nos instantes posteriores a trocas de tiros e coletaram do chão 137 cápsulas de munição para responder, afinal, de onde vêm as balas ditas perdidas que empilham corpos pela cidade. Quase tudo que foi recolhido é de uso restrito das polícias e das Forças Armadas, mesmo não tendo o Exército participado de nenhuma operação nos dias em que o material foi encontrado. Terminam com mais perguntas que respostas: “Se 42% de toda munição apreendida no Rio é de produção nacional, imagine só o impacto que teria na resolução de crimes se todas as balas fossem marcadas? A quem interessa a não elucidação de crimes e tráfico/desvio/roubo de munição?”. 

<http://bit.ly/arsenalglobal>

[Andre Deak] Sócio do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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