Miscelânea - Resenhas - Le Monde Diplomatique

RESENHAS

Miscelânea – Resenhas

1 de abril de 2021
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NOVA GAZETA RENANA

Karl Marx e Friedrich Engels, Expressão Popular

 

Fim de fevereiro de 1848. Ainda era inverno quando Paris sentiu o calor de um intenso processo revolucionário que irradiou por grande parte da Europa continental, entre o Atlântico e as fronteiras com a Rússia. Entre 1846 e 1848, a Europa ocidental e central viveu uma grande crise, marcada por uma depressão industrial e uma ruinosa colheita de batatas, que multiplicou o desemprego e elevou o custo de vida. Trabalhadores empobrecidos viram minguar seus já insuficientes rendimentos, tornando-os massas enfurecidas que não tinham nada a perder, apenas grilhões de uma vida miserável. Irrompe daí a Primavera dos Povos, a mais europeia das revoluções da história desse continente, iniciada naquele fevereiro de 1848 e que duraria até o segundo semestre de 1849, deixando um saldo político extraordinário para os trabalhadores. Afinal, mais do que um espectro, o comunismo anunciado pelo Manifesto do Partido Comunista materializava-se, de modo assustador para a burguesia, naqueles meses revolucionários.

Foi nesse contexto que Marx e Engels viveram, pela primeira vez, o calor das revoluções que sacudiram a Europa entre 1848 e 1849, inicialmente na França e depois na Alemanha, quando em 18 de março de 1848 explodiu o processo revolucionário. E foi aí, em junho, que mobilizaram esforços para criar um periódico diário, a Nova Gazeta Renana (NGR), que acabaria por se tornar o “órgão da democracia”, ou, como diria Engels mais tarde, de “uma democracia que destacava sempre, em cada caso concreto, o caráter especificamente proletário que ainda não podia estampar, definitivamente, em seu estandarte”.1

Na verdade, diante do reduzido alcance da Liga dos Comunistas, o comitê da revolução, na prática, transferiu-se para a NGR. Para Marx, o jornal, editado entre 1º de junho de 1848 e 19 de maio de 1849, se tornou o órgão diretivo político-ideológico que materializou sua intervenção revolucionária na Alemanha, marcando profundamente sua trajetória intelectual e política. Em suas 301 edições, com tiragem média de 6 mil exemplares, números que atestaram seu êxito editorial, Marx e Engels escreveram mais de 450 textos. Todos os preciosos artigos de Marx e de Engels – reunidos numa inédita edição completa em língua latina, com tradução, organização, introdução e notas de Lívia Cotrim – foram publicados em dois volumes (um com os textos de Marx e outro com os de Engels) pela Expressão Popular em parceira com a Fundação Rosa Luxemburgo e com sindicatos de docentes do ensino superior.

[Marcelo Braz] Professor associado do Desso-UFRN e colaborador do PPGSS-ESS-UFRJ.

1 Friedrich Engels, “Marx e a Nova Gazeta Renana”. In: Karl Marx e Friedrich Engels, Obras escolhidas, Alfa-Ômega, São Paulo, s/d, v.3, p.146.

 

 

99 TESES PARA UMA REVALORAÇÃO DO VALOR

Brian Massumi, Glac

A aproximação entre os meios e os fins da revolução anticapitalista é uma constante questão nas discussões e práticas anarquistas ao longo de sua(s) história(s). Esse aspecto se faz presente, por exemplo, na discussão entre Emma Goldman e Lenin, na qual a anarquista enuncia que meios libertários levariam a fins libertários, questionando o autoritarismo bolchevique como possibilidade de transição para uma sociedade não capitalista. Emma defendia que os valores do amanhã deveriam ser produzidos no presente, de modo que fins e meios coincidissem o máximo possível entre si.

Muitos anos depois de suas reflexões, a máxima “é hora de tomar de volta o valor” retorna como a primeira das 99 teses para uma revaloração do valor. O livro traz 99 teses escritas sequencialmente, desdobrando-se umas nas outras, mas também se interpenetrando, se desmanchando, e mantendo aberturas. Uma obra que não se encerra em si mesma. Seu ponto-final, arbitrário como todos os pontos, é movimento.

99 teses sobre a revaloração do valor é um livro urgente. Neste momento, somos convocados a “produzir conteúdo”, profissionalmente ou não, para/em plataformas de redes sociais de grandes empresas. Produzimos o conteúdo desde que se mantenha a forma. Nesse sentido, as redes integram as ecologias de poderes narradas por Massumi. Cada formação de poder que se aglutina no ecumenismo capitalista é também uma forma de captura, isto é, um aparelho que se alimenta, compara e integra a exterioridade. Todos estão aptos a comentar, a redigir, desde que dentro do mesmo registro, da mesma relação estabelecida entre afeto e engajamento. Qualquer conteúdo está sempre apto a ser bloqueado, banido, vigiado, esquadrinhado por meio de ações da empresa que os mantém on-line. Estamos submetidos a linhas algorítmicas produzidas por empresas, capturando e modulando afetos específicos e tendo nossas informações (das mais distintas) roubadas e armazenadas em seus bancos de dados. Neste tempo e neste contexto, o livro de Massumi parece frequentemente nos dizer que “é preciso tomar certa distância”. Sua convocatória à retomada do valor é também para que ousemos radicalizar os meios. Uma filosofia política do processo.

[Wander Wilson] Doutor em Ciências Sociais (Antropologia) pela PUC-SP. Trabalha como acolhedor e redutor de danos no Proad-Unifesp.

 

 

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Melhores do jornalismo on-line

Mídias tradicionais, internacionais e independentes concorrem, desde 2000, ao prêmio do Online Journalism Award, que reconhece os trabalhos mais inovadores em digital storytelling. A ideia é premiar com recursos financeiros o jornalismo investigativo, os serviços públicos, a denúncia das alterações climáticas, o jornalismo de dados e o engajamento comunitário. Sempre se leva em consideração a inovação técnica, além da qualidade da apuração. Ótimo lugar para encontrar bons exemplos de jornalismo e inovação.

Homepage

Rotas de escravizados

Historiadores, bibliotecários, cartógrafos, programadores e webdesigners organizaram informações disponíveis sobre cada navio negreiro que saiu da África entre os séculos XVI e XIX – com o nome do navio, a bandeira pela qual ele viajava, o porto de embarque e desembarque e o número de tripulantes. Sediado pela Universidade Emory, o site é a união de diversas bases de dados sobre os mais de 12 milhões de pessoas sequestradas no continente africano. Uma linha do tempo interativa mostra em um mapa todo o movimento de mais de 31 mil navios negreiros pesquisados. Sete portos apenas receberam três quartos de todas as pessoas capturadas na África que vieram pelo Atlântico. Entre esses portos estão Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

https://www.slavevoyages.org

 

Assassinados

Uma compilação de homens e mulheres que morreram porque entraram em confronto com grupos criminosos, denunciando ou ameaçando seus poderes de alguma forma. A organização Global Initiative publicou livro e site depois de anos de pesquisas escutando testemunhas e mapeando assassinatos que tiveram grande repercussão mundial, fosse em países mais ou menos desenvolvidos. Todos são pessoas que escolheram fazer da vida uma luta pela promoção da igualdade e dos direitos de todos, e por isso se tornaram um obstáculo para o poder e para as autoridades vinculadas com o crime. Marielle, presente.

The Project

[Andre Deak] Sócio do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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