O mapa do caminho se faz caminhando
As energias renováveis, por enquanto, atendem apenas a uma parcela do aumento da demanda. Não há, portanto, até o momento, substituição efetiva dos combustíveis fósseis. A cada ano, o consumo de petróleo, gás natural e até mesmo de carvão continua crescendo, embora se projete que o pico da demanda global seja alcançado na próxima década
Em 1992, o mundo se reuniu no Rio de Janeiro para a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92). Na ocasião, foi lançada a Agenda 21, um plano de ação consensual, embora não vinculante. Uma releitura desse documento revela sua impressionante atualidade ao afirmar que um dos problemas centrais para o desenvolvimento sustentável era a existência de modelos energéticos com “pouca ou nenhuma preocupação com a proteção ambiental”.
De lá para cá, as evidências científicas se acumularam na mesma velocidade com que se intensificaram as crises climáticas, demonstrando uma clara relação causal entre o aumento da concentração de gases de efeito estufa (GEEs) na atmosfera e o aquecimento global, com consequências cada vez mais dramáticas. Mesmo assim, chama a atenção o fato de que os combustíveis fósseis ainda representam mais de 80% da matriz energética mundial, segundo o Statistical Review of World Energy 2025.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), principal órgão internacional dedicado à avaliação científica das mudanças climáticas, reconhece que fatores naturais também influenciam o clima, mas conclui que o aquecimento global passou a ser a principal causa das mudanças, que se manifestam de forma crescente por meio de crises climáticas. Esse aquecimento, observado desde a segunda metade do século XIX e intensificado sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, deve-se quase exclusivamente às atividades humanas.
Essas atividades humanas estão ligadas, essencialmente, a três grandes fontes de emissão: a queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), responsável por cerca de 75% dos gases de efeito estufa, o desmatamento e a agricultura (emissões de metano provenientes da pecuária e de óxido nitroso associadas ao uso de fertilizantes).
É importante observar que as emissões produzem efeitos de longa duração, principalmente em razão da prolongada permanência do CO2 na atmosfera. Isso significa que o planeta tenderá a permanecer mais quente durante várias décadas em todos os cenários. A humanidade enfrenta, portanto, um tríplice desafio. O primeiro consiste em reduzir drasticamente as emissões de GEEs até alcançar a neutralidade climática o mais rapidamente possível. O segundo é desenvolver tecnologias capazes de remover da atmosfera parte dos gases já acumulados. O terceiro é reconhecer que as crises climáticas constituirão, mesmo no cenário mais otimista, um “novo normal”, exigindo elevados investimentos em adaptação para evitar não apenas enorme sofrimento humano, mas também custos ainda maiores para a reconstrução. Além disso, esses impactos atingem regiões e grupos sociais de forma desigual, tendendo a ampliar ainda mais as desigualdades existentes.
Conferências do clima
Agora, a Rio-92 também deu origem às Conferências das Partes (COPs) para dar continuidade às negociações climáticas. Durante muitos anos, as COPs concentraram-se principalmente na definição de metas nacionais de redução das emissões, reconhecendo o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.
O que chama a atenção é que, após trinta edições das COPs, o mundo continua altamente dependente dos combustíveis fósseis, os quais quase nunca apareceram explicitamente no centro das negociações, apesar de todos saberem que, com raras exceções, entre elas o Brasil, a maior parte das emissões decorre justamente do uso dessas fontes de energia.
Somente em 2021, durante a COP26, em Glasgow, surgiu pela primeira vez uma proposta para que os países assumissem um compromisso explícito com a eliminação gradual (phase-out) do carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis. No entanto, por pressão de alguns países do Sul Global, especialmente Índia e China, a redação foi suavizada para phase-down (redução gradual), sob o argumento de que esses Estados necessitavam de mais tempo para assegurar energia acessível sem comprometer seu desenvolvimento econômico. Recordava-se, ao mesmo tempo, que os países hoje desenvolvidos alcançaram seu nível de riqueza por causa do intenso uso de combustíveis fósseis, razão pela qual não seria aceitável impor agora regras uniformes.
Dois anos depois, na COP28, em Dubai, petróleo e gás finalmente entraram nas negociações de forma explícita. Ainda assim, não foi possível alcançar consenso nem mesmo para uma redução gradual (phase-down). A China, maior importadora mundial de petróleo, posicionou-se contra metas explícitas de redução, defendendo uma “transição energética equilibrada” que não comprometesse o desenvolvimento dos países em desenvolvimento. Rússia e Arábia Saudita, os dois maiores exportadores de petróleo, por sua vez, procuraram impedir qualquer referência direta ao petróleo e ao gás. Após intensas negociações, que se estenderam além do prazo previsto, chegou-se à conhecida e praticamente intraduzível formulação transition away from fossil fuels, algo como “transição para longe dos combustíveis fósseis”. Finalmente, deram-se nomes aos bois, mas ainda sem efeito prático. Daí Lula lançou na COP30 a proposta para que todos os países elaborassem um “Mapa do Caminho”.
Para os países do Sul Global, entretanto, qualquer compromisso dessa natureza somente seria aceitável se estivesse associado a uma transição “justa, ordenada e equitativa”. Afinal, seria inaceitável que os países responsáveis pela maior parte das emissões acumuladas nos últimos duzentos anos utilizassem o discurso climático para retirar justamente dos países em desenvolvimento os instrumentos que eles próprios utilizaram para alcançar seu atual nível de desenvolvimento.
Aumento da demanda por energia
Entre 1992 e 2023, a população mundial aumentou 45%, ao mesmo tempo que o consumo de energia per capita cresceu 26%. Ou seja, mesmo na ausência da crise climática, a energia estaria no centro da agenda internacional em razão da necessidade de ampliar a oferta para atender ao crescimento contínuo da demanda. Essa é uma questão particularmente relevante para o Sul Global, como mostra o gráfico, que evidencia duas tendências na evolução da demanda mundial por energia.

A primeira é que ela cresce de forma contínua, ano após ano, apesar dos investimentos e dos esforços voltados para a eficiência energética. As exceções foram 2008, em razão da crise financeira global, e 2020, em decorrência da pandemia de Covid-19. Talvez 2026 também venha a representar uma exceção, caso se confirme uma destruição efetiva da demanda provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A segunda tendência é a forte diferença entre regiões: observa-se uma relativa estagnação da demanda nos países ricos, um crescimento pequeno nos países do Sul Global de menor dinamismo econômico e uma expansão acelerada na Ásia, impulsionada em grande medida pela China.
Assim, embora tenham ocorrido, nas últimas duas décadas, grandes investimentos em energias mais limpas e renováveis, a capacidade instalada dessas fontes ainda não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento da demanda. Ou seja, as energias renováveis, por enquanto, atendem apenas a uma parcela, ainda que cada vez maior, do aumento da demanda. Não há, portanto, até o momento, substituição efetiva dos combustíveis fósseis. A cada ano, o consumo de petróleo, gás natural e até mesmo de carvão continua crescendo, embora se projete que o pico da demanda global, sobretudo de petróleo e carvão, seja alcançado na próxima década.
Há dois fatores que explicam o contínuo aumento da demanda por energia. O primeiro é o crescimento da renda, ainda que de forma desigual, em diversos países do Sul Global, em particular, mas não só, na China. O que se observa é que, nos países em desenvolvimento, existe uma elevada elasticidade entre renda e consumo de energia. Em outras palavras, o aumento da renda traduz-se imediatamente em um forte crescimento da demanda por energia e por produtos não energéticos derivados do petróleo (a cadeia da petroquímica-plásticos).
O segundo fator é a dinâmica demográfica, frequentemente subestimada. Na época da Rio-92, o mundo contava com 5,5 bilhões de habitantes; hoje, esse número gira em torno de 8,3 bilhões e, de acordo com o World Population Prospects 2024, das Nações Unidas, a população mundial deverá atingir cerca de 10,3 bilhões de pessoas em meados da década de 2080. Esse crescimento concentra-se principalmente na África e no sul da Ásia.
Há, portanto, uma diferença clara entre os países ricos e os países do Sul Global. Nos primeiros, o principal desafio consiste em ampliar a participação das fontes de energia mais limpas em substituição aos combustíveis fósseis, sem comprometer a segurança energética. Já nos países do Sul Global, além do desafio da descarbonização, existe a necessidade de expandir a oferta de energia para sustentar o desenvolvimento econômico e sair da pobreza.
Padrão de consumo
É tentador sugerir que não há outra solução senão mudar radicalmente o padrão de consumo, aparentemente incompatível com a urgência imposta pela crise climática para avançar na descarbonização. Certamente, há espaço para, por meio de regulação, educação ambiental e campanhas de conscientização, aumentar a eficiência energética, mas isso tem seus limites. Se é verdade que o crescimento econômico não gera automaticamente desenvolvimento, o contrário é altamente questionável. A ideologia do “decrescimento”, acompanhada do abandono da bandeira do desenvolvimento, não parece constituir uma agenda que interesse ao Sul Global. Além disso, pode facilmente agravar o conflito distributivo também nos países desenvolvidos, em detrimento das camadas populares, gerando resistências às mudanças necessárias e alimentando forças negacionistas.
Vejamos um exemplo. De acordo com dados da Organização Internacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Oica, na sigla em inglês), o número de automóveis de passeio produzidos anualmente no mundo praticamente dobrou entre 1992 e 2024, passando de 35 milhões para 67,7 milhões de unidades. É verdade que a opção pelo transporte público eletrificado é muito mais eficiente e limpa, mas não existe atualmente nenhum projeto político viável que pretenda substituir o transporte motorizado individual.
A própria China é líder em tecnologia e investimentos em transporte público, desde linhas de metrô em grandes centros urbanos até trens elétricos de alta velocidade entre cidades. No entanto, é justamente nesse país que as vendas anuais de automóveis cresceram de menos de 4 milhões, em 2000, para mais de 27 milhões em 2024. Outro exemplo são os Países Baixos, frequentemente citados como referência em transporte público bem-organizado e pela forte cultura do uso da bicicleta. Ainda assim, existe aproximadamente um automóvel para cada dois habitantes. No Brasil, essa relação é de um automóvel para cada 3,5 habitantes. A ampla oferta de alternativas nos Países Baixos permite reduzir a utilização do carro, mas não eliminá-la.
É essencial, portanto, ter clareza de que a solução não está em demonizar o padrão de vida possibilitado pelas fontes fósseis de energia. O verdadeiro desafio, nos países ricos, é descarbonizar sem reduzir a qualidade de vida; já no Sul Global, trata-se de descarbonizar enquanto se amplia essa qualidade de vida. No caso do automóvel, isso significa transformá-lo profundamente, garantindo uma alternativa de transporte individual descarbonizada que considere toda a cadeia de produção e consumo. Trata-se de trocar não apenas os pneus, mas o motor inteiro, com o carro andando. E é justamente isso que a China começou a fazer: de um lado, avançando na eletrificação do transporte individual; de outro, descarbonizando a geração de eletricidade, ainda fortemente dependente, no caso do gigante asiático, da queima de carvão.

Tecnologia interessa, sim
O caso da China reforça também a importância de apostar em avanços tecnológicos. Infelizmente, assim como ocorreu com o conceito de desenvolvimento, difundiu-se a percepção de que a questão seria apenas política. As soluções já estariam ao nosso alcance, faltando apenas vontade política para “apertar o botão certo”. Isso não ocorreria, sobretudo em razão da influência de interesses financeiros e de lobbies empenhados na defesa de privilégios ancorados na matriz energética existente, bem como de burocracias resistentes à mudança.
Não há dúvida de que esses lobbies existem, atuam e devem ser desvendados e neutralizados. Infelizmente, porém, o caminho é bem mais complexo.
As tecnologias atualmente disponíveis para produzir e consumir energia de forma mais limpa estão longe de ser suficientes para oferecer todas as respostas de que precisamos, sem negar o direito ao desenvolvimento e sem agravar o conflito distributivo.O que efetivamente atrasa esse processo é a predominância de investimentos voltados para retornos financeiros de curto e curtíssimo prazo. Por isso, é fundamental investir de forma consistente em pesquisa, desenvolvimento e inovação de médio e longo prazo, orientados por objetivos estratégicos, com coordenação estatal e cooperação internacional. Essa deve ser a base do mapa do caminho.
Novas rotas tecnológicas precisam ser exploradas, como aquelas voltadas à captura e ao armazenamento de GEEs ou novas gerações de energia nuclear, entre muitas outras. Não haverá uma bala de prata; haverá, sim, um conjunto de soluções adaptadas a diferentes contextos geográficos e econômicos. Não existe, por exemplo, uma contradição intrínseca entre a aposta brasileira nos biocombustíveis e a eletrificação da frota. Se houve atraso na eletrificação do transporte individual no Brasil, isso se deve muito mais às estratégias de investimento das montadoras aqui instaladas, que agora enfrentam um choque competitivo com a chegada das fabricantes chinesas.
A China revela também um aparente paradoxo. Ao mesmo tempo que responde por cerca de metade da expansão mundial da capacidade instalada de energia eólica e solar e lidera o avanço da eletrificação do transporte, continua sendo o maior importador de petróleo do mundo, é responsável por metade de todo o carvão queimado globalmente e emite, sozinha, mais gases de efeito estufa do que os Estados Unidos, a União Europeia, o Reino Unido e o Japão juntos. A fotografia, portanto, ainda é bastante desfavorável. O filme, porém, promete ser diferente, justamente porque a China procura concentrar esforços tecnológicos na busca de soluções duradouras que conciliem crescimento econômico, soberania energética e o imperativo da descarbonização, o tripé da transição energética.
*Giorgio Romano Schutte, coordenador da Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFABC e bolsista produtividade CNPq, e Igor Fuser, professor de Relações Internacionais e docente permanente das pós-graduações em Engenharia de Energia e em Economia Política Mundial da UFABC, são membros do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (Opeb) e autores do livro Transição energética (Editora Blucher, 2025).

