ENTREVISTA

O museu nunca pode ser neutro

João Fernandes, diretor artístico do Instituto Moreira Salles, discute o papel das instituições culturais e dos acervos artísticos na sociedade contemporânea 

Um acervo, seja ele composto por fotografias, textos, ilustrações ou arquivos sonoros, guarda as narrativas que compõem a história de uma comunidade. Ao contrário do que se pensa ao caminhar pelas prateleiras silenciosas de uma coleção arquivística, sua natureza é o movimento. Quando é exposto ao público, os fragmentos do passado que estão guardados em um museu são capazes de influir sobre a realidade contemporânea, servindo de motor para sua transformação. 

“É muito importante que os acervos sejam um instrumento para adicionar histórias à ‘história’ que muitas vezes a História não contou, porque ela sempre foi contada por quem tinha o poder,” resume João Fernandes, diretor artístico do Instituto Moreira Salles. 

Interior do Instituto Moreira Salles – Foto: Divulgação

Para ele – que antes de chegar ao IMS foi subdiretor do Museu Reina Sofía, em Madri, e diretor do Museu de Serralves, em Porto – a função social de uma instituição cultural reside em seu poder de estimular as diferenças. A partir de seu acervo, seja ele composto de arte contemporânea, de fotografias antigas ou de gravações musicais, um museu deve abrir espaços de discussão, através das várias emoções e juízos que um conjunto de obras provoca em cada indivíduo que passeia com o olhar sobre elas. 

Nascido em 1964 em Bragança, Portugal, João Fernandes, que comanda o instituto desde 2019, fala sobre as exposições em cartaz no IMS Paulista, “Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello” e “Zumví Arquivo Afro Fotográfico” e reflete sobre a importância de alfabetizar visualmente as pessoas para a contemporaneidade. 

O IMS é mais do que um museu, é também biblioteca, arquivo, cinema, centro cultural. Nos últimos anos o instituto vem trabalhando com exposições bastante diversas. Em geral com foco na fotografia, mas também tocando a literatura, o cinema e a história social. Qual a importância de colocar as artes em diálogo na programação? 

O IMS é uma instituição que começou com os seus acervos. Nessa medida, ele também é museu. Mas porque construiu acervos nas áreas de literatura, fotografia, iconografia, música, arte contemporânea e fotolivro, ele também explora essas formas. Os acervos são um dos motores da programação das exposições do IMS. Eles nos levam a divulgar a memória do país e a visitar seu presente em função da edificação dessa memória. 

É muito importante que os acervos sejam um instrumento para adicionar histórias à “história” que muitas vezes a História não contou, porque ela sempre foi contada por quem tinha o poder. Queremos contar uma história de um país, de um povo, das suas vivências, a partir de outras visões que possam protagonizar a cultura – se a história do Brasil foi oficialmente contada pela branquitude, é muito importante contá-la sob as óticas afro-brasileiras e indígenas. 

Por isso, os nossos acervos também têm dialogado com acervos de fora do IMS. Neste momento, temos a exposição “Zumví Arquivo Afro Fotográfico”, da cidade de Salvador, na Bahia, que é um dos arquivos mais impressionantes de fotografia das classes trabalhadoras e das vivências e das lutas das populações negras baianas ao longo das últimas décadas, desde 1978, que é a data de criação do Movimento Negro Unificado.

É toda uma outra história contada por outros sujeitos, que não eram dominantes. Não é por acaso que é a primeira vez que se faz uma exposição museológica dessa coleção. A exposição é um contributo para que o arquivo seja conhecido pelos brasileiros, porque eles têm direito a conhecê-lo. Há muitas imagens, muito passado que o Brasil ainda não conhece. Por isso, o trabalho que nós fazemos procura adicionar histórias à história que se conhece. Essa é a nossa missão enquanto instituição que trabalha com a memória.

Essa diversidade também diz respeito à origem geográfica das exposições. Por que buscam equilibrar uma curadoria nacional com a apresentação de artistas estrangeiros? 

Nós procuramos, quando apresentamos artistas estrangeiros, aqueles que possam ser interessantes pela interação que as suas obras permitem construir com temas e problemas internos de nossos acervos. Por exemplo, quando apresentamos Agnès Varda, nós trazemos não só aquilo que é bastante conhecido no Brasil, seu trabalho como cineasta, mas sua fotografia. Foi a primeira exposição a acompanhar toda a vida da artista, suas viagens e o seu posicionamento perante os movimentos do mundo. Trazer a Varda fotógrafa e fazer essa obra interagir com seu cinema foi algo que, numa instituição que tem uma programação de cinema e um dos maiores arquivos de fotografia no Brasil, fazia sentido.

Foi assim com Gordon Parks, o fotógrafo afro-americano mais importante da história da fotografia nos Estados Unidos e o primeiro cineasta afro-americano em Hollywood. Portanto, sendo uma instituição de programação de cinema, onde a presença de um negro americano é tão importante, e onde a fotografia é contada a partir de histórias que até hoje não têm sido contadas – em nossa programação, Parks é antecedido por Walter Firmo e seguido do Arquivo Zumví – tudo isso cria coerência entre o que acontece no Brasil e o que aconteceu no mundo.

De certo modo, as nossas programações são pensadas em função da rua onde estamos, a Avenida Paulista; em função da cidade onde estamos, São Paulo; em função do país onde estamos, o Brasil; e em função do mundo onde estamos. Fazer cruzar, do ponto de vista interseccional, todas essas realidades geográficas, culturais, políticas e sociais é muito importante.

Localizado em um dos principais polos culturais e de diversidade de São Paulo, na Avenida Paulista, o IMS tem entrada gratuita. Como essa questão do acesso e a gratuidade impactam no pensamento curatorial? 

Não impacta porque nós fazemos nossas exposições para todas as pessoas, independentemente da sua condição econômica, social ou profissional. Mesmo quando as exposições incidem sobre temas especializados, procuramos abordá-las de forma que sejam de total acessibilidade para qualquer pessoa do Brasil que as deseje ver. Nós pensamos na capacidade sensível de todos, independentemente das situações que, no Brasil, uma sociedade muito desigual, criaram dificuldades de acesso. 

Somos uma instituição privada, criada por uma família abastada, que resulta de uma devolução ao Brasil de muitas das condições que permitiram construir essa fortuna. Isso acontece hoje em muitos museus e instituições culturais do mundo inteiro, em que o contributo privado ajuda à construção de espaço público para conhecer a arte e a cultura do tempo em que nós vivemos, e com isso ampliar os direitos cidadãos. Ou seja, a arte e a cultura são instrumentos de cidadania. Nós procuramos que as nossas programações promovam essa conexão com uma cidadania esclarecida – isto é, consciente da sua história, da sua memória e do seu presente.

A exposição “Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello” se destaca neste momento no IMS por sua diversidade de formatos artísticos e textuais. O que motivou essa exposição tão distinta?

Quando eu cheguei ao Brasil, havia cidades que eu já conhecia, São Paulo e Rio de Janeiro, mas eu não conhecia Poços de Caldas [onde o IMS tem sede]. Desde então, venho procurando também saber qual é a história dessa cidade, sempre atento não só à história oficial – porque nós sabemos, é a cidade onde as pessoas vão passar a lua de mel, com as águas termais… mas quais são as outras histórias dessa cidade? Nesse processo, descobrimos pessoas nascidas ali que eram capítulos importantes da história do Brasil, como Laudelina de Campos Mello. 

João Fernandes, diretor artístico do Instituto Moreira Salles – Foto: Isabel Praxedes/Divulgação

Que mulher! Sua história daria um filme, um enredo de escola de samba. Uma mulher que, consciente da extrema desigualdade que o trabalho doméstico reproduziu, das injustiças que uma sociedade escravocrata tinha criado, foi uma das primeiras grandes lutadoras pela dignidade e as condições de trabalho das trabalhadoras domésticas. Na década de 1930, ela lutou por direitos que ainda hoje continuam a ser objeto de luta.

Mas Laudelina não foi apenas sindicalista, foi um importante agente cultural das culturas afro-brasileiras. Ela criou os bailes da Pérola Negra, na região de Campinas, que fizeram parte de uma mobilização decisiva para o reconhecimento da dignidade do povo afro-brasileiro. Criou os primeiros salões campineiros de artes visuais, onde artistas negros importantes expuseram pela primeira vez.

Como a programação tem que ser também atenta aos locais onde os nossos centros culturais estão, essa pesquisa nos levou ao encontro com Laudelina, que é a primeira exposição que fazemos com início em Poços de Caldas para depois vir a São Paulo. É exemplo de como uma pequena cidade conta uma história relevante para a cidade grande e para todo um grande país como o Brasil.

A fotografia costuma ser vista como um convite mais difícil de público do que uma grande exposição de artes plásticas. Como o IMS pensa a atração de público a essa linguagem?

A fotografia é um suporte que está em permanente redefinição. Hoje, com as imagens virtuais, com a inteligência artificial, a relação entre fotografia e realidade se alterou significativamente. Se a fotografia foi um momento de confirmação visual da realidade, hoje ela deixou de ser isso. Mas pensar a partir da imagem é fundamental no nosso tempo para construir uma consciência perante um universo em que a imagem passou a ser instrumento de manipulação. 

Por isso, alfabetizar visualmente as pessoas com a história da fotografia, com as questões da imagem, faz parte da construção de uma cultura e de uma consciência cívica contemporânea. Em um mundo em que falsificações dos próprios acontecimentos são tão evidentes e, ao mesmo tempo, tão escondidas, é importante alfabetizar visualmente as pessoas. A fotografia, enquanto espelho da estruturação do nosso tempo e da vida contemporânea, é um grande tema da nossa programação e dos nossos acervos.

É aí que fotografia e arte contemporânea se cruzam, porque promove-se toda uma história da fotografia que nós temos no IMS, praticamente desde a sua origem até artistas que hoje divulgamos na revista Zum, onde jovens como Mayara Ferrão apresentam um trabalho que reconhece a inteligência artificial como forma de construir imagens que não aconteceram e refletir sobre a realidade histórica. Há todo um repertório que permite compreender o passado, mas com a função de uma interpretação do presente, que para nós é sempre essencial.

No site do IMS o pequeno texto de apresentação do seu trabalho diz que quando estava no Museu Reina Sofia, em Madri, você comandou “um museu ‘radical’, que não cedeu à tentação de realizar grandes exposições blockbusters”. Continua fazendo isso no IMS? 

Eu não uso a palavra “radical” em relação ao meu trabalho. Será que é radical trabalhar com a arte contemporânea ou construir interpretações da realidade? Deixo essa resposta às pessoas que visitam as nossas programações. Mas talvez esse adjetivo tenha origem no fato de eu ter trabalhado no Reina Sofía, que está entre os grandes museus mundiais, tentando contar a história da arte a partir da história social e política. Foi um museu consciente da história colonial espanhola, construído para receber a “Guernica” de Picasso, que se organizou como um museu da democracia espanhola. Picasso não deixou que o quadro fosse apresentado na Espanha enquanto o fascismo fosse vigente.

No Reina Sofía, contávamos a história da arte a partir da Guerra Civil Espanhola, tomando o ponto de vista dos perdedores, os republicanos. Isso nos levou a interrogar o passado colonial espanhol e interpretar de outra maneira o presente e as possibilidades de articulação entre aquilo que fazíamos na Europa e o que acontecia na América do Sul. Trabalhar com a arte do nosso tempo implica interrogá-lo. Eu acho que isso não é radical, isso é atual. O presente é radical e temos que acompanhá-lo.

O que me seduz na arte é o estímulo das diferenças. Nenhum de nós sente a mesma coisa diante da mesma obra de arte, gostemos dela ou não. Mesmo quando gostamos em conjunto, não gostamos pelo mesmo motivo, não sentimos da mesma maneira. Mesmo quando discordamos de uma obra de arte, discordamos por razões diferentes. A arte é um confronto conosco mesmos e com a diferença de opiniões. Ao contrário do que acontece com o discurso político, que procura construir consensos, a arte é um permanente estímulo da diferença. Quanto mais a sociedade estimular as diferenças, mais poderemos estar bem uns com os outros. 

Essa é a função social de uma instituição cultural, de um acervo aberto às suas interpretações. Por isso, o museu nunca pode ser neutro. Uma instituição cultural nunca pode ser neutra; ela constrói um espaço para todas as opiniões poderem entrar em discussão, através das várias sensações, emoções e juízos que nós possamos ter a partir daquilo que se apresenta nela.

Quais os principais projetos do futuro próximo do IMS?

Nós vamos continuar a dar visibilidade a nomes do nosso acervo. Por exemplo, um patrício meu que veio para o Brasil fugindo ao fascismo português, o fotógrafo socialista Fernando Lemos, que foi um protagonista da cena fotográfica e artística paulistana. Juntamente com esse grande nome da fotografia, nós vamos trazer um grande fotógrafo turco, Ara Güler, no final deste ano.

No próximo ano, entre várias exposições, posso anunciar uma que vai marcar a história do instituto e da sua relação com o seu acervo: pela primeira vez, vamos apresentar o acervo do Instituto Moreira Salles numa exposição que vai ser uma síntese da ideia de que um acervo é instrumento para contar histórias. A exposição, vai cruzar nossos acervos de fotografia, de arte contemporânea, de literatura, de música e de iconografia para contar histórias do Brasil – histórias que se encontram nos nossos acervos e devem mostrar às pessoas como os arquivos podem fornecer pistas e revelações sobre a sua própria história.

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