Os “inocentes úteis” do Pentágono - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

Os “inocentes úteis” do Pentágono

por Serge Halimi
1 de fevereiro de 2018
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Em Washington, democratas e republicanos se entendem, pelo menos, quando se trata de combater a Rússia. Segundo eles, Vladimir Putin duvida da determinação dos Estados Unidos de defender seus aliados e quer preservar seu regime autoritário do contágio democrático e liberal. Por isso, teria se decidido pela agressão ao Ocidente. Então, a fim de garantir a paz e a democracia, o Exército norte-americano e os parlamentares dos dois partidos resolveram contra-atacar…
Primeiro, o Exército norte-americano. Obedecendo a uma ordem da Casa Branca, o Pentágono acaba de completar um estudo que preconiza um emprego mais generoso das armas nucleares.1 Estas, atualmente destrutivas demais para que sua utilização seja sequer imaginável, não desempenham, portanto, seu papel de dissuasão; conviria, pois, miniaturizá-las, para que possam servir contra um leque mais amplo de ameaças. Ameaças, inclusive, “não nucleares”: destruição de redes de comunicação, “armas químicas, biológicas, ciberataques” etc.


Em 2016, sem saber muito bem quais eram os próprios fundamentos da dissuasão, o candidato Donald Trump teria perguntado a um de seus consultores: “Para que possuímos armas nucleares se não as usamos?”.2 O documento do Pentágono dá uma resposta à sua maneira. Diante das “ambições geopolíticas” da Rússia (e também da China), o desejo de Moscou de “modificar pela força o mapa da Europa” e “questionar a ordem internacional instaurada após o fim da Guerra Fria”, os Estados Unidos devem apressar a “modernização de suas forças nucleares”, a fim de continuar no papel de “sentinelas fiéis da liberdade”. Essa abnegação democrática não tem preço – ou melhor, tem: a triplicação do orçamento militar norte-americano destinado às armas nucleares.
Esse alarmismo geopolítico a serviço de uma nova corrida armamentista suscitaria oposição nos Estados Unidos se, há um ano, a chamada esquerda norte-americana não viesse se esforçando para apresentar Trump como uma marionete de Moscou.3 Ela chegou a ponto de obrigá-lo a entregar armas à Ucrânia (coisa que seu predecessor democrata se recusou a fazer) e a aumentar as sanções contra a Rússia. O ex-vice-presidente Joe Biden há pouco se rejubilou num artigo que é um primor de sutileza já no título: “Defender a democracia contra seus inimigos: como resistir ao Kremlin”.4
Ao mesmo tempo, os senadores democratas da Comissão de Política Externa publicavam um relatório que analisava “o ataque assimétrico de Putin à democracia na Rússia e na Europa”. Ainda mais indignada que de costume, a jornalista pop star Rachel Maddow, porta-voz da “resistência” a Trump na cadeia NBC, replicou sem demora: “Nosso presidente não apenas deixou de extinguir esse incêndio como ficou observando o avanço das chamas!”. Ela pode dormir tranquila: o Pentágono saberá defendê-la.

*Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.



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