ARTIGO

Palimpsestos de meandros e várzeas reinscritos na paisagem sob os pés de São Paulo

Como a arqueologia urbana pode expor escolhas do passado que reverberam nos alagamentos da cidade

O título deste ensaio sintetiza uma das formas pelas quais a arqueologia urbana interpreta a cidade: como um palimpsesto. Assim como um manuscrito que foi raspado para receber uma nova escrita, mas preserva vestígios do texto anterior, a paisagem urbana é continuamente inscrita e reinscrita ao longo do tempo. A ideia dialoga com a definição da urbanista Raquel Rolnik de que a cidade é uma escrita. No entanto, essa escrita nunca se realiza sobre uma folha em branco. Cada nova intervenção é produzida sobre paisagens preexistentes, como rios, várzeas, caminhos, edificações e formas de ocupação, que raramente desaparecem por completo. Mesmo quando soterradas, canalizadas ou aterradas, essas paisagens continuam inscritas na cidade e, muitas vezes, seguem condicionando sua dinâmica cotidiana.

O historiador e filósofo francês Michel de Certeau sugeriu que o passado nunca permanece definitivamente encerrado. Assim como um fantasma, ele retorna ao presente sob formas inesperadas, tornando visível aquilo que se acreditava ausente. Em São Paulo, os alagamentos podem ser compreendidos como uma dessas manifestações. Embora frequentemente tratados como consequências imediatas das chuvas intensas ou das mudanças climáticas, eles também revelam o retorno de uma paisagem fluvial que a urbanização procurou soterrar, mas jamais conseguiu apagar por completo. Ao tornar visíveis essas camadas da cidade, a arqueologia urbana permite compreender como escolhas feitas ao longo da urbanização continuam produzindo efeitos no presente.

Essa imagem do fantasma não é casual. Michel de Certeau a desenvolve em diálogo com a psicanálise de Sigmund Freud, para quem aquilo que parece ausente pode continuar modelando sem ser imediatamente reconhecido. O fantasma não é o retorno literal do passado, mas a manifestação de algo que nunca foi completamente elaborado ou apagado. A história, para Certeau, funciona de maneira semelhante. O passado não reaparece intacto; ele retorna disfarçado, inscrito em acontecimentos cotidianos que raramente percebemos como heranças de outros tempos.

Talvez seja justamente essa uma das contribuições da arqueologia urbana. Seu trabalho não consiste em “fazer o passado voltar”, mas em reconhecer essas permanências materiais que continuam atuando na cidade. A escavação não revela apenas objetos soterrados. Ela permite identificar processos históricos que permanecem reconfigurando, ainda que sob outras formas. O arqueólogo parte dos vestígios materiais e, a partir deles, reconstrói transformações da paisagem que ajudam a compreender fenômenos observados no presente.

É na relação entre as camadas que se constrói a interpretação arqueológica. O arqueólogo parte dos vestígios materiais para compreender como eles continuam condicionando as paisagens posteriores, e não do presente para simplesmente ilustrar o passado.

Foi sob essa perspectiva que comecei a compreender um conjunto de sítios arqueológicos distribuídos pelo setor oeste da cidade de São Paulo. Embora muitos deles estejam concentrados na região da Água Branca, cada pesquisa havia sido conduzida de forma independente, vinculada a diferentes empreendimentos e momentos da arqueologia preventiva. À primeira vista, pareciam contar histórias distintas. Foi justamente a leitura integrada desses contextos que começou a revelar uma outra história: a da própria construção da paisagem urbana paulistana.

Essa trajetória começou em 2003, com as escavações realizadas no antigo terreno da Fábrica de Louças Santa Catharina, fundada em 1913 e posteriormente incorporada às Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. As escavações revelaram os vestígios da antiga produção de louça. No entanto, chamavam ainda mais atenção as espessas camadas formadas por refugos industriais utilizados como aterro. Aquilo que parecia apenas descarte mostrava que os resíduos da fábrica haviam participado da transformação física da cidade.

Durante algum tempo, aquela descoberta poderia ser entendida como uma particularidade da antiga Santa Catharina. Afinal, fazia sentido que uma fábrica reutilizasse seus próprios resíduos. No entanto, novas pesquisas arqueológicas começaram a mostrar que aquele padrão estava longe de ser um caso isolado.

As escavações na antiga Vidraria Santa Marina reforçaram essa percepção. Também ali, os vestígios arqueológicos indicavam sucessivas intervenções destinadas à remodelação do terreno, agora associadas à produção vidreira. Mais uma vez, a arqueologia não revelava apenas uma indústria, mas a maneira como ela participava da construção física da cidade.

Nesse período, outros sítios arqueológicos também foram encontrados – como Sara de Souza, Pompeia, Venâncio Aires, Água Branca, Santa Marina II e Falha Taxaquara – e começaram a ampliar essa leitura. Nenhum deles repetia exatamente o outro, mas todos apresentavam indícios das mesmas práticas de ocupação. Sucessivos aterros, remodelações do relevo e intervenções associadas à expansão industrial sobre as antigas várzeas dos tributários do rio Tietê apareciam repetidamente, apesar das diferenças entre os contextos arqueológicos.

Foi então que a interpretação deixou de ser a história de cada fábrica ou de cada sítio arqueológico. Observados em conjunto, esses contextos revelavam que a industrialização não havia apenas ocupado uma paisagem existente. Ela havia construído outra.

A leitura integrada desses sítios também permitiu compreender por que essas transformações se concentravam justamente naquele setor da cidade. Durante a expansão industrial, as várzeas do rio Tietê e de seus tributários foram progressivamente aterradas para dar lugar a fábricas, bairros operários e vias de circulação. Para tornar esses terrenos ocupáveis, antigos meandros foram eliminados e sucessivos depósitos de terra, entulho e resíduos industriais remodelaram a paisagem. As camadas identificadas nas escavações eram parte desse processo de construção da cidade.

Trecho do rio Tietê na cidade de São Paulo – Foto: Ana Paula Hirama/Flickr

Essa compreensão também alterou a maneira como passei a olhar os alagamentos de São Paulo. Ao sobrepor mapas históricos às áreas atualmente inundáveis, tornou-se evidente que muitos dos locais que hoje sofrem com enchentes coincidem com antigas várzeas e meandros do rio Tietê. A água parece seguir caminhos que jamais deixaram de existir. Não porque o passado tenha voltado, mas porque ele permaneceu inscrito na própria paisagem urbana.

A arqueologia, nesse caso, evidencia que muitas das escolhas realizadas ao longo da urbanização continuam condicionando a cidade contemporânea. Os alagamentos deixam de ser apenas eventos naturais ou problemas de infraestrutura para revelar a permanência de uma paisagem ainda presente sob nossos pés.

Ao olhar para esses sítios arqueológicos, a cidade deixa de ser apenas o cenário onde a arqueologia acontece. Ela própria passa a constituir o registro arqueológico. As antigas várzeas, os aterros industriais, os cursos d’água canalizados e as sucessivas camadas de urbanização deixam de ser elementos separados para compor uma única estratigrafia, construída ao longo de mais de um século de transformações. O que antes parecia uma sucessão de pesquisas independentes revelou-se parte de um mesmo registro arqueológico. É justamente essa mudança de escala que permite compreender São Paulo como um grande palimpsesto urbano.

Sob esse olhar, os alagamentos deixam de ser apenas episódios ocasionais ou falhas da infraestrutura contemporânea. Eles passam a evidenciar a permanência de escolhas feitas durante a expansão da cidade. A água não “lembra” o caminho dos antigos rios; ela simplesmente continua respondendo a uma paisagem que jamais deixou de existir completamente, ainda que tenha sido aterrada, canalizada e recoberta por sucessivas camadas de urbanização.

Talvez seja essa uma das principais contribuições daquilo que proponho chamar de arqueologia com a cidade. Não se trata apenas de fazer arqueologia na cidade, tomando o espaço urbano como cenário das escavações, nem apenas de fazer arqueologia da cidade, reconstruindo sua história material. Trata-se de compreender a cidade como participante da própria investigação arqueológica. Seus conflitos, suas permanências, suas transformações e suas formas de apropriação tornam-se parte do processo interpretativo. Os sítios arqueológicos deixam de ser registros isolados para dialogar continuamente com a cidade que continua sendo produzida sobre eles.

Porque, no fim, fazer arqueologia com a cidade é compreender que o passado não permanece enterrado esperando ser descoberto. Ele continua habitando o presente, não como uma lembrança distante, mas como parte da própria matéria da cidade. Talvez seja por isso que escavar São Paulo nunca signifique apenas investigar aquilo que ficou sob nossos pés, mas também aprender a reconhecer, na cidade em que vivemos, as camadas de tempo que continuam moldando seu futuro.

 

Piero A. B. Tessaro é historiador e arqueólogo, doutor em Arqueologia pela Universidade de São Paulo (USP). Suas pesquisas concentram-se em arqueologia urbana, patrimônio cultural e memória, com ênfase nas relações entre arqueologia e cidade. 

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