Pan-demônio e Sars-Cov-2 - Le Monde Diplomatique

A CRIAÇÃO INTENSIVA DE ANIMAIS

Pan-demônio e Sars-Cov-2

por Larissa Bombardi, Immo Fiebring e Pablo Luiz Maia Nepomuceno
28 de dezembro de 2020
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Há uma inequívoca correspondência na distribuição espacial entre as áreas com grande presença de suinocultura e/ou de frigoríficos e aquelas com alta taxa da população infectada por Covid-19 

trocadilho entre as palavras pandemia e pandemônio parece-nos cada vez mais apropriado quanto mais avançamos nos meses e nos deparamos com uma angústia que arrebata a humanidade de uma forma jamais vista. Muitas perguntas nos rodeiam. Entre elas: o que há de específico neste momento da humanidade que poderia estar na raiz da disseminação de um vírus com a “virulência” que tem se dado? 

Há algo de alvissareiro no pandemônio trazido com a Covid19? Diante de quais desafios estamos? A vacina resolve um problema efetivamente ou é um paliativo para enfrentarmos este momento? Qual é a chance de novos vírus com essmesmo potencial surgirem? Que condições permitiram que surgisse? Essas e tantas outras perguntas têm nos rodeado e, no entanto, estamos apenas tateando pistas para construir as hipóteses que respondam a elas. 

Entre tais pistas, os autores que aqui escrevem passaram a investigar uma possível correspondência espacial entre as áreas com criação intensiva de porcos e aquelas com altas taxas de população infectada por Covid-19Essinvestigação teve início com a divulgação na imprensa, a partir de abril de 2020, de diversos casos de trabalhadores da indústria da carne infectados pelo novo coronavírus. De acordo com as notícias, muitas dessas plantas industriais têm se revelado hotspots de disseminação do vírus. 

As doenças infecciosas não são novidade entre os animais criados nessmodelo industrial. Rob Wallace relembra que o Sars-Cov-2 “representa apenas uma das novas cepas de patógenos que subitamente surgiram como ameaça aos seres humanos neste século” (Wallace, 2020, p.527). 

Foquemos nossa atenção nos Estados Unidos, que, no mundo ocidental, são maior produtor de porcos e, de alguma maneira, protagonizaram essmodelo de produção intensiva de animais. 

Em meados deste ano, a governadora do Michigan emitiu uma ordem de segurança exigindo que os frigoríficos adotassem um protocolo de proteção mais rigoroso para a segurança sanitária de seus funcionários (State of Michigan, 2020)Ao emitir o documento, governadora afirmou que os frigoríficos provaram ser uma porta de entrada para infecções por Covid-19 em outros estados (MSN, 2020). 

Em recente artigo de discussão, elaboramos a hipótese  ainda não comprovada  de que as infecções por Covid-19 podem ocorrer não apenas por transmissão de pessoa a pessoa, ou por vírus dispersos em partículas de saliva humana e/ou presentes em suas secreções e excrementos, mas também por meio de porcos infectados. Ao final, questionamos: será que os porcos contrairiam Covid-19, carregariam o vírus e, por sua vez, nos infectariam? E, se infectados com o Sars-CoV-2, os seres humanos poderiam transmitir o vírus aos porcos? (Fiebrig; Bombardi; Nepomuceno, 2020).  

Estudos recentes têm indicado que há a possibilidade de porcos contraírem Covid-19. Eles se apoiam na semelhança imunológica e fisiológica entre porcos e humanos (Sachs, 1994) e entre porcos e primatas em geral (Yu et al., 2015), bem como semelhanças entre as mucinas suínas no intestino e nas doenças das vias aéreas (Rampoldi et al., 2014; Ostedgaard et al., 2017). 

Em reportagem recente (SCMP, 2020) relatou-se uma experiência conduzida pelo serviço militar dos Estados Unidos que concluiu que é possível a permanência do vírus Sars-CoV-2 em peles de porcos por até quatro dias em temperatura ambiente e, sob refrigeração, por até duas semanas. 

 

Indústria da carne
1 Como esses animais são alimentados? Essencialmente com ração produzidacom grãos como soja e milho. Para cada quilo de carne de porco produzida, são necessários 3 quilos de cereais; estes são em sua maioria transgênicos, produzidos em grande parte na América Latina. A produção intensiva de grãos no Brasil envolve graves problemas ambientais e sociais: desde o desmatamento da Amazônia (Express Informer, 2020), passando pelo uso intensivo de agrotóxicos, até um impacto na segurança alimentar do país em função da diminuição de áreas voltadas à produção de alimentos. Para efeito de comparação: a área ocupada com o cultivo da soja no Brasil é maior do que todo o território da Alemanha, e a expansão agrícola também se revela como uma das principais causadoras do aumento nas taxas de desmatamento da floresta amazônica.
2 Como esses animais são criados?As condições de criação,em especial no caso de porcos e galinhas, são consideravelmente degradantes e inadequadas: não há espaço para os animais se moverem e eles não têm acesso ao solo, tampouco à luz solar. Como tal, os animais se alimentam, defecam e dormem praticamente no mesmo lugar. Para evitar a propagação de doenças e a exacerbação de seus sintomas, é bastante comum incluir antibióticos e outros fármacos em suas dietas (Fiebrig; Bombardi; Nepomuceno, 2020).
3 Como esses animais são abatidos?O abate desses animais e o trabalho nos matadouros causam alguns tipos de sofrimento tanto nos animais como nos seres humanos. Reclamaçõesquanto às más condições de trabalho nos frigoríficos crescem diariamente e incluem a aglomeração de trabalhadores em seus ambientes de trabalho, condições degradantes de moradia, jornadas extensas e ininterruptas, baixos salários e falta de pagamento de horas extras. Além disso, boa parte dos trabalhadores é migrante. Esscondição degradante de trabalho, aliada com a condição precária de criação desses animais, está, provavelmente, na raiz da disseminação da infecção nessas regiões. 

Em artigo anterior já discorremos sobre a hipótese de que tais animais – os porcos – também possam ser vetores dessinfecção. Os porcos têm diversas similaridades com os seres humanos, que vão desde o sistema gastrointestinal até membranas respiratórias, passando por similaridades genéticas (Rampoldi et al., 2014; Ostedgaard et al., 2017; Sachs, 1994; Yu et al., 2015). A condição de imunodepressão em que esses animais vivem os torna ótimos receptáculos para o desenvolvimento de infecções (febre suína, africana etc.) e para que possam ser um “local” ideal para a adaptação e mutação virais. 

 

Correspondência espacial nos Estados Unidos

Os mapas que apresentamos à direita mostram – inequivocamente – uma correspondência na distribuição espacial entre as áreas com grande presença de suinocultura e/ou de frigoríficos e aquelas com alta taxa da população infectada por Covid-19 nos Estados Unidos. 

Nota-se, no Mapa 1, que a maior densidade de porcos nos Estados Unidos tem um núcleo bastante claro na região MeioOeste, abrangendo Minnesota, Iowa (que é o centro dessregião produtora de porcos), Nebraska, Illinois, Missouri, Indiana e Ohio. Há também uma importante concentração da suinocultura na Pensilvânia na Carolina do Norte. 

No Mapa 2, utilizamos o mapa anterior como base e sobrepusemos a taxa da população infectada por Covid-19, por condado, até 26 de junho de 2020. Nota-se que os estados localizados nas porções leste sudeste dos Estados Unidos são os que mais se destacam em relação às altas taxas de população infectada, o que, de certa forma, é esperado, em função da alta densidade demográfica nessas áreas (Mapa 3), uma vez que a infecção se propaga por meio do contato interpessoal. 

Pela comparação dos mapas 2 e 3 pode-se notar também que a maioria das áreas com altas taxas de população infectada por Covid-19 corresponde àquelas com alta densidade demográfica e/ou contíguas a elas, sobretudo nas porções nordeste e sudeste do país. Curiosamente, no entanto, há outro hotspot de altas taxas de população infectada por Covid-19, que corresponde exatamente às áreas com criação intensiva de porcos. 

Observa-se que os estados da região Meio-Oeste e, dentro destes, as áreas com intensa produção de suínos são omesmas em que existem altas taxas de casos confirmados de Covid-19. 

É importante notar também que as áreas com maior densidade demográfica não correspondem àquelas de maior densidade de porcos. Nesse sentido, vale ressaltar que, na região Meio-Oeste, onde se concentra a produção intensiva de suínos, a densidade populacional é relativamente baixa. Ainda assim, há uma alta taxa de população infectada por Covid-19, conforme mostrado no Mapa 2. 

Desse modo, para verificarmos a real correspondência espacial entre esses elementos, selecionamos os condados com mais de 500 casos de pessoas infectadas por Covid-19 por 100 mil habitantes e aqueles em que há mais de 10 porcos por 100 acres agricultáveis de cada condado. O resultado dessa sobreposição está representado no Mapa 4, em que se verifica uma significativa correspondência espacial. 

Degradação ambiental e humana

Nota-se na porção leste dessmapa um hotspot importante na Carolina do Norte. Há uma peça jurídica nessestado, de 2020, envolvendo uma contenda entre vizinhos em torno de uma propriedade com criação intensiva de porcos. As informações contidas nesspeça (disponível em: https://bit.ly/3nIg9cVsão de fato impressionantes e trazem à luz algo que devemos – para além de estar cientes – repensar. Ela envolve o direito dos vizinhos  que vivem nas proximidades da área com criação intensiva de porcos – de usufruir de maneira saudável sua própria propriedade. E por que não o fariam? Simplesmente porque o grau de degradação na criação dos porcos é tão elevado que afeta não apenas e diretamente os próprios animais, mas também todo o entorno. 

Segundo relatado nesspeça, os porcos são criados em um tal grau de confinamento que, conforme os animais vão crescendo e literalmente grudando uns nos outros, suas fezes, que deveriam escoar por entre frestas no assoalho para serem posteriormente descartadas, em parte escorrem e em parte não têm espaço para escorrer. O que ocorre é que os porcos têm a pele coberta por fezes. As que escorrem, por sua vez, são posteriormente pulverizadas para “fertilizar” as plantações. As doenças, que são decorrentes dessa condição de poluição do ar, afetam severamente a população: cerca de 50dos trabalhadores tiveram um ou mais dos seguintes problemas de saúde: bronquite, síndrome da poeira tóxica, doença hiper-reativa das vias aéreas, irritação crônica das membranas e mucosas, asma ocupacional e intoxicação por sulfeto de hidrogênio. 

Esse relato nos parece suficiente para questionar esse modelo de alimentação humana que nos é imposto, quando o alimento (seja vegetal ou animal) é coisificado, ou seja, é transformado em uma mercadoria destituída de sentido. A transformação dos animais em “massa de proteína animal” tem se mostrado deletéria não apenas para os animais, mas também para os seres humanos e o meio ambiente. Não é de estranhar, portanto, que novas cepas tenham surgido na velocidade com que o fizeram neste século, como bem mostra Rob Wallace (2020) 

A precariedade prevalece em todesse processona produção dos grãos que alimentam esses animais (transgênicos e com alta carga de agrotóxicos), passando pelo processo de criação industrializada e, finalmente, muitas vezes, pela degradação do trabalho humano. Não há dúvida de que a pandemia de Covid-19 está inscrita nesse ciclo. 

Devemos, portanto, nos perguntar neste momento: o que o pandemônio trazido pela pandemia traz como desafio para a humanidade? Que aspecto social subjaz à pandemia? O que podemos transformar para não termos de lidar com o mesmo desafio nos próximos anos? 

 

*Larissa Bombardi é professora do Departamento de Geografia da USP (larissab@usp.br); Immo Fiebrig é professor associado honorário da Escola de Biociências da Universidade de Nottingham, Sutton Bonington Campus (immo.fiebrig@nottingham.ac.uk); Pablo Luiz Maia Nepomuceno é do Departamento de Geografia da USP (pablo.nepomuceno@usp.br). 

 

Referências bibliográficas 

EXPRESS INFORMER. Brazil’s beef and soy exports to the EU linked to illegal deforestation, study finds. 2020. 

FIEBRIG, I.; BOMBARDI, L. M.; NEPOMUCENO, P. L. M. Hypothesising on the emergence of SARS-CoV-2 through bats: Its relation to intensive pig-factory farming and the agro-industrial complex. ResearchGate, Discussion Paper, p.1-8, 2020. 

MSN. Whitmer signs order outlining safety guidelines for meat processing plants. 2020. 

NEGRÃO, S. L. Uma análise do ciclo de produção agroindustrial de suínos e aves, à luz da ética globalTese – UFSCFlorianópolis, 2008. 

OSTEDGAARD, L. S. et al. Gel-forming mucins form distinct morphologic structures in airways. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2017. 

RAMPOLDI, A. et al. Inheritance of porcine receptors for enterotoxigenic Escherichia coli with fimbriae F4ad and their relation to other F4 receptors. Animalv.8, n.6, p.859-866, 2014. 

SACHS, D. H. The pig as a potential xenograft donor. Veterinary Immunology and Immunopathologyv.43, n.1-3, p.185-191, 1994. 

SCMP. Coronavirus can live for four days on animal skin: US military study. 6 jul. 2020.  

STATE OF MICHIGAN. Safeguards to protect Michigan’s workers from Covid-19. Executive order n.2020-145 Rescission of Executive Order 2020-114, 2020.  

WALLACE, R. Pandemia e agronegócioElefante, São Paulo, 2020. 

YU, H. et al. Genome-wide characterization of PRE-1 reveals a hidden evolutionary relationship between suidae and primates. 2015.



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