Para adiar o fim do mundo - Le Monde Diplomatique

SAÍDA PELO COLETIVO

Para adiar o fim do mundo

por Roger Flores Ceccon
27 de setembro de 2021
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Para adiar o fim do mundo não basta diminuir o consumo de água, comer orgânico ou meditar. É muito além disso, é a construção de uma nova forma de habitar o planeta terra, que o acúmulo de saberes e da ética proposta pelo campo da Saúde Coletiva nos últimos anos pode nos ajudar a implementar

Para adiar o fim do mundo: este tema é uma provocação que tem me afetado desde a leitura da produção intelectual de Ailton Krenak[1], indígena que nos oferta uma cosmovisão acerca de como a humanidade tem se apropriado e destruído a Terra nos últimos séculos. Não se trata de uma filosofia do apocalipse, mas uma notícia antiga, que os saberes tradicionais já apontavam há tempos, mas nós, os brancos, não nos importamos, e as consequências são as experiências sociais desastrosas que temos acompanhado.

O pensamento do Krenak, e também de Davi Kopenawa[2], um indígena xamã Yanomâmi de grande importância intelectual, apontam que o fim do mundo está sendo antecipado pela forma predatória imposta pelo homem branco, da noção de humanidade construída enquanto epistemologia dominante, dos valores cultuados, da ideia de “ser humano” superior a tudo e a todos. Superior às florestas, aos animais, aos rios, aos mares, às rochas. Superior até mesmo que à própria Terra.

Nós estamos, portanto, consumindo o mundo e o planeta. Extraindo seus recursos como se fossem nossos. Destruindo florestas, rios, mares, campos; passando veneno, comendo veneno, embora tudo isso, no fundo, se trate do consumo da própria vida. Uma autodestruição da espécie. A vida como utilidade capitalista, sob o regime desenvolvimentista da civilização ocidental. A pergunta do Caetano Veloso que compõe a música Cajuína nos ajuda a pensar: “Existirmos, à que será que se destina?”.

Nessa forma de viver, à cada hora necessitamos de uma nova mercadoria, e nessa lógica a natureza também se torna mercadoria. Natureza como coisa não humana. O humano, no pensamento hegemônico branco, está fora da natureza. Ele é o outro. Trata-se, portanto, de um modo de vida alienado, uma maneira irresponsável de habitar o mundo. Há milhares de anos pensamos que os humanos podem agir sobre o planeta impunemente. Para esses autores, ainda, é inadmissível a existência de apenas uma forma de viver, uma única noção de humanidade. E essa forma é imposta tanto pelo regime macroestrutural e ideológico há séculos, quanto individual, micropolítico, como quando influencers, coachs e religiosos nos dizem como devemos nos portar, pensar, vestir, comer, do qual todos aqueles que rompem com a “moda” merecem ser excluídos, outros dizimados, como foram os indígenas no Brasil.

Dois pequenos exemplos: ao lado da minha casa tem um terreno, grande, que possivelmente nunca havia sido habitado até os dias atuais. Há milhares e milhares de anos aquele pedaço de terra estava ali, daquele jeito, com terra, grama, mato, arbustos, árvores e bichos. Uma família, nos últimos dias, comprou este terreno, construiu uma casa e cimentou todo o chão. Fez calçada em uma grande parte e colocou lona e pedra brita em outra. Sufocou completamente aquela terra, castrou a vida da terra. O humano matou aquele pedaço de existência. Outra anedota se refere à Garopaba, cidade litorânea de Santa Catarina, onde um casal comprou um terreno nos pés da montanha. Naquele terreno havia uma rocha, também milenar. Uma rocha de aproximadamente um metro e meio de altura, linda, cheia de vida. O casal fez da rocha uma lareira, abriu ela com uma picareta, e nela faz fogo diariamente. É o homem queimando o minério.

Mas o fim do mundo pode ser uma metáfora dos mais de 600 mil mortos pela Covid-19. O fim do mundo pode ser a vida de uma mãe ou de um pai que perdeu o filho; uma metáfora de quem tem fome, quem tem medo, quem não tem casa, quem tentou suicídio, quem não conseguiu levantar da cama de tanta tristeza, quem descobriu um câncer. O fim do mundo também é uma metáfora para representar a “inexistência social e política” de muitos, de milhares, em todos os lugares e contextos. Pode ser, inclusive, temporário, mas que machuque à ponto de perdurar o resto dos tempos. O fim do mundo pode é paralisante.

fim do mundo
Profissionais da saúde, acompanhados pela Coordenação de Saúde Indígena e Populações Tradicionais (Cesipt) da Secretaria de Estado de Saúde do Pará (Sespa) atendem indígenas da etnia Kayapó, da Aldeia Mojdjã, no município de Tucumã (PA) (Foto: Marcelo Seabra/ Agência Brasil)

Mas “quando eu piso no chão, não é meu rastro que fica, mas o nosso”. Essa frase, dita por Krenak em um diálogo no canal do youtube “O lugar”, além da beleza estética nela contida, nos realoca ao princípio da coletividade. E por isso, para esse autor, não vamos nos salvar sozinhos de nada, estamos todos enrascados. Por isso, para adiar o fim do mundo não basta diminuir o consumo de água, comer orgânico ou meditar. É muito além disso, é a construção de uma nova forma de habitar o planeta terra, que o acúmulo de saberes e da ética proposta pelo campo da Saúde Coletiva nos últimos anos pode nos ajudar a implementar.

Portanto, proponho, como pista para adiar o fim do mundo, como paraquedas colorido para cair mais devagar, a adoção de uma ética próxima aos princípios da Saúde Coletiva. Mas de que Saúde Coletiva eu falo? Porque, para mim, diferentemente de outras vertentes do pensamento, embora haja definições conceituais, ela não tem borda. Não há limites. A Saúde Coletiva transborda, porque se trata de uma prática, uma forma de pensar, de existir, de agir, de viver, de afetar e ser afetado. E aí cada sujeito vai produzir uma Saúde Coletiva diferente. Cada pessoa que habita a Saúde Coletiva, seja profissional de saúde, professor, estudante, pesquisador, usuário do serviço de saúde, a habita de maneira diferente. São éticas diferentes, embora sob o mesmo paraquedas. A minha é de alguém que transita, acredita e aposta na epidemiologia, na política, nas ciências sociais e humanas, na gestão, nas universidades, nos serviços de saúde, nas pessoas, na rua, na periferia, na música, na favela, nos movimentos sociais, na natureza. Eu vejo a Saúde Coletiva em todos os lugares por onde perambulo. É uma lente. E é daí, desse caldo, que ela emerge e me compõe. Eu não sou a Saúde Coletiva, mas ela, certamente, é uma das muitas coisas que me produzem subjetividades.

Nos últimos dias fiquei pensando em quando me tornei sanitarista. E acho que isso aconteceu quando via minha mãe, Neiva Flores Ceccon, trabalhar na unidade de saúde numa zona rural, pobre, de estrada de chão batido. Ela foi enfermeira de São Pedro das Missões por 20 anos, há 150 km da sua cidade. Ela ficava de segunda a sexta nesse local, morando numa pensão, e retornava para casa aos finais de semana. E neste local, de madrugada, às três ou quatro horas da manhã, no frio do interior gaúcho, os moradores da cidade batiam na casa onde ela morava lhe pedindo ajuda. Eram pessoas com dor de cabeça, náusea, vômito. Pessoas que tinham tido uma queda, uma convulsão. E ela levantava, ia até a casa da pessoa, e cuidava. Quase todos os dias, sem pagamento por isso, fora do espaço institucional do serviço de saúde onde ela era contratada. Havia ali um rastro coletivo quando ela pisava no chão. E eu via aquilo com empolgação, ainda adolescente, quando passava minhas férias com ela nessa localidade. Minha mãe foi a primeira grande sanitarista que eu conheci.

Mas meu desejo por ser sanitarista se reforçou quando, em 2005, comecei a trabalhar em um serviço de saúde para pessoas que viviam com aids. Um SAE. Isso mudou completamente a minha vida, pela intensidade da afetação que aquilo me provocou. Tinha 17 anos e era meu primeiro emprego como estagiário. Durante todo o tempo, todos os dias, eu conversava muito com aquelas pessoas, e muitas são minhas amigas até hoje, quinze anos depois. Ouvir as histórias daquelas pessoas começou a adiar, ao menos para mim, o fim do mundo. Porque Ailton Krenak nos dá uma pista de que contar e ouvir histórias pode ajudar a adiar o fim.

E por que a Saúde Coletiva pode adiar o fim do mundo? Por que ela pode se constituir como um paraquedas colorido para pararmos de cair? Ou para cair mais devagar? Por que ela pode ser uma estratégia de resistência?

Porque ela é um campo do conhecimento e de práticas de saúde (aqui me utilizo do seu conceito ampliado) cuja ética, estética e política busca a produção do comum e de coletivos ao invés da individualização e da competição; valora a diversidade ao invés da unidade; a justiça social em contraponto à desigualdade; a solidariedade ao invés da individualidade; os direitos humanos ao contrário do lucro; a proteção dos vulneráveis, dos marginais, dos excluídos. E para isso estuda e experimenta incessantemente formas de pôr em prática estes princípios, na resistência ao capitalismo, ao conservadorismo, ao racismo, à homofobia, ao sexismo, à forma atual e hegemônica de viver na sociedade atual. Porque buscamos, nós, os sanitaristas, uma certa maneira de produzir saúde, vida, potência e existência pelo diálogo, pelas histórias de vida, pelas narrativas; porque ela busca a produção de autonomia, de democracia. E isso, sem dúvida, pode adiar o fim do mundo, ainda que metafórico.

Amanhã vai ser outro dia, e cabe à nós, os humanos, adiarmos o fim que ajudamos a murar.

 

Roger Flores Ceccon é pós-doutor em Saúde Coletiva (UFRGS)

 

1 Krenak A. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras; 2º edição, 2019.

[2] Kopenawa D; Albert B. A queda do céu. Companhia das Letras; 1ª edição, 2019.



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