EDITORIAL

Para onde?

Entre o colapso climático e o impasse político, a COP 30 expõe o esgotamento do capitalismo verde: enquanto empresas e governos transformam a sustentabilidade em negócio, movimentos populares tentam resgatar o sentido coletivo da luta por um planeta habitável

A COP 30 é o retrato do momento que vivemos. Cheia de contradições, pressões, interesses em jogo. Os olhares do mundo se voltam para Belém, mas com baixas expectativas. Diante do enorme e urgente desafio do aquecimento global, o capitalismo não encontra formas de resolver a questão, e suas empresas partem para o lobby e o greenwashing, buscando adiar o inadiável.

A economia estruturada em torno do motor a combustão e do consumo de petróleo é confrontada por avanços tecnológicos de uma economia digital, globalizada, que se organiza em torno da inteligência artificial, em busca de novas fontes de energia e liderada pelas big techs.[1]

São projetos de sociedade, de organização da vida das pessoas e da economia que estão em conflito. A sociedade movida pelo petróleo e a sociedade movida por sinais eletrônicos. Em comum, os dois projetos encontram formas diferenciadas de se apropriarem da riqueza produzida e promoverem a desigualdade e a exclusão.

Mas a COP 30 é também espaço de expressão de outra disputa, muito mais ampla. A sociedade se organiza para atender aos interesses do mercado, isto é, das empresas e seus acionistas, ou para atender às demandas da cidadania, beneficiar a qualidade de vida, evitar a catástrofe ambiental e enquadrar a ação das empresas para colaborarem com esses objetivos?

© Claudius

Nessa reunião internacional que vai ocorrer em Belém, hegemonizada pelos lobbies empresariais e por uma visão desenvolvimentista, a agenda de discussão é como transformar a sustentabilidade ambiental em bons negócios. E quem controla a agenda está mais preparado para influenciar os resultados. Vai se discutir, por exemplo, a transformação da floresta em pé em commodities, via crédito de carbono…

A democracia liberal buscou regular o mercado e os conflitos de maneira a, mediante concessões, garantir a estabilidade do poder e o tradicional controle da sociedade pelas elites, especialmente as financeiras. As pressões dos “de baixo” impunham limites, arrancavam concessões, exigiam garantias, em um cenário em que as regulações nacionais tinham algum vigor.

Mas a realidade está mudando, especialmente a partir da crise financeira de 2008. As fusões e incorporações, assim como o crescimento vertiginoso das big techs, criaram novos importantes atores privados e um novo modelo de regime político, que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo.[2]

Os bancos e fundos financeiros, juntamente com as principais empresas da economia digital, se descolaram do controle do Estado e passaram a influenciar de maneira importante suas políticas públicas. Empresas valem trilhões de dólares e exercem um poder que nunca tiveram – desafiando leis nacionais, por exemplo. Tornam-se mais poderosas que muitos Estados. A democracia, as leis e o interesse comum tornam-se empecilhos para seus negócios.

Com a agenda centrada no financiamento climático, com empresas interessadas em ganhar dinheiro com a construção da sustentabilidade ambiental, com os lobbies de mineradoras, petroleiras e agronegócio, com o apoio de governos ao modelo extrativista, não se pode esperar grandes mudanças com a COP 30, apesar dos esforços do governo brasileiro.

O cenário mundial realmente não ajuda no enfrentamento da crise climática. A Europa se arma na perspectiva de um confronto com a Rússia; os Estados Unidos se retiraram do Acordo de Paris; as guerras continuam na Ucrânia e no Oriente Médio. As prioridades são outras, e não há dinheiro para viabilizar o financiamento climático.

Não importam as chuvas torrenciais e as inundações; não importam as secas, os ciclones, os furacões; não importa que o fogo tenha devastado a Amazônia, a Grécia, a Espanha, Portugal, a Califórnia. Não importam as migrações forçadas, o empobrecimento, as vidas e os bens perdidos com essas catástrofes climáticas. Não importa o furacão Melissa, classificado como de intensidade máxima, que se abateu sobre a Jamaica causando grande destruição e mortes. Todos esses acontecimentos são considerados efeitos colaterais inevitáveis do modelo de desenvolvimento, e o foco não está em sua superação, mas na mitigação de seus efeitos.

Os cientistas do clima nos dizem que ultrapassamos o limite para conter o crescimento do aquecimento global, mas os governos nacionais, em sua esmagadora maioria controlados pelos interesses das grandes empresas, ignoram a crise ambiental e apostam no crescimento e na acumulação.

“Como é impossível prescindir dos combustíveis fósseis, do transporte globalizado de mercadorias, da agricultura industrial e de outras múltiplas atividades econômicas responsáveis pelas mudanças climáticas, mas necessárias para o bom funcionamento da economia capitalista, só nos resta a possibilidade de nos adaptarmos.”[3]

O aquecimento global não pode ser enfrentado apenas por um ou alguns países. Ele é um desafio para a humanidade e precisa ser enfrentado de maneira conjunta pelos países, especialmente os mais poluidores. Vem daí a importância de resgatar os organismos multilaterais, criados após a Segunda Guerra Mundial, como ONU, FMI, OMC, Banco Mundial. Eles se fragilizaram nas últimas décadas, mas continuam sendo o que de mais próximo a um governo mundial foi criado até agora.

O impasse está criado, e talvez sejam necessários mais desastres e mortes para que a questão ambiental passe a ser considerada prioridade. O domínio da tecnologia para enfrentarmos o aquecimento global já existe – como os motores movidos a hidrogênio, que retiram da eletrólise da água sua energia. O impasse é político. Nem o sistema financeiro, nem as petroleiras e mineradoras, nem os desenvolvimentistas querem mudanças.

A pressão por mudanças deve vir da Cúpula dos Povos, evento que vai ocorrer simultaneamente à reunião dos governos, em Belém. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, militantes ecologistas, movimentos sociais e ONGs deverão apresentar denúncias e proposições à sociedade civil mundial e aos governos aí reunidos. A Cúpula dos Povos fará sua marcha pelas ruas de Belém, que será vista pelo mundo todo, denunciando o fraco empenho dos governos e apresentando alternativas para o enfrentamento do aquecimento global.[4]

 

[1] Ladislau Dowbor, O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais, Edições Sesc, São Paulo, 2020.

[2] Yanis Varoufakis, Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo, Crítica, São Paulo, 2025.

[3] Michael Löwy, “COP 30 – adaptação ou prevenção?”, A Terra é Redonda, 26 out. 2025.

[4] Idem.

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